Era a loucura e egoismo do amor, que fazia com que a conduzisse, para sentir ainda agonias mais violentas que a morte.
—«Oh! antes me deixasses sepultada na solidão dos steppes, exposta ás aves nocturnas, do que vermo-nos agora separados para sempre!»—Disse-me ella a abraçar-me phrenetica, louca, quando nos separaram, mal que chegámos ás minas da Siberia.
Os meus companheiros do infortunio não os tornei mais a ver; Hedwige foi condemnada ao trabalho das minas de mercurio, muito longe. Não soube mais d'ella. A mim, enfiaram-me um{91} capote de feltro e desceram-me por uma corda pelas gargantas da terra, por um boqueirão escuro; á medida que ia baixando, ia sentindo vozes confusas, ruido de enxadas. Então, vi na obscuridade profunda a luz baça e mortiça das lampadas de segurança, e uma multidão de homens escaveirados, magros; era uma cidade de mumias. Era aquella a minha habitação para doze annos de existencia. Admirava-me de ver alli crianças; filhos dos desgraçados obreiros, rachiticos, enfezados, não conheciam a luz do mundo, a vida resumia-se no trabalho insano. As dores que supportava haviam-me embotado o sentimento, tinha a impassibilidade do idiotismo, a mudez do assombro. Ás vezes uma lembrança longiqua de Hedwige e de minha mãe, a quem não pude dizer ao menos o extremo adeus, me davam a consciencia de que ainda vivia; mas não podia alliviar-me com as lagrimas.
Os que me viam nunca se atreveram a perguntar qual o meu crime. Não sei que esperança me prendia á vida, para que me não despedaçasse contra as rochas que ia arrancando. Estava já acostumado á obscuridade. Um dia começou a lembrança de Hedwige a occupar-me a imaginação. Seria uma saudade viva? algum presentimento? Lembrar-se-hia ella tambem de mim n'esse instante? Julgava-a já morta, criança e debil como era. Sem Hedwige, para que queria eu a vida? Oh! se a visse ainda uma vez morreria contente, resignado, perdoando tudo quanto{92} os que se dizem meus similhantes me fizeram soffrer.
Era uma loucura esta idéa. E continuavamos silenciosos a romper a mina lobrega e funda. Começámos a sentir um écco surdo; eram os trabalhadores de outras minas, que se encontravam. Continuei a trabalhar com mais afan, na direcção d'onde vinham os sons abafados.
Encontrámo-nos dias depois. Que alegrias, que abraços intimos entre aquelles socios da desgraça. Se estivesse ali Hedwige! Que fatalidade! o meu desejo era o presentimento. «Já te esqueceste de mim?» Senti um abraço sem vigor; fitei nas sombras o vulto, que me fallava e me estreitava a si. Era ella, livida, desconhecida, com a magreza da consumpção; o mercurio penetrára-lhe a parte esponjosa dos ossos. Tive horror do ente que amava, era só a compaixão que me prendia a ella.
—«Lembras-te das palavras de Simeão quando na apresentação do templo viu o Messias em seus braços? Hoje digo-te o mesmo, Karl; já posso morrer.»
E eu continuei a viver para vêr prolongados a miseria e os flagicios incriveis, que me cercavam. Já não tinha o amor, que alimentava as horas da minha solidão. Hedwige tinha-me expirado nos braços; soltára a alma candida, acrysolada nas tribulações, no ultimo beijo, que recebeu de mim. D'ahi por diante a vida pareceu-me mais impossivel de supportar; eu não vivia, vegetava como{93} o lichen no fundo de uma caverna escura. A imbecilidade proveniente da atonia e dos pesares indescriptiveis prolongara-me a existencia vegetativa.
Lembrava-me minha mãe. Se a tornaria a vêr ainda! Estaria ella já no sepulchro, ralada com a saudade da ausencia, cansada de esperar a volta do captiveiro? Sem successos, nem distracções, que me preoccupassem a vida, cada momento parecia-me um seculo de desesperação. Estes doze annos foram uma outra existencia. Quando voltei á patria julguei um renascimento; mas tornava a apparecer á luz do mundo para mais provações e dôres, porque minha mãe estava morta; a patria, o que ainda me fazia palpitar o coração com vida, vejo-a esquecida, inerte sob o jugo prepotente da Russia. Hoje escrevo-lhe, meu Poeta, porque é a unica pessoa, que me resta no mundo, e só me prende á vida o juramento, que fiz de immolal-a no altar da patria.—Karl.»
O Poeta anonymo da Polonia produziu com os seus poemas o mesmo que Mickiewich, o auctor do Banquete de Walenrood. Só depois de morto é que se soube o seu nome; era o conde Sigismundo de Krasinski. A liberdade da Polonia fôra o unico ideal da sua inspiração; é ella sempre que transluz nas maravilhas com que enriqueceu a litteratura polaca, nos Psalmos do Futuro, no Iridion na Comedia Infernal e na Tentação, a que anda ligado este facto que narrámos.{94}
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