[[1]] Strophes XIX, XX, XXI do poema O Ultimo, do conde Sigismundo Krasinski.

O relogio de Strasburgo

(CONTO DE 1352)

A Edade média está completamente caracterisada nas suas lendas; porque se não hade por ellas recompôr a historia, animal-a com essas côres vivas, dar-lhe movimento. A mais extensa, a que absorveu todas as imaginações rudes e creadoras, foi a lenda do Diabo, reproducção do dualismo persa, que apparece fatalmente no periodo instinctivo da genése religiosa. D'esta idealisação do mal provém, na arte, a realisação anonyma do grotesco, muitos dos velhos fabularios, e na ascese divina a tentação de que estão cheios Ribadaneyras e Bollandistas.

A sciencia, nos primeiros seculos da Egreja, foi despresada, amaldiçoada como inutil e perigosa,{96} porque tornava o espirito rebelde, orgulhoso; a alma perdia com ella a simplicidade, que a elevava até Deus. A observação das leis physicas do mundo era uma impiedade; Bacon e Sylvestre II foram olhados como feiticeiros. É um martyrologio interminavel o desenvolvimento da razão. Foi um dos algozes Sam Paulo: «Eu destruirei a sabedoria dos sabios e rejeitarei a sciencia dos eruditos. O que é feito dos sabios? O que é feito d'estes espiritos curiosos das sciencias do seculo? Não os ha convencido Deus da loucura das sciencias d'este mundo?» A Egreja não se contentou com a acrimonia da invectiva, quiz encarnar este verbo do obscurantismo. As luctas e as agonias que se seguiram estão perpetuadas em um sem numero de lendas sobre as revoltas do espirito, que vieram a synthetisar-se no typo do Fausto.

Em pleno seculo XIV. O sol brilhante, em um céo sereno e limpido de um dia de alegria, derramava-se em torrentes sobre a cathedral de Strasburgo. Voltada para o oriente, segundo o rigor do symbolismo religioso, recebia a luz do alto, como um cenaculo em que as linguas de fogo vinham revelar os mysterios da vida e a serenidade, que ella havia de infundir aos tristes que se accolhessem, corridos das tempestades do mundo, na tranquillidade do seu recinto. A luz reflectia-se coruscante das vidraças, que ostentavam um rosicler das côres mais caprichosas e vivas; cada pedra, cada angulo, cada saliencia destacava-se{97} mostrando os rendilhados e lavores exquisitos; a torre parecia então mais altiva, não topetava com as nuvens, perdia-se na profundesa do espaço azulado e puro. Era um bello dia de primavera.

Diante da cathedral magestosa foram-se agrupando pouco a pouco alguns vultos ociosos; e, attrahida na razão directa das massas, instantes depois a multidão fluctuava impaciente, como quem espera um prodigio annunciado, exempligratia, um ecclipse. Não era nenhum ecclipse, nem tampouco o apparecimento de um cometa, que então fazia tremer os pontifices e os reis. Não era mesmo procissão esplendida, que o povo e os amadores de tertulias estavam esperando com anciedade. O que seria então?

Uma figura extranha, embuçada em um tabardo escuro, chapéo emplumado ao uso da côrte, vinha montado, a passapello, em um cavallo fouveiro; custava-lhe a romper por entre a turba apinhada; estrangeiro ali, não quiz atropellar ninguem, e resolveu esperar que o concurso fosse diminuindo.

—O que está toda esta gente aqui a fazer, em um dia de trabalho?—perguntou o desconhecido para um rapaz, que parecia esconder-se entre o vulgo, com um ár de tristeza e de uma dôr indizivel.—Ha alguma procissão ou festa de jubileu? Ainda as portas da cathedral estão fechadas.

—É certo que vindes de bem longe,—volveu-lhe vivamente o pobre rapaz—pois que ainda vos{98} não chegou a fama do grande Relogio de Strasburgo. É uma maravilha da Allemanha. Não vêdes aquella estatuasinha da Virgem? Diante d'ella, vem ao bater do meio dia os trez Reis Magos com seus presentes, e o Gallo automato, que lá está, saccode as azas logo que o sol toca o zenith.