O cavalleiro não teve tempo para comprehender o que ouviu, porque um susurro immenso, repentino, burburinhou por toda a praça. O carrilhão de Strasburgo dava meio dia. Ficaram boquiabertos, attentos esperando o apparecimento dos Reis Magos. Sentiu-se primeiro o ruido estrepitoso de umas azas pesadas, depois o clangor de uma voz énea, soturna. O cavalleiro estava pasmado com o que via. A fama do Relogio de Strasburgo correra as partidas do mundo. Os palacios, os mosteiros, os castellos desejavam uma maravilha egual. Ignorava-se o nome do artista. O cabido da cathedral ufanava-se com tão magnifico e singular artefacto.

—Oh! dize-me,—acudiu o cavalleiro, saindo do espasmo da admiração—dize-me quem fez esta obra prodigiosa, que é a inveja de todas as cidades do mundo! Porque se não fala no nome d'elle? Onde está o artista? Venho de França para vel-o.

—Perguntaes, nobre cavalleiro, como se eu pudesse violar tal segredo! Mal sabeis que as vossas palavras acordam na minha alma uma dôr profunda como um ecco n'um páramo aziago.{99} Quem fez o Relogio, perguntaes vós, e a gloria tenta-me, precipita-me, impelle-me a arriscar a vida! Foi meu pae!—E as lagrimas de alegria e pesar foram-lhe arrasando os olhos, até que rompeu em um choro insoffrido de criança. O cavalleiro apeou-se e estreitou-o nos braços.

—É a saudade de teu pae, que te lava o rosto com esse pranto de ingenuidade e amor? Não soube a morte respeitar tão preclaro engenho? E eu que vinha da parte de Carlos V, de França, para visital-o e fallar-lhe!

—Elle ainda vive, senhor. Mas que vida! Oh! antes a morte o tivesse envolvido nas suas trevas geladas; antes houvesse nascido sem aquella luz do talento, que é sempre a predestinação do martyrio.

A praça estava já deserta, e os dois partiram enleiados n'esta conversação. Chegaram á officina do relojoeiro. Era um velho; as cans alvissimas formavam-lhe um diadema venerando; tinha o rosto escondido entre as mãos, como quem se abysmára n'uma abstracção intensa, ou n'uma grande e entranhavel agonia. O estrangeiro permaneceu hirto sob a soleira da porta; não se atrevia a interromper os processos mysteriosos d'aquella mente perscrutadora. A criança aproximou-se com familiaridade, e segredou-lhe longamente umas palavras mal articuladas e confusas. O velho ergueu então a fronte banhada em uma alegria suave, e voltou-se para a porta:

—Buscam-me da parte de el-rei Carlos V de{100} França?—perguntou elle com um ár affavel e indicando um assento ao desconhecido.

—Em verdade, el-rei me envia aqui.

—E o que pretende de mim, que nada posso, el-rei, que tudo manda?

—Conhecendo a vossa boa fama, vendo que enriquecestes a Allemanha com essa maravilha do Relogio de Strasburgo, elle quer tambem collocar na torre do palacio da Justiça uma machina, que dividindo com justeza as doze horas do dia, ensine a observar a justiça e as leis.