—Como o não serviria eu de boa vontade, se me não houvessem apagado para sempre o lume dos olhos. Não vêdes estas orbitas vasias? Cegaram-me. Ha já dezeseis annos que vivo mergulhado n'estas sombras cerradas, que me antecipam a escuridão tetrica do sepulchro, mas que me prolongam a vida, no abandono da desgraça, para soffrer a cada instante as mais excruciantes provações. Eu vivo ao desamparo; nem sei já trabalhar. N'esta solidão do espirito, para esquecer o tedio e a desesperação que me pungem, eu invento machinismos complicados, que o meu pobre filho executa. É elle o herdeiro do meu engenho. Cada pancada do relogio no carrilhão da cathedral, é uma palavra de sarcasmo, um insulto vibrado por uma lingua satanica, só entendida por mim. Vou contando as horas na mudez das noites de insomnia, e cada uma me descreve com mais feias côres esta morte onde fui precipitado em vida.{101}
Havia nas palavras do velho um mixto de resignação e dor, uma conformidade, uma santidade admiravel. A fronte, enrugada pelos annos e o estudo, pendia-lhe sobre o peito; o filho ainda imberbe, engraçado, ingenuo, estava de pé a seu lado, mudo, com os olhos no chão.
—Como houve mãos tão barbaras, que ousaram pôr diante do vosso espirito, para sempre, a sombra eterna da morte? Foi o acaso? Foi a malvadez que vos despenhou n'essa desgraça? Seria a inveja quem vos supplantou á traição, vendo-se obrigada a admirar os artefactos que não podia exceder? Oh, contae-me. Não! não! tenho horror de ouvir; deve custar-vos muito isso. El-rei ha de sabel-o e acudir-vos.
O velho ergueu lentamente a fronte; poisou as mãos sobre a cabeça loira do filho, brincando distraido com os cabellos anellados. Depois de um momento de indecisão, começou:
—O bispo João de Lichtenberg encommendou-me um relogio grande para a torre de Strasburgo. Era preciso que as horas canonicas fossem observadas com escrupulo; as irregularidades na divisão do tempo causavam graves inconvenientes ás resas e officios divinos do côro. Eu trabalhei dois annos consecutivos; tinha empenhada n'aquella obra a minha fama. Inventei um kalendario em que representava as indicações das principaes festas moveis: ao lado puz-lhe um quadro em que estavam escriptas em verso as principaes propriedades dos sete planetas; ao meio colloquei-lhe{102} um astrolabio, em que os ponteiros notavam o movimento do sol e da lua, as horas e os quartos. Ao alto estava uma estatua da Virgem, ante a qual se inclinavam, ao dar do meio dia, as figuras dos tres Reis Magos. Ficaram espantados com a maravilha da obra; soôu por toda a parte a fama d'ella. O povo agglomerava-se na praça para vêr. O cabido receiou que os outros mosteiros ou as côrtes da Europa quizessem ter um monumento egual. Como impedil-o? Uma noite, estava eu descançando do trabalho assiduo, improbo que levava, quando me bateram á porta. Vieram dizer-me que o relogio estava parado. Levantei-me á pressa, atterrado, confuso, e dirigi-me para a torre. Quando ia subindo, e já a uma altura vertiginosa, apagaram-se de repente os archotes; os que me acompanhavam, lançaram mão de mim para me precipitar; as unhas prenderam-me ás fendas da cantaria, com a tenacidade do amor á vida. Por fim, cansados, agarraram-me, arrancaram-me os olhos. Aos meus gritos, os malvados respondiam que me désse por feliz em não ser queimado vivo na praça publica, exposto á irrisão da plebe, por feiticeiro; que eu tinha pacto com Satanaz, que o evocava com linhas cabalisticas com que formava as rodas denteadas.
O pobre velho permaneceu um instante silencioso reflectindo no assombro d'aquella noite infernal; depois mudando de conversa, o embaixador pediu-lhe para levar o filho, que havia de fazer{103} por certo o relogio para o palacio da justiça. Não faltaram negações e hesitações. O velho conhecia o talento do filho, e temia um egual desastre. O cavalleiro jurou protejel-o com a vida, e trazel-o incolume a casa de seu pae, logo que tivesse findado o trabalho.
O relogio foi posto na torre do palacio da Justiça, e, elle que aconselhava a observancia da justiça e das leis, foi o mesmo que, dois seculos mais tarde deu o signal para a execranda carnificina da noite de S. Bartholomeu.
Quando o filho do relojoeiro de Strasburgo voltou á patria, ainda o pobre velho vivia. Estava no meio da sua desgraça, possuido de uma alegria infinita. Na solidão do espirito em que ficara, procurara constantemente vingar-se. Vingou-se afinal. Um dia conseguiu aproximar-se do Relogio, e tocou em uma roda de tal forma, que não tornou mais a regular, apesar de todos os esforços; em 1574, intentou restaural-o Dasypodius, outros em 1669, em 1731, até que cessou de trabalhar em 1789, como uma riliquia ultima da Edade media que arrebatava a Revolução. O desgraçado levava esta unica consolação do mundo. A mesma lenda se conta dos relogios de Nuremberg, de Auxerre e Lyon, em que as versões parecem filhas da comprehensão de uma mesma verdade.{104}
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