Funck tinha o mais excellente de todos os vinhos, como lhe chamava Hoffmann, o Porto, que no seu nome traz o segredo da sua força. O escriptor original era esperado com anciedade em Bamberg. Chegou por uma tarde fria. O céo estava escuro, carregado de nuvens; relampejava a espaços, como o preludio de uma grande trovoada nocturna. Quando a natureza é triste sentimos uma vontade de nos reconcentrarmos; o{121} lar domestico é a grande poesia do norte. Um dos maiores castigos no antigo direito germanico era a pena severa expressa n'aquella formula romana interdictio tecti; o banido é comparado ao lobo solitario; a casa era arrasada, tapado o poço, extincto para sempre o fogo do lar.
Hoffmann esquecia todas as dôres ao abraçar aquelle amigo; com toda a liberdade de uma confiança intima sentou-se logo ao piano. O phrenesi da inspiração fazia-o percorrer desesperadamente o teclado. Era a sua ultima composição, meio improvisada com o jubilo que sentia. Começou um canto com uma voz desentoada, que fazia arripiar os nervos; parecia que estava em delirio. N'isto um trovão rebentou com um estampido soturno.
—A natureza, disse elle para Funck, escarnece-se de mim, parodia-me a voz roufenha. Ha bastantes dias que tenho sentido humor para o romantico religioso. Jovis omnia plena! Hoje, não sei se é o excesso da alegria, predomina em mim uma exaltação humoristica levada até á idéa da aberração.
Funck continuava silencioso. Hoffmann permaneceu alheiado alguns instantes, como levado por uma serie de deducções, que absorvem fatalmente toda a contenção do espirito. Estava a diagnosticar-se; a prolongada doença dera-lhe um certo conhecimento do seu estado. Depois proseguiu:
—É notavel! Que diversidade de sensações agora. Disposições humoristicas, colericas, com{122} um humor musical exaltado, e sentimento de um bem estar com indifferença. Como conciliar tudo isto? O systhema nervoso inverte-se-me de dia para dia.
Restrugia um aguaceiro espesso. Ha no cair da agua uma magia, que adormece.
—Vamos, disse Funck, interrompendo aquella reflexão penosa, eu tenho um excellente remedio. Vejo-te tiritar com frio, de um modo que me tira a satisfação do agasalho que presto a um amigo. O seio de Abrahão deve estar com uma temperatura suave; refugiemo-nos lá.
—Como isso era bom! mas infelizmente as azas da poesia não nos desprendem da terra; a realidade é peior do que o sol para as azas de Icaro; ella toca-nos o corpo com mais aspereza do que o velho Satan quando experimentava o desgraçado varão da terra de Hus. Agora acho-me divorciado com a poesia, com a musica, com a pintura; são as tres furias que sob uma apparencia seductora surgiram das sombras do paganismo para attribularem-me o espirito.
—E por que não havemos de refugiar-nos, em uma tarde d'estas, no seio de Abrahão?—disse Funck procurando interromper a corrente das idéas afflictivas.—Não é tão dificil como pensas. Nem são precizas azas para ir lá. Para descermos basta obedecer á lei eterna da gravidade, que sobre nós pésa. Não sabias ainda que a gravidade é o nosso peccado original?
Hoffmann sorriu-se; o seu amigo tomou um{123} tom humoristico para se adequar ao caracter d'elle n'esse dia.