—Apesar da facilidade que apresentas ainda não resolvi o problema. Como iremos nós procurar conforto ao seio de Abrahão?

—Segue-me.

Funck caminhava adiante com um ár victorioso. Hoffmann sorria-se com um modo duvidoso, para que o riso o defendesse do logro que esperava. Desceram uma escadaria escura; uns ferrolhos pesados gemeram, como se se abaixasse uma ponte levadiça. Entraram. Era um subterraneo fundo, allumiado por um lampadario de bronze. Depois de affeito á sombra, Hoffmann pôde discriminar grandes toneis dispostos, como uma longa fila de cachaci-pansudos conegos.

Era a adega do seu amigo Funck. De facto havia ali uma temperatura tepida, de fermentação. Nenhum olhar importuno através da abobada calada.

—Se os velhos patriarchas, principalmente nosso pae Noé, não trocariam de boa vontade a tua adega pelo seio de Abrahão!—Hoffmann estava animado de uma alegria indisivel; era um homem de extremos; a sensibilidade excessiva deixava-lhe apreciar os mais desapercebidos contrastes, era por isto que elle possuía mais do que ninguem o genus irritabile vatum.

Mal acabava de proferir aquellas palavras, quando se atirou de um salto, com uma loucura de criança, e se escarranchou em um tonel.{124}

Funck seguiu o exemplo.

—A vida é um grande mar, que estua em convulsões interminaveis; felizes os que caindo na voragem encontram d'estes delphins, que os tomam sobre si e os levam a porto seguro.

—Foste feliz na imagem, principalmente, porque o vinho desperta-me o humor erotico-musical, e os delphins, se dermos credito a antigos fabuladores, eram levados pela magia da musica.

E começou a cantar alguns trechos da sua opera a Ondina, que só interrompeu para levar á bocca o sifão de lata que estava mergulhado na pipa. Hoffmann tocava a realidade dos seus contos.