—Ella contou-me que el-rei D. Manoel vae em breve casar com a filha de Fernando e Isabel a Catholica, e que ella só acceita a mão de esposo com a condição de desterrar para sempre os judeus para fóra de Portugal. E acompanhava a noticia com a cantiga castelhana:

Ea! Judios
á enfardelar!...
los Reyes mandan
passar la mar.

O velho judeu ficou assombrado; fechou o Guemára, e repousou a cabeça sobre o livro. De repente sentiu-se eccoar pela Mouraria o som secco e repetido de uma matraca, e de espaço a espaço, a voz do pregoeiro das justiças, bradar:

«Ordem d'el-rei para os judeus de Lisboa se apresentarem na alvorada com uma dança judenga,{186} guisos, touras e guinolas, para irem receber o séquito da nova rainha. Soffrerá pena de morte o que levar armas comsigo. O rabbi da Judiaria irá na frente das dansas.»

Debaixo das janellas do velho judeu soaram estas palavras. O canto da cigana revelado pela filha lembrou-lhe um presagio funesto.

—Patriarcha no lar e truão nas ruas! cumpra-se o destino a troco da paz.—E levantou-se com o aspecto venerando de sacerdote magno, e foi sacudir a sua vestimenta de guisos, procurar a palheta, emquanto esperava o toque da alvorada.

IV

Lisboa tumultuava em festa immensa; arcos e flôres, salvas de artilheria, estandartes, musicas, annunciavam o dia da chegada da infanta D. Isabel, mulher do monarcha Venturoso. Já se sentia o estrépito do cortejo real; pelas portas da cidade vem entrando as dansas dos mesteiraes. Primeiro, vinha a Folia, com gaitas e pandeiros á velha portugueza, dansando em volta de um tambor; trazem guizos nos pés, cantam letrilhas de folgar e sainetes galantes; os guizos dos artelhos no reteninte som confundem as coplas. Com gentil ademan no ár volteiam lenços acenando. Vinha depois a Carraquisca, a dansa dos barqueiros e mareantes dos galeões do Tejo; trazem{187} andando um balanço que imita um bambula dos pretos, aprendido lá nas conquistas. Vae passando a Cativa, uma outra dansa de agrilhoados mouros, bailando aos modos da Salé, vão confessando preito á nova rainha. Já vem perto a Gitana, toda feita de ranchos de raparigas vestidas de variegados pannos, cintos de ouro e vermelho; voam-lhes as roupagens com o vento cruzando facas entre si, ao doce baylo da Mourisca, que os sentidos fez perder com a trisca dos volteios. Eis que chega tambem a Dansa judenga! Os apupos do povo alevantaram-se furiosos chamando-lhes traidores; as vaias e as pedradas eram pelo ár sem conto; a plebe desenfreada atira-se de roldão sobre a judenga ao entrar da cidade, e abafam as queixas dos opprimidos com risadas. Vinha na frente o velho Rabbi, dirigindo a guinola e toura, quando um malvado lhe arrepella as barbas brancas. Os olhos do veneravel velho chamejaram de indignação e vergonha; levantou a palheta de bobo que bamboava nos ares, e descarregou-a na cabeça do atrevido, com a mesma altivez de animo do velho Consul da cadeira curul. O villão cahiu por terra e lá ficou calcado aos pés da multidão que se atropellava e ruía furibunda sobre a desgraçada dansa judenga. O velho Rabbi fugiu a todo o custo; a multidão precipita-se apoz elle; gritando, chamando-lhe réfece assassino. A noite vinha descendo, e protegido pelas sombras do crepusculo se ia livrando dos golpes que lhe atiravam.{188} O velho ia quasi exhausto, a turba que o perseguia ia rareando apoz elle; já poucos o seguiam; mais um esforço, e ficaria salvo; as pernas parecem falhar-lhe, falta-lhe o ar; sente vontade de atirar-se ao chão e deixar-se retalhar. Mas um raio de luz e de vigor lhe atravessou o espirito; lembrara-se de Ebla, de sua filha!

Ia o velho Rabbi a entrar já na Judiaria, estava quasi á porta de casa quando um dos poucos populares que ainda vinha atraz d'elle lhe deitou a mão. Inesperadamente veiu-lhe um soccorro imprevisto; um donzel do séquito do principe Dom Affonso, e que andava ainda triste com a morte do seu joven amigo, sentiu um impulso do bem e defendeu o velho judeu. Desembainhou a espada e os populares retiraram-se. O Rabbi bateu á porta; abriram. Á luz de um candil viu o moço cavalleiro a cara mais linda de nazarena, os olhos mais languidos que não teria a Sulamite; o sorriso mais puro, a graça, a meiguice, a expressão de Quirub. Que contraste! na rua o genio do mal a seguil-o, em casa o anjo da candura a allumial-o, a inspirar-lhe serenidade.

O velho Rabbi vinha ensanguentado e roto; ao receber o abraço de Ebla tirou-lhe do pescoço um colar de perolas, e veio dal-o ao desconhecido. O moço cavalleiro beijou-o, e tornou-o a entregar.