—Quem és, que te mostras tão generoso e cavalleiro? perguntou o Rabbi.{189}
—Dom Tello; e adeos!
O moço cavalleiro perdeu-se na sombra da noite; ai d'elle se a essa hora entrasse em casa do judeu; a lei era implacavel; condemnava-o á pena do fogo.
O velho Rabbi sentou-se offegante, com a cabeça encostada aos hombros da filha. Quiz começar a fallar-lhe mas as lagrimas e os soluços irrompiam frequentes. Alfim, pode ligar as palavras e contar-lhe o succedido.
—Oh meu pae; parece que os nossos desastres não acabaram aqui. Hoje passou rente á gelosia uma cigana, e parou a cantar, e dizia que el-rei D. Manuel casando com a infanta de Castella, a primeira promessa do seu dote era tirar aos judeus os filhos de menos de quatorze annos, e baptisal-os á força, e matar os mais velhos e pol-os fóra de Portugal...
—Filha, é o céo que manda esse aviso; tu foste a minha providencia.
E desceu a um subterraneo da casa, e lá se entreteve sósinho dispondo as suas riquezas para a hora da expulsão.
Ebla ficára por instantes só; revolvia na mente o dito da cigana; nas cantigas a cigana dissera-lhe mais cousas: Que um cavalleiro moço e formoso a adorava; que por ella seria capaz de abandonar a religião em que nascera e seguil-a até aos confins do universo. E que se um dia visse um moço trigueiro, de bigode preto e olhos vivos, faiscantes, era D. Tello, aquelle que a{190} adorava. Ebla atou na mente esta lembrança; lembrou-se que Tello, o moço cavalleiro acabava n'esse instante de salvar o pae. Nasceu-lhe na alma um amor repentino; veiu-lhe uma vontade de vêl-o, de lhe fallar; notou a generosidade de não acceitar mas beijar o collar de pérolas. Solícita e a medo assomou á gelosia; a luz do candil reflectiu-se fóra, através das grades da adufa. Sentiu uns passos na rua, depois uma voz mansa e suave que proferiu no silencio da noite:
—Ebla!
Estes sons entraram na alma da donzella; e obedecendo á fascinação d'aquella voz, lançou a cabeça de fóra. Viu na sombra um vulto, que a irradiação lhe illuminou como a imagem vaga descripta no cantar da cigana. Aquella voz, como vibrada por um verdadeiro amor, disse-lhe com o imperio de uma vontade irresistivel: