—Vem.

Ebla desceu em cabello, e sentiu-se envolver em um abraço apaixonado, vehemente, expressivo. Era a primeira vez que sentia o amor. Deixou-se levar sem saber porque, nem para onde.

N'aquella noite, com as festas do casamento de el-rei D. Manuel, as portas da Judiaria ficaram abertas. Ebla e D. Tello afundavam-se na escuridão da noite, quando entra na Judiaria um tropel immenso de homens de armas e de cavallo; ia na frente o alcaide da justiça. Ao som de uma matraca restabelecera-se o silencio, e pela{191} escuridão sombria e soturna da Judiaria soava uma voz sinistra, como de sentença:

«Pregão d'el-rei D. Manoel, para os judeus, ao toque da alvorada, embarcarem para fóra de Lisboa, sob pena de morte.»

A palavra morte accendia na multidão um enthusiasmo frenetico que apupava, ameaçava e esbravejava cantando entre risos alvares:

Ea! Judios
á enfardelar!...
los Reyes mandan
passar la mar.

Áquelle grito sinistro, toda a judiaria se levantou em pezo; do fundo do seu subterraneo saiu o velho Rabbi, solicito, temeroso, mas constante. Ouviu proferir a sentença ominosa. Chamou por sua filha, e foi accordar as outras crianças que dormiam; a mulher voltou apressada do pé dos thesouros. Tornaram a chamar por Ebla; o grande ruido das ruas e da multidão nada deixava perceber. Chamou por Ebla com uma afflicção de morte; viram a porta aberta; multidão de gente que tripudiava, lançando fogo ás casas. O velho pae parecia um leão ferido.

—A maldição d'esta raça caiu inteira sobre mim. Perdi tudo ao levarem-me essa filha. A minha condemnação, a minha morte para salval-a. Se ha no mundo alguma força superior, que seja o destino das cousas, Jahvé ou Jesus, acaso ou as potencias do inferno, conjuro tudo{192} sacrifico-lhe a minha vida, a minha sorte pelo apparecimento d'Ebla. De que vale todo esse ouro e pedrarias se perdi Ebla; levaram a minha joia de mais valia, e com ella todas as esperanças e alegrias da minha vida...

Era incomportavel a dôr do velho; ia continuando, frenetico, doido; queria fazer-se christão para procurar a filha, quando eccoou de novo a voz do alcaide da alta justiça:

«Soou agora o toque da alvorada; o incendio lavra já na Judiaria!—Ao embarque, ao embarque nos galeões do Tejo, ou a morte á escolha.»