Que agora não tem caminho. (II, 417.)

Ratinho és de má casta (II, 211.)

E deixas lavrar ratinhos (ib., 220.)

Que eu era ratinho, senhor. (ib., 237.)

Todos os que seguiram as fórmas estabelecidas por Gil Vicente aproveitaram-se d’este typo do Ratinho, como António Prestes e o Chiado. Muitos d’estes costumes populares foram condemnados nas Constituições dos Bispados, principalmente os Autos, Colloquios e Lapinhas, nas trez grandes festas a que o povo deu relevo com as figurações dramaticas—o Natal, os Reis e a Paixão. Era a grande trilogia, em que o povo continuava a sua creação poetica depois de terminado o cyclo de formação dos Evangelhos apocryphos. O trabalho de Gil Vicente, como se deprehende da tragicomedia do Triumpho de Inverno, foi rehabilitar pela litteratura as tradições populares, condemnadas pela Egreja, e este esforço do genio foi para a época da Renascença como o de Garrett, na restauração do theatro portuguez, na época do Romantismo.

Profundos accidentes historicos separaram da unidade politica portugueza paizes que pela lingua e tradição pertencem ainda a um mesmo todo moral. Pelo estudo d’estes documentos ethnicos se reconstitue a indole de um povo; por isso dizia Gregorovius: «As leis, as instituições, separam, mas a lingua, na qual o povo falla e canta, é um elemento de aproximação; ahi se encontra o que os latinos chamavam indoles

A tradição nacional e popular, verdadeiro germen de toda a efflorescencia artistica, e que era a base de todas as creações originaes das litteraturas da Edade media, achou-se depois do seculo XII abandonada ou combatida pelo prestigio da Antiguidade preferida pelos eruditos latino-ecclesiasticos. Formada n’este começo da grande crise da dissolução catholico-feudal, a nacionalidade portugueza foi desviada das sympathias da Tradição; a separação dos interesses e gosto da classe popular, ou a praça, e da aristocracia e alto clero, ou a côrte, torna-se um caracter commum ás recentes nacionalidades europêas, e exprime-se claramente esse antagonismo nas Litteraturas novo latinas.

Em Portugal encontramos este antagonismo reflectindo-se na Religião pelo abandono do culto mosarabe ou Egreja nacional substituido pelo catholicismo romano; no Direito, pela absorpção das instituições locaes ou autonomia foraleira na codificação real das Ordenações: na Arte, como a architectura especialmente, e a poesia, pela imitação dos modelos classicos.

As fórmas cultuaes e crenças religiosas no meio de uma população que tendia a unificar-se politicamente era um esboço de integração affectiva. Tal foi o christianismo durante a occupação arabe. O godo lite ou aldius, meio lembrado do seu velho culto odinico, abraçára o Christianismo pelo que elle tinha de sentimental; não comprehendia as abstracções dos mysterios dogmaticos, e seguiu por instincto natural a doutrina de Ario: acreditava na humanidade de Jesus, e repugnava-lhe a consubstanciação e a sempiternidade do Verbo. É n’este ponto que se dá a dissidencia entre a classe popular e a sociedade aristocratica convertida ao catholicismo romano sob Rekáredo. As crenças, usos e tradições populares são combatidas pelo clero como superstições, e começa a preponderancia do clero na sociedade politica, predominando os Bispos nas Côrtes, nos conflictos dynasticos e em todas as fórmas de intolerancia.

Para o godo ao contacto com o arabe dominador, era a religião de seus paes o sentimento mais energico e vital; adoptára a cultura, os costumes, em parte a linguagem do vencedor, pelos cruzamentos ajuntára ao instincto de independencia das raças do norte a paixão meridional, mas permanecera sempre hispano-godo no seu afferro ao christianismo. O culto dos mosarabes deve considerar-se como uma fórma pura do Christianismo independente da Egreja de Roma, viciada pelo intuito da auctoridade temporal a que ambicionava. Como a Egreja da Bretanha e da França, que se attribuiam uma origem proto-cathedrica, a Egreja hispanica ou mosarabe considerava-se fundada expressamente por um Apostolo; procurava derivar a sua origem da missão immediata do apostolo Sam Thiago; não tinha por tanto de reconhecer a supremacia papal. No culto mosarabe o christianismo achava-se desligado das affectadas fórmas liturgicas; não existia n’elle a confissão auricular, com que o catholicismo romano adquiriu o imperio nas consciencias; na sagração não se partia a hostia; o povo tomava parte nos officios ecclesiasticos com as suas Prosas e Sequencias, fecundando com a emoção religiosa a sua sensibilidade poetica e animando a abstracção; a linguagem vulgar era a que se empregava nas cerimonias liturgicas, com exclusão completa do latim, costume que determinou ainda nos seculos XII e XIII as traducções vernaculas do Velho e Novo Testamento e de alguns hymnos da Egreja. O catholicismo romano reconheceu os perigos que para a sua disciplina tinha a simplicidade do culto mosarabe, e combateu-o de frente, apoiando-se no poder real para o extinguir completamente na peninsula. O christianismo-mosarabe tinha a riqueza do sentimento poetico de uma forte raça; Roma banindo-o com as censuras dos seus legados, impunha-lhe uma religião cuja força não residia na santidade da crença, mas na auctoridade do padre. Quando Affonso o Sabio escrevia a Historia geral de Hespanha, existiam apenas seis egrejas em Toledo do culto mosarabe; a lucta continuou-se lenta e insensivel a ponto de, no tempo do Cardeal Ximenez, restar sómente uma capella em que se celebrava pelo missal mosarabico; era uma opulencia cardinalesca conservada não como crença, mas com o intuito archeologico de uma tradição da Egreja primitiva. É tambem como lembrança historica, que na sua Cronica falla o rei Affonso o Sabio: «Depoys que a cidade de Toledo foy metida em poder dos mouros per preytesia ... todos aquelles que hy quyzesem vyver so o senhoryo dos mouros era contheudo no trauto que tevessen sua ley, e vivessem segundo o que ela mandasse e ouvessem clerigos de myssa e bispos e outras ordeens. Estes christaãos teveram das entom ataagora ho officio de Santo Ysidro e de San Leamdre. E oie em dia o mantem seys Igrejas em Toledo, e chamansse os crerygos d’estas Igrejas moçarves. E vyverom os christãos de ssuum com os mouros e so seu poder teendo sua ley e guardandoa ataa o tempo dos Almoades que começaram em tempo do emperador dom Afonso no tempo que era dom biuam arcebispo de Toledo.»[67]