A fórma improvisada do theatro acha-se tambem na tradição portugueza conservada no Brazil, e usada nas festas chamadas Reinados e Cheganças. Celso de Magalhães viu representar na Bahia o Auto dos Marujos, e descreve-o assim: «Um grupo vestido á maruja conduzia um pequeno navio armado de ponto em branco, com velas de seda e cordame de linha, montado sobre quatro rodas, embandeirado em arco e puchado por rodas. Cantavam versos da Náo Catherineta, Fado do marujo e lupas (cantigas de levantar ferro). Outro grupo apparecia mascarado. Na frente um individuo montava um cavallo de pasta vistosamente ajaezado do galões falsos e fazia-o dansar ao som da musica e do canto aspero e acompanhado de pandeiros e pratos.» E Roméro acrescenta: «Depois fingem uma lucta, vão coser o panno, no fim do que ha o episodio do Gageiro, cantando-se os versos da Náo Catherineta...»[64] São muito curiosos os especimens d’este genero, como Os Marujos, os Mouros, o Cavallo Marinho,[65] conservados na antiga colonisação brazileira. Nas aldeias ainda hoje se conservam dansas dialogadas hieraticas, elemento consuetudinario a que Gil Vicente deu a fórma litteraria.

O primeiro vestigio theatral que nos apparece é a representação mimica, de que a Sicilia era o fóco que mais sortia Roma; é o Arremedilho do jogral Bon-Amis, coadjuvado por outro a que se chamava Acompaniado. É provavel que Bon-Amis seja já nome comico, como o de bonifrate. Foram depois regulamentados os costumes do Tamo, ou das festas do casamento (Epithalamio) a que pertenciam os Jueyos de cortijo na Andalusia. O uso popular dos Clamores e Endexas dos mortos era tambem dramatico, havendo banquetes sobre as sepulturas. A parte representada acha-se nas cantigas com Voz e Côro acompanhadas de dansa, sobre a sepultura do Condestavel, pela paschoa florida; os banquetes ainda ha muito pouco tempo deixaram de usar-se nos cemiterios de Lisboa. Estes ritos eram tambem usados pelos Belgas sob o nome de Dadsila ou festim sobre a sepultura das pessoas cuja memoria era cara; o touro, o bode eram as victimas regularmente immoladas; na primitiva egreja conservou-se este costume, como se vê pela recommendação de Santo Agostinho acerca d’esses banquetes: «Non sint sumptuosae.»

Muitos dos elementos dramaticos dos costumes populares foram incorporados na grande festa de Corpus Christi; D. João II, para celebrar a victoria da batalha do Toro, mandou organisar a Procissão em que figuravam os officios com os jogos que lhes eram peculiares e emblematicos. No Regimento da procissão, dado por D. João III, encontram-se esses rudimentos tradicionaes: «Dois Diabos, e a representação da Dama e Galante; dois Diabos e um Princepe; o Gigante e o Anjo.» Da figuração do Sam Jorge matando o Dragão para salvar a Donzella que ia ser devorada, vemos a persistencia no alto Minho com o nome de Santa Coca como parte obrigada da procissão. Nos costumes actuaes, na procissão do Carmo em Vianna, figurava o Rei da Mourama, e entre lôas á Virgem jogavam-se as mais desbragadas chufas á mourisma; a Dansa dos Pretos em Arcozello da Serra, na festa da Senhora da Assumpção, em que crianças de nove a dez annos em trajo de negrinhos fingem de escravos, e queixam-se á Senhora com ditos pela maior parte indecentissimos para os libertar. A Dansa das Donzellas consta de um côro de meninas, que pedem para ser baptisadas ao Anjo que as acompanha, e elle exhorta-as em um monologo final, dando-lhes o baptismo. A Dansa dos Espingardeiros,[66] é um thema inspirado pela resistencia nacional contra a absorpção castelhana; consta de oito ou dez rapazes, marchando ao som de tambores, divididos em dois bandos, simulando o exercito castelhano e o portuguez; postam-se diante uns dos outros, vão parlamentarios lançar os ditos, trava-se o combate, e vence o general portuguez, que concede a vida ao inimigo depois de lhe ajoelhar aos pés. Além d’estes themas ha outros ligados aos trabalhos do campo ou da industria, como o Enterro das Séstas, as Malhadas do centeio e as Azeitoneiras; e os divertimentos domesticos, taes como o Jogo da Condessa, o da Almolina, o de Villão do cabo, em que ha dialogos e movimento scenico.

O typo nacional do gracioso da comedia popular era designado o Ratinho, que Miguel Leitão diz ser tomado do caracter broma dos moradores da aldeia de Rates. Gil Vicente que teve perfeito conhecimento de todos estes elementos tradicionaes, allude ao typo comico nacional:

Muitos ratinhos vão lá

De cá da serra a ganhar;

E lá os vemos cantar,

E bailar bem como cá. (II, 443.)

E no mais triste ratinho

S’enxergava uma alegria