I. Elaboração popular, antes do seculo X, até á unificação nacional no seculo XIII. Comprehende as modificações dos sons celtibericos, romanos, germanos e arabes, constituindo o vocalismo e consonantismo, de que resultaram o Gallego e simultaneamente o Portuguez.—Influencia do Gallego pelo seu mais rapido desenvolvimento sobre o portuguez fallado, até que pela perda da autonomia nacional o Gallego estaciona, sendo ulteriormente influenciado pelo Portuguez. Cria-se o vocabulario vulgar com todos os materiaes de um passado historico importante.

II. Divergencia erudita, durante o seculo XIV e XV: Fazem-se numerosas traducções latino-ecclesiasticas e juridicas, ampliando o vocabulario pelos neologismos latinos, italianos e francezes. Fazem-se derivações de themas que nunca entraram na linguagem fallada, e empregam-se fórmas exclusivamente classicas. Separam-se os escriptores das relações com o povo, e da antinomia entre a linguagem fallada e a escripta apparece a necessidade de unificar a linguagem, fazendo-se sob D. João II e D. Manoel a reforma dos velhos textos dos Foraes.

III. Disciplina grammatical, estabelecida na primeira metade do seculo XVI, no momento mais activo e exclusivo da Renascença humanista ou greco-romana. Preponderam as classes cultas, a Côrte e a Egreja; Fernão de Oliveira e João de Barros explicam o portuguez pela grammatica latina, e os Jesuitas impõem o latim com exclusão completa da Grammatica nacional.

IV. Unificação da lingua fallada com a escripta, operada desde o seculo XVII a XIX. Começa o estudo da lingua pelo criterio historico em Duarte Nunes de Leão; ainda subordinado ao latim, Bluteau realisa a grande obra do Vocabulario portuguez, mas consultando sempre a linguagem fallada, de que extrae inauditas riquezas. A Arcadia de Lisboa sustenta a necessidade dos archaismos, impondo a norma classica da linguagem dos Quinhentistas, combatendo os latiniparla e os gallicistas ou o Neologismo. E como a tradição é um vinculo do individualismo nacional, n’este vasto concurso da civilisação moderna, a lingua escripta tendo de acceitar novas nomenclaturas de sciencias, de artes e de instituições, tinha de manter a sua feição ampliando-se com os recursos sempre pittorescos da linguagem fallada. O Romantismo sympathisou bastante com o portuguez archaico renovando o vocabulario medieval; mas, pelo criterio do naturalismo na Litteratura, veiu a reconhecer-se como belleza do estylo a espontaneidade e a variedade pittoresca da linguagem fallada em todo o dominio portuguez.

§ 4.—Patria e Nacionalidade

As gerações que se succedem sobre o mesmo territorio, organisando a sua synthese activa ou a Industria na coexistencia da liberdade de todos e no accordo dos interesses pelo direito, quando se elevam á synthese affectiva pelo aperfeiçoamento dos costumes de menos em menos egoistas, pela intuição do sentimento subordinam-se á noção moral, e criam pela arte e poesia a expressão da sua collectividade, que sobrevive a cada individuo no tempo. Eis o ideal de Patria, que é uma grande familia; é esse sentimento unificador que inspira os membros de uma mesma sociedade a uma acção commum, a uma impulsão progressiva, que constitue a sua vida historica de Nacionalidade. Quanto mais profundo fôr o sentimento de Patria, mais intensa é a consciencia da Nacionalidade, para resistir aos accidentes das edades. É esta relação affectiva que faz com que a Arte e a Litteratura sejam a estampa do caracter nacional.

Quando se constituiu no seculo XII o estado de Portugal, já existiam todos os rudimentos de patrias hispanicas que vieram a formar as nacionalidades peninsulares. Como porém essas nacionalidades eram violentamente agrupadas pela audacia de um chefe militar, que se tornára prestigioso na reconquista christã, foi o sentimento de patria que fez resistir a estas incorporações dos pequenos estados, revindicando as suas autonomias locaes. A formação da Nacionalidade portugueza é um facto resultante d’esse movimento de unificação e de desmembração que constitue a trama da historia da Hespanha da Edade media aos tempos modernos. Póde-se definir este phenomeno como uma oscillação, em periodico vae-vem, a cujo impulso obedeceram mesmo todas as raças que occuparam o solo hispanico.

As raças iberica, celtica, phenicia e carthagineza só chegaram aqui á unidade politica sob o dominio dos Romanos: facto que originou a illusão de attribuirem-se todas as fórmas da civilisação peninsular á influencia de um povo sem numero material para actuar directamente na modificação ethnica, como o notára Erasmo. A unidade romana, que levára dois seculos a radicar-se, dissolveu-se repentinamente, ao primeiro choque da invasão dos povos germanicos. O que se deu na Hespanha succedeu egualmente nas Gallias e na Italia, como observa Guizot: «O Imperio retirou-se d’estes paizes, e os Barbaros occuparam-os sem que a totalidade dos habitantes exercesse alguma acção, fizesse sentir em alguma cousa o seu logar nos acontecimentos, que a entregavam a tantos flagellos.» Remontamo-nos a este facto, por que a influencia romana que mais tarde apparece nas instituições politicas e nas Litteraturas, determina-se por uma reproducção artificial das monarchias avançando para a dictadura e ás quaes interessava o apoio da unidade catholica, que pela cultura latina aspirava ao imperio theocratico. Os vestigios de uma civilisação romana, estradas, aqueductos, circos, templos e inscripções lapidares, são documentos de um facto moral, a superioridade de Roma, mas attestam principalmente a existencia de uma população obreira explorada pelo vencedor. Diz Guizot, com a sua habitual segurança, que o Imperio se dissolveu por falta de uma classe media. O que existia na peninsula capaz de assimilar a cultura romana fugia para Roma, como vêmos com Quintiliano, com os Senecas, com Lucano, com Marcial. A tradição da unidade romana manteve-se pelo catholicismo, quando ainda na lucta dos Romanos da peninsula com os Carthaginezes da Africa, aqui entraram os sectarios da nova religião. Na futura constituição da unidade hespanhola, as monarchias centralistas virão a receber a sua principal força da unidade catholica, dando-lhe em paga a destruição das egrejas nacionaes ou do culto mosarabe.

Para a peninsula a historia começa propriamente no dominio romano, mas segundo Hallam: «A historia da Hespanha durante a Edade media devia começar pela dynastia dos Visigodos.»[96] Carece de explicação este asserto. Com a invasão germanica deu-se o facto contraposto á unificação realisada pelos Romanos, sendo pela desmembração a Hespanha repartida entre Alanos, Suevos e Vandalos. Foram depois os Visigodos, que submetteram estes elementos outra vez a uma unidade politica pelo regimen da força; por dissensões internas vieram do arianismo ao catholicismo, e pelo desenvolvimento da fórma monarchica, fizeram renascer os Codigos romanos, como as aristocracias clericaes e militares imitaram os costumes romanos. Assim a unidade visigoda manteve-se á custa de abusos, que embaraçavam a creação de uma classe media, sendo quebrada repentinamente por uma incursão de Arabes. Á medida que a unidade germanica se funda na imitação do Imperio romano e na intolerancia catholica, foram decahindo os homens-livres, confundindo-se com o colonato romano, e com outras classes servas, que, diante da invasão dos Arabes, reconhecem o novo dominio com uma facilidade extraordinaria, regendo-se pelos seus costumes, seguindo a sua crença, e pagando apenas uma capitação. Tal é o elemento mosarabe, em que se fórma uma activa classe media; n’ella entraram o aldius, que trabalhava nos campos e se reunia nas pobras ruraes; o mesteiral, que exercia os officios mechanicos; o burguez, que vivia nas cidades muradas, que se confederavam na Behetria; o cavalleiro-villão, em quem revivia o antigo homem-livre decahido na servidão; e ainda o clerigo adscripto á egreja local, que é como uma especie de propriedade feudal. Fóra da unificação visigotica tinham ficado pelo seu espirito separatista os Asturos, os Cantabros e os Bascos; e foram tambem estes povos os que pelo seu natural instincto autonomico reagiram contra os Arabes, sendo o primeiro germen de uma terceira desmembração.

Não conseguiram os Arabes realisar a unificação politica da Peninsula; pelo seu genio semita e pelo caracter das povoações preexistentes, desmembraram-se nos reinos de Toledo, Badajoz, Sevilha, Granada, Malaga, Almeria, Murcia, Valencia, Denia e Baleares. Pelo seu lado a reconquista do territorio hispanico inicia-se pelo impulso da unidade catholica, e pela unificação politica das Asturias e de Leão, que comprehendia a Galliza, Portugal, Castella, e da parte da Navarra o Aragão. Se por um lado a unidade catholica coadjuvava esta convergencia social, a ambição dos chefes militares, explorando o espirito separatista da autonomia local, procedia á desmembração, como se verifica na constituição independente dos reinos de Castella, de Aragão, de Portugal, dos Condados de Galliza e de Barcelona.