Essas linguas, assimilando por uma fórma viva elementos latinos, germanicos, gregos e arabes, tornam-se orgãos importantes para a continuação da Civilisação occidental, de que cada nação foi um activo factor, cabendo durante toda a Edade media essa hegemonia á França.

Na peninsula hispanica a constituição das novas nacionalidades depois da reconquista christã está intimamente ligada aos seus dialectos; aquelles territorios que alcançaram autonomia ou que a souberam sustentar desenvolveram com a cultura litteraria os seus dialectos locaes. Muitas d’essas nacionalidades, como a Galliza, a Catalunha e Aragão foram incorporadas na unidade politica de Castella, mas o seu espirito autonomista ou regionalista sobreviveu e luctou sempre com a vitalidade dos seus dialectos gallego, catalão, aragonez, contra o uso official do castelhano. No Poema de Alexandre e no Poema do Cid esboçam-se as fórmas linguisticas que se fixam no castelhano; nos poemas de Gonzalo de Berceo, em que se reflecte a influencia dos trovadores, destaca-se já a feição peculiar do catalão; o rei Affonso o Sabio escrevendo a prosa em castelhano, prefere de um modo exclusivo o gallego para a poesia.

A cultura litteraria da região gallega que escapára ás invasões arabes, fez com que essa lingua fosse muito cedo escripta, de modo que ella conserva ainda hoje fórmas archaicas já modificadas no portuguez, ou que em Portugal ficaram plebeismos. A lingua gallega e a portugueza constituem um grupo homogeneo, que tenderia a unificar-se em um centro nacional, se o territorio da Galliza até ao Mondego ou até ao Tejo se não desmembrasse pela creação de dois Condados; mas conservariam sempre differenças dialectaes, como se vê no gallego septemtrional e no meridional. A lingua portugueza, como observa Diez, tem caracteres originaes proprios. Conforme porém os centros de cultura preponderassem, assim seria exercida a influencia, do gallego sobre o portuguez, como primeiramente se deu, ou do portuguez sobre o gallego, como se vê impresso na lingua.

A primitiva unidade territorial já fôra reconhecida pelos geographos antigos; Strabão chamava Gallaicos aos Luzitanos. Quando o Marquez de Santillana considerava os gallegos e portuguezes os primeiros que exerceram na Hespanha a arte de trovar, mal sabia que essa região pertencia áquelle elemento ethnico que creou o lyrismo trobadoresco. Desde 863 existia a Galliza como um Condado independente, luctando fortemente pela sua autonomia contra a annexação leoneza em 885, que desfez ao fim de vinte e cinco annos, e vindo por ultimo a cahir na unificação dos outros estados peninsulares, abafada a revolta separatista de 981. Bastava esta energia social para que a Lingua se desenvolvesse; deu-se o facto; tinha uma côrte, e ahi se educára Affonso o Sabio, que nas Cantigas de Nossa Senhora empregou a lingua que melhor lhe exprimia os seus sentimentos. Forçosamente a lingua gallega devia actuar nas fórmas do portuguez, que ainda não tinha uso litterario. E esse cunho gallego, como o pronome che por te, douche por dou-te, chegou a reflectir-se nos escriptores portuguezes dramaticos do seculo XVI.

Quando, porém, Affonso VI desmembrou da Galliza o Condado de Portugal, que em breve tempo se tornou um estado livre, a lingua portugueza começou a ter um desenvolvimento proprio, devido a esta circumstancia, por que incorporada a Galliza desde 1073 na unidade castelhana, Portugal foi estendendo o seu dominio para o sul, abrangendo as populações mosarabes da Beira, e recebendo uma certa cultura dos bispos francezes chamados para as dioceses recem-estabelecidas. Na marcha successiva da organisação da nacionalidade portugueza, a sua côrte torna-se um centro de convergencia de trovadores occitanicos, e por seu turno a lingua portugueza actúa sobre o gallego. Em grande parte o vocabulario portuguez é egual ao gallego mascarado com ortographia castelhana; mas a situação politica da Galliza, entre Portugal autonomo e Castella, de que é uma provincia, reflecte-se fundamentalmente na sua lingua. Exemplificando: soubo, analogo ao portuguez soube, muda o e em o pela influencia do supo castelhano; o mesmo nas palavras derivadas com o suffixo em ouro no portuguez, que o gallego conserva em oiro (sumidoiro, dobadoira), modificado pela influencia do castelhano, sumidero, devanadera. D’Ovidio synthetisa esta dupla influencia sobre a lingua gallega nos nomes dos dias da semana, parte tirados do castelhano como lunes (lues), martes, e parte do portuguez, como corta feira (quarta-feira). A lingua gallega conserva, além das suas fórmas originaes, outras archaicas do portuguez e mesmo populares nas nossas provincias; estes phenomenos ajudam a penetrar o processo de formação da lingua portugueza supprindo a falta de documentos. Desde Fernando o Magno o territorio portucalense formava parte da Galliza, cujas fronteiras em 1065 se estendiam até ao Mondego, e depois de 1093 até ao Tejo, apoz a tomada de Santarem, Lisboa e Cintra. A vinda dos cavalleiros frankos á peninsula, que ajudaram o monarcha leonez na batalha de Zalaka em 1086, influiu no acto de desmembração de Portugal, por que as cidades livres ou Behetrias esparsas n’este territorio e a sua situação na proximidade do mar, provocavam á creação d’esse organismo nacional. Á medida que a vida de côrte actuava no desenvolvimento da lingua portugueza, a paixão pela poesia trobadoresca forçava a imitar essas novas fórmas lyricas, apropriando-se de elementos provençaes, e creando um dialecto em parte artificial, o galleziano, em que versejavam todos os jograes que vinham a Portugal de Aragão, Valencia, Castella, Galliza e mesmo do Béarn. Certos provençalismos e italianismos dos antigos Cancioneiros portuguezes são consequencia de uma necessidade do artificio prosódico. Pela situação da Galliza como provincia submissa, a lingua gallega deixou de ser escripta, cahindo assim com o tempo na espontaneidade popular, e na sua immobilidade archaica. Muitas das suas palavras alteraram-se por metateses negligentes, como drento (dentro), prubico (publico), prove (pobre); a sua conjugação conserva certos tempos já transformados no portuguez, como: Falades (fallaes), faledes (falleis), falariades (fallarieis). Em consequencia da actividade de um organismo politico nacionalista, o portuguez torna-se escripto, e este facto determina o processo de um constante neologismo no seu lexico, já pelas traducções latinas das obras ecclesiasticas, já pela cultura juridica das escólas, já pela communicação dos poemas e novellas francezas, e pela fórma escripta foi continuamente a separar-se da corrente popular ou das fórmas vulgares, por um excesso tal que chegou a ser reconhecido.

Na época da constituição da nacionalidade portugueza foi grande a influencia da cultura franceza; o Conde D. Henrique, cavalleiro borgonhez, chama para o territorio sobre que governa cavalleiros francezes, a quem reconhece um certo numero de costumes feudaes; dá ás novas colonias frankas privilegios especiaes chamados franquias; muitos bispos, como S. Geraldo, D. Mauricio, D. Hugo, D. Bernardo, eram francezes, e em letra franceza foram trasladados os Evangelhos, segundo ordenava o Concilio de Leão de 1090. Continuou a corrente sob D. Affonso Henriques, concedendo as terras de Athouguia a Guilherme des Cornes, para as povoar com francezes e gallegos. Iam estudantes portuguezes estudar a Paris a theologia e a medicina, como vêmos com D. João Peculiar e Frei Gil Rodrigues. É natural que os poemas carlingios aqui tivessem écco na passagem dos jograes vagabundos, sobretudo sendo as romagens a Sam Thiago bastante populares em França no seculo XII e XIII. É certo que a lingua franceza deixou numerosos vestigios no velho lexico portuguez, como se encontra nos textos das versões do Velho e Novo Testamento; mas poder-se-ha attribuir-lhe os sons nasaes tão caracteristicos da lingua portugueza? Esses sons nasaes já tinham sido explicados por Helfferich et De Clermont como provenientes do contacto com os Suevos, mas sem demonstração. A influencia do francez foi nas classes cultas, e nas fórmas litterarias da linguagem, mas não no seu organismo intimo, nem no povo, em cuja loquela estacionou.

A vida nacional, com côrte, egreja e escólas, leis escriptas, processos judiciarios e regulamentos de administração, provocava um desenvolvimento artificial da lingua portugueza; debaixo das fórmas alatinadas dos escribas e tabelliães existem as palavras vulgares, que mais tarde appareceram em uma graphia nacional, como se verifica no Livro dos Testamentos de Lorvão, no Livro Preto da Sé de Coimbra, e nos Diplomatae et Chartae. João Pedro Ribeiro publicou documentos em portuguez de 1192, redigidos no reinado de D. Sancho I; reconhece que o seu emprego se tornou mais frequente por 1293, e de um uso geral e exclusivo de 1334 em diante. Não provam estes factos a crescente ignorancia do latim, que pelo contrario começava a estudar-se a sério pelo renascimento das leis romanas, canones ecclesiasticos e livros sagrados da Vulgata; a lingua fallada é que entrava em um periodo de fecundidade, como idioma nacional. As traducções em vulgar, tão numerosas, representam um esforço para transportar o pensamento de uma lingua classica para uma dicção pobre, e vacillante nas suas fórmas e construcções; por isso as traducções portuguezas dos seculos XIII, XIV e XV encheram o portuguez de neologismos do vocabulario classico, dando logar aos duplos divergentes, á imitação da morphologia dos superlativos em issimo, e a grande numero de themas que só serviram para as derivações de novas palavras. Era natural a illusão, por effeito d’estas aproximações litterarias, de considerar a lingua portugueza a mais proxima da latina do que todas as outras romanicas; pensou-o assim a Renascença erudita, quando Fernão de Oliveira e João de Barros fundaram a Grammatica portugueza nas regras da latina, e quando Camões synthetisava poeticamente esse sonho de uma missão historica universalista: «Com pouca corrupção crê que é a latina.» Os philologos do seculo XVII, como Alvaro Ferreira de Vera e Manoel Severim de Faria, chegaram pacientemente a escrever trechos em prosa que se podiam lêr simultaneamente em portuguez ou em latim, segundo as inflexões da voz. Causas vitaes actuaram ao mesmo tempo no vigor da linguagem fallada.

A lingua portugueza, pela intensidade da vida provincial, primeiramente, e mais tarde pela expansão da actividade nacional na Africa, Archipelagos atlanticos, Brazil e India, desdobrou-se em differentes dialectos. As differenças ethnicas das provincias portuguezas já tinham sido notadas pelo grammatico quinhentista Fernão de Oliveira, fallando das dicções populares: «Algumas d’estas ficaram já de muito tempo: ha tanto, que lhe não sabemos seu principio particular ... tambem se faz em terras esta particularidade, por que os da Beira tem umas fallas, e os d’Alemtejo outras; e os homens da Extremadura são differentes d’Antre Douro[92] A linguagem da Beira já no seculo XVI apresentava aos grammaticos um caracter archaico; continúa Fernão de Oliveira: «muitas vezes algumas dicções que ha pouco são passadas, são já agora muito aborrecidas, como: abem, ajuso, acajuso, a suso, e hogano, algorrem e muitas outras; e porém se estas e quaesquer outras semelhantes se metterem em mão de um homem velho da Beira ou aldeão, não lhe parecerão mal.»[93] Estas differenças que Fernão de Oliveira notava como grammatico encontram-se observadas por Gil Vicente como poeta; duas farças e uma tragicomedia versam sobre os costumes mosarabes da Beira, o Clerigo da Beira, o Juiz da Beira e tragicomedia da Serra da Estrella. Os bailos da Beira, a que allude Gil Vicente, e o typo comico beirão do Ratinho, bem como a persistencia dos cantos tradicionaes, provocavam este desenvolvimento dialectal. Quando a vida local se atrophiou pela concentração da dictadura monarchica (Ordenações) e pela absorpção da capital, os dialectos portuguezes ficaram méras fórmas archaicas. Em consequencia da expansão historica em um vastissimo dominio colonial, o individualismo portuguez manteve-se tambem pela linguagem, e dando logar não só a cruzamentos de raça mas á creação de numerosos e importantes dialectos. Citaremos o Creoulo, nas populações de Africa e Cabo Verde, o Matuto, no Brazil, o Reinol ou Indo-portuguez em Columbo, capital de Ceylão, em Malaca, em Cochim, e o Macaista. Alguns d’estes dialectos têm sido estudados; o da Guiné portugueza por Bocandé, os da India por Hugo Shuchartt, e outros varios philologos. São estudos que revelam intimos processos psychologicos formativos no phenomeno da linguagem. E referindo-se a esta acção fecunda dos portuguezes, escrevia João de Barros no seculo XVI: «As armas e os Padrões portuguezes póstos em Africa e Asia, e em tantas mil Ilhas fóra da repartiçam das trez partes da Terra, materias são e pode-as o tempo gastar; pero, não gastará doutrina, costumes, linguagem, que os portuguezes n’estas terras deixaram[94] E o que se dava com a expansão maritima, repetia-se em circumstancias muitas vezes transitorias, como na frandunagem, a que allude Filinto Elysio: «lingua franduna—a que trouxeram os soldados portuguezes das guerras dos Paizes Baixos.»[95] No dialecto brazileiro encontra-se o diminutivo do participio, (ex. dormindinho) que no gallego é ainda um phenomeno primitivo (ex. correndinho.)

Mas assim como a uma grande dispersão nas expedições maritimas e na occupação territorial, se tornava mais profundo o sentimento da patria portugueza, affirmada conscientemente no facto da Nacionalidade, tambem a Lingua portugueza, disciplinada grammaticalmente e escripta pelos Quinhentistas, elevou-se a esse typo unitario que uniformisou a linguagem fallada com a escripta, phenomeno digno de consideração e caracteristico da evolução da lingua do seculo XVI a XIX. Causas profundas determinaram esta unificação, e não o contacto dos escriptores com o povo, nem a elevação da cultura popular, ou a retrogradação dos homens de letras. A lingua foi um sustentaculo da Nacionalidade, como o foi ainda uma outra vez de 1580 a 1640 sob a incorporação castelhana. É pela sobrevivencia e resistencia das suas linguas, que actualmente resistem as nacionalidades peninsulares.

Como um phenomeno que se continúa no tempo, a Lingua, como qualquer outra creação social tem tambem a sua historia; basta evolucionar e acompanhar a psychologia humana para merecer esse estudo. É por isso que aqui esboçamos a historia da Lingua portugueza, nos seguintes quatro periodos: