Na vocalisação da lingua gallega Helfferich e de Clermont, acham o emprego do U, exemplificando com um documento de 1255; em que vem as palavras cunuzuda, tudos, escritu, julgadigu, razues, consellu, buus, etc.[88] Tambem na sua these da Origem da Lingua portugueza, Soromenho nota o mesmo caracter: «No norte de Portugal, na provincia de Entre Douro e Minho, predomina o U na terminação dos nomes. N’um só documento de 936 encontramos reirigu, agru, conclusu, ipsu, dublatu, tolinu, sasarigu, ermegildu, fagildu, sesuldo[89] D’Ovidio observa tambem no portuguez «que o e e o finaes não accentuados pronunciam-se como i e u, como no nosso dialecto calabrez, siculo, leccez, sardo meridional e septentrional, e ainda, quanto ao u, sardo central, corso, genovez, com outros dialectos sardo-italicos.»[90]

Aqui temos já uma caracteristica que assimila as duas linguas congenitas o Gallego e o Portuguez, que tanto se differenciaram por causas historicas. A lingua portugueza não é um dialecto do castelhano, como se julgou inscientificamente, é um organismo autonomo como a sua nacionalidade; faltam-lhe os sons castelhanos c palatal, a spirante guttural tenue j e g, o que influe na maior suavidade da pronunciação portugueza, e possue sons que faltam ao castelhano, como o s doce, o sh e o sg (ex.: rosa, campos, jaspe) e distingue com uma grande delicadeza, que se reflecte nas vozes verbaes, as vogaes fechadas a, e, o das abertas (andamos, andámos), e possue as vogaes nasaes.

Em toda a Europa meridional, as linguas romanicas receberam a fórma escripta, e a disciplina grammatical pela circumstancia da formação das novas nacionalidades; mas a par do Francez (dialecto da ilha de Paris), do Italiano (o toscano), do Hespanhol (o castelhano), do Portuguez (destacando-se do gallego), subsistiram numerosos dialectos, muitos dos quaes conservam preciosos vestigios archaicos de fórmas que revelam o processo formativo. Na Hespanha esses dialectos representam pela sua vitalidade invencivel o vigor dos organismos nacionaes, que ainda luctam através de todas as imposições do centralismo politico.

Mas se a vida historica ou nacional actuou pela fórma escripta no desenvolvimento das linguas romanicas, nem por isso a parte oral deixou de cooperar no seu vocabulario. O estudo do lexico, não se faz simplesmente para determinar os elementos contributivos dos varios povos celticos, latinos, germanicos e arabes, que occuparam o occidente, onde se formaram as linguas romanicas; elle apresenta-nos esse phenomeno do Polymorphismo, em que as leis phoneticas determinam o desdobramento ou duplicidade de palavras, que vão exprimir uma riqueza ideologica. Assim, quando de Plano pelo processo phonetico popular se fez chão e lhano, adquirimos novos vocabulos para designar outras relações materiaes e moraes. São uma das grandes riquezas das linguas romanicas essas Derivações divergentes, que se produzem por varias causas: já como resto da declinação conservada no caso obliquo, como Serpe e Serpente, Chantre e Cantor, Animal, Almalho e Alimaria, Pyrame e Pyramide, Calix e Calice; já pela fórma dupla do participio, como Matado, Morto, Confessado, Confesso, Teudo, Tido; já pela apropriação phonetica vulgar, como Cadencia e Chança, Calido e Caldo, Clave e Chave, Palacio e Paço, Glandula e Landra, Decano e Deão. Muitas vezes regressa-se a uma fórma litteraria, pela necessidade de um neologismo scientifico, como: Amendoa e Amygdala; Coitar e Cuidar, Cogitar; Obra e Opera; Conselho e Concilio; outras vezes pela differença de significação ou semeiologia, como: Tradição e Traição, Bodega e Botica (de Apotheca), Rêlha e Regra, Macula e Malha, Medula e Meolo; algumas vezes por abreviação popular, como: Cem e Cento, São e Santo, Gram e Grande, Tão e Tanto, Galam e Galante, Rol, Rolo e Rótulo.

N’este processo de abreviação popular toca-se um phenomeno de origem etymologica, quando a palavra é a contracção de uma phrase, como em Bacharel, que é uma abreviação de Bas chevallier (d’onde no velho francez Bacheleur); como em Freguez, contracção de Filius ecclesiae (d’onde a fórma Feligres). A palavra Sengo e Senga, significando intelligente, astuto, experimentado, a que na linguagem popular corresponde, lá dizia a velha; é, como observa Diez, a fórma Senectus do latim vulgar, modificada no castelhano em Senecho (senechas, no Canc. de Baena, e no anexim castelhano: Al buen callar llaman Sancho) e Sengo nos autos populares portuguezes do seculo XVI.

Ao mesmo processo de divergencia obedecem os nomes proprios, como vêmos em Benedicto, Benito, Beneyto, Bieito, Benoit, Bento e Vieito; em Didacus, Thiago, Iago, Diogo; em Dominicus, Domingos, Mingo e Mengo.

Frederico Diez considera os varios elementos ethnicos que cooperaram para a creação das linguas romanicas; fallando do germanico, diz que este systema do linguas: «não soffreu nenhuma perturbação essencial do seu organismo; o grupo romanico escapou quasi completamente á influencia da grammatica allemã. Não se póde negar, que haja na formação das suas palavras algumas derivações e composições germanicas, achando-se tambem vestigios germanicos na syntaxe; porém estas particularidades perdem-se na totalidade da lingua.»[91] Se a lingua popular resistiu, manteve-se a par, e por ultimo se impoz ao Latim classico, como não havia de resistir aos incoherentes dialectos germanicos? O proprio Diez reconhece que a sua influencia era insufficiente para differenciarem entre si as diversas linguas romanicas.

O elemento arabe nas linguas romanicas manifesta-se tambem no vocabulario, mas sem influencia directa no regimen phonetico ou morphologico; tem sido esse elemento estudado em quanto á Italia por Narducci, em relação á França por Marcel Devic, em relação a Portugal por Fr. João de Sousa, por Dozy e Engelmann, e em relação á Hespanha por Yanguas e Simonet. Os Arabes representavam uma aristocracia militar incommunicavel; as communicações da população hispanica fizeram-se entre Berberes e Mouros, e a Aravia era um dialecto indistincto tanto de romanico como de arabe com que se entendiam com elles os Mosarabes e os Mulladies, isto é, os que se conservaram christãos e os que apostataram. Quando se pôde examinar nas linguas peninsulares as palavras arabes, escriptas nos documentos mais antigos, reconheceu-se que eram palavras romanicas modificadas pelos arabes e recebidas d’elles por segunda via. E o que se verifica na Architectura arabe, o caracter dos operarios mosarabes, tambem se observa na linguagem, que exprimia a riqueza de uma civilisação de que os arabes se apropriaram. Tal tem sido a revindicação laboriosamente fundamentada por Simonet. A civilisação occidental não teve por unico fóco Roma; e se ella se lhe impoz pelas Gallias e pela Hispania, tambem se impoz aos Arabes como se vae reconhecendo. Um certo sentido pejorativo se ligava a grande numero de palavras arabes, taes como o nome de Caschich, dado ao sacerdote christão, e que é uma interjeição popular Cachicha! com que se exprime a repugnancia pela porcaria; Azambrado, Madraço, Léria, exprimem tambem ideias de chasco e descompostura em contraposição ao seu sentido natural; a injuria Safardana era o titulo de gloria dos Judeus de Hespanha que a si se chamam Sephardin, para se distinguirem dos outros elementos da raça. Devem apparecer nomes arabes designativos de funcções sociaes, cargos administrativos, da mesma fórma que das palavras germanicas apparecem os termos que designam instituições feudaes e material de guerra.

Na longa lucta da reconquista, as povoações sedentarias ficavam indifferentes á sorte das batalhas; os Mulladies voltavam ao seu culto primitivo, e a Aravia, que os Mosarabes fallavam eram os dialectos vulgares ou Ladinha christenga, que em breve se iam desenvolver como linguas nacionaes. A designação de Aravia passava a significar o cantar-romance, que veiu a servir de primeiro elemento tradicional da historia.

Se causas sociaes profundas, como a dissolução do Imperio romano e invasões germanicas, actuaram no desenvolvimento dos dialectos ou Linguas romanicas, eguaes causas, como o fim das invasões dos Saxões do norte da Europa e o combate successivo contra o dominio dos Arabes no sul, determinaram a estabilidade necessaria para o estabelecimento de novas nacionalidades, em que as Linguas romanicas attingiram a sua fórma e perfeição litteraria.