A unidade linguistica indo-europêa foi entrevista em 1786 por William Jones, e em 1808, Schlegel formulava com toda a nitidez essa intuição: «O antigo indiano, sanskrito, isto é, culto ou perfeito, designado Gronthon, quer dizer, escripto ou dos livros, tem grandissima affinidade com a lingua grega, com a latina, com a germanica e persa. A semelhança consiste não tanto no grande numero de vozes communs a esta lingua, mas principalmente no que pertence á intima estructura e á grammatica. Não se trata de uma concordancia casual, que possa explicar-se por mestiçagem de povos: é concordancia organica, que denuncia uma origem commum.» A comprovação d’este ponto de vista produziu uma revolução scientifica, na creação da Glottologia, da Mythographia e no criterio da Historia, por um conhecimento mais profundo das civilisações áricas.
Começou a ser estudada esta familia linguistica no seu conjuncto, e pela applicação dos novos methodos por Jacob Grimm á Grammatica allemã, começada em 1819, descobriu este erudito genial a lei das modificações e equivalencia dos sons nas linguas germanicas, Umlaut e Ablaut, que constituem o desenvolvimento historico da lingua allemã. Os sons modificam-se em uma escala constante, de fortes, brandos e aspirados, de modo que na situação em que se fixaram pela fórma escripta as palavras, se póde deduzir qual seria a sua fórma anterior. Esta grande lei, que torna a Phonetica uma sciencia natural, applicou-se a um exame mais vasto e verificou-se que dirigia todas as linguas indo-europêas. Existe hoje reduzida a quadro essa escala de sons no sanskrito, zend, grego, latim, erse, esclavonio, lithuanio, gotico e alto-medio allemão. É maravilhoso o resultado da sua applicação ao vocabulario indo-europeu, e as deducções das mutuas similaridades para a chronologia da sua formação, e para a recomposição da lingua árica,[86] de que ellas por circumstancias sociaes e historicas se differenciaram.
Esta lei da permutação dos sons foi tambem applicada ás linguas romanicas tomando por ponto de partida o Latim, e seguindo as suas modificações no Italiano, Valachio, Hespanhol, Portuguez, Provençal e Francez; é a continuação do phenomeno que se patentêa nas linguas flexionaes indo-europêas. Não são pois na sua formação moderna uma decomposição, mas um processo reconstructivo, em que pela modificação de certos sons deixam de ser notadas fórmas que vão desapparecendo.
Foi em 1816 que Bopp, na sua Theoria da Conjugação, estabeleceu o processo da analyse da palavra, tomando o Verbo como aquella que na sua fórma fundamental agrupava a maior somma de differenças desinenciaes, taes como as flexões pessoaes, temporaes, numeraes e modaes. Foi por este processo que chegou a determinar as raizes attributivas, a isolar as raizes pronominaes, a achar a formação dos themas, em volta dos quaes pelos suffixos, prefixos, affixos e infixos se organisa esse corpo complexo e adiantadissimo da palavra. A exposição completa d’este methodo constitue na sua applicação o assombroso trabalho da Grammatica geral das Linguas indo-europêas.
Levada a sciencia da Glottologia a esta perfeição, foi depois o methodo applicado por Frederico Diez á familia das Linguas romanicas, organisando tambem a sua grammatica comparativa. Cahiram por terra as theorias imaginosas de Maffei, Ciampi, Aldrete, Court de Gebelin, La Tour d’Auvergue, Raynouard e Ribeiro dos Santos, formadas a proposito de cada uma das linguas romanicas isoladamente. Pelo estudo dos documentos litterarios provençaes, é que em 1827, Frederico Diez, no seu livro Da Poesia dos Trovadores, lançou as bases da philologia romanica, que depois systematisou na Grammatica das Linguas romanicas, publicada de 1836 a 1844. Tomando o Latim como ponto de partida, por ser escripto ao tempo em que as linguas romanicas ainda eram oraes, determina-lhes as modificações dos seus sons e particularidades prosodicas, as suas similhanças morphologicas, e a identidade syntaxica.
No exame dos sons, chega-se á lei fundamental das linguas romanicas: A persistencia do accento tonico ou vogal accentuada. Mil accidentes podem obliterar o vocabulo, como acontece sendo fallado por boccas estrangeiras, e n’este caso estão os vocabularios romanicos que soffreram a influencia dos povos germanicos, arabes e ainda de eruditos greco-romanos; porém a vogal accentuada conserva-se inalteravel, como o eixo em que se apoia a palavra. É á custa d’esta segurança, que a palavra se abrevia no uso, perdendo uma grande parte do seu corpo. Exemplifiquemos: Episcopus, Bispo; Ecclipse, Cris; Dominus, Dono, Dom; Presbyterus, Preste (ainda em Arcipreste) Prètre; Ungula, Unha; Quadragesima, Carême; Genuculum, Joelho; Rotundus, Rond.
Forçosamente, uma lei phonetica assim tão exclusiva deveria actuar no desprezo pelas inflexões da quantidade, e pelo abandono das flexões casuaes, e da grande variedade das desinencias verbaes. Foi a consequencia d’essa outra lei phonetica das linguas romanicas: A suppressão das vogaes breves não accentuadas. N’este processo a palavra tende a contrahir-se, como em Trifolium (trèfle, trevo), mas tambem se duplica, conservando-se inconscientemente a fórma do caso obliquo, como em Pulvis (pó) e Pulverem (pólvora), Index (endes e indice).
A terceira lei phonetica fundamental é a da: Queda de certas consoantes mediaes, a qual tambem actuou na fórma contrahida das palavras nas linguas romanicas, sendo essa usura referente á sua chronologia. Sirva de exemplo o adverbio Semeptissimus; no provençal encontra-se na fórma semetessme, na lingua d’oc metesme; no italiano medesimo; em lingua d’oc, medesme, meseyme, meisme; no portuguez antigo, medes, meesmo, e em francez même. Com certeza estas contracções mais ou menos intensas representam um trabalho de usura, ligado a causas historicas e sociaes.
Todos os outros sons consonantaes, quer sejam iniciaes ou mediaes, soffrem modificações especiaes em cada uma das linguas romanicas, e é isto o que as differencia umas das outras, por isso que a glotte de cada um d’esses povos não emitte os mesmos sons. Em quanto ao systema vocalico, tambem por elle se fixam as differenças na familia romanica:
«Na vocalisação do hespanhol (sc. castelhano) acha-se muitas vezes o A puro, em quanto que o U, que recebeu do latim, é em geral attenuado e mudado em O; d’este modo a lingua recebeu o caracter de uma lingua artificial, e as durezas são substituidas por sons mais euphonicos. Depois do A, ou antes concorrentemente com elle, o O é a vogal que mais caracterisa o hespanhol.—A lingua franceza, pelo emprego exagerado da vogal E, renunciou á custa da sua euphonia á vocalisação latina; é sobretudo uma lingua artificial, admiravelmente propria para a conversação, mas em geral pouco propria para a poesia, por que a vogal intermediaria E que intervem a cada instante prejudica a vocalisação pura, e além d’isso nunca produz uma elevação e um abaixamento completos. Quanto ao Italiano, de todas as linguas romanicas é a que guardou mais harmonia, por que sustenta a elevação e o abaixamento produzido por A e por U transformado em O pela intervenção do I agudo.»[87]