Ha na creação da linguagem dois trabalhos, o da espontaneidade oral, em que apparecem os elementos radicaes que se transformam por meio de themas e flexões até constituirem a palavra, e uma fixação pela escripta, que vae systematisando e regularisando o apparelho grammatologico. Se a lingua não é escripta, tende a uma exuberancia synonymica e dispersão dialectal; se o seu uso escripto começa prematuramente, cáe em uma immobilidade de fórmas definitivas, que não avançam para se não quebrar a regularidade constituida. É sobretudo o facto historico da nacionalidade e da sua cultura, que actúam na fórma escripta da linguagem, imprimindo-lhe pela concentração das energias associativas em uma capital um typo linguistico, que se impõe e prevalece sobre as differenciações dialectaes. A linguagem oral continúa no seu originario poder de creação, mas apoia-se principalmente na auctoridade conservadora do passado, e mantém fórmas do Archaismo no vocabulario, no vocalismo e construcções populares; a linguagem escripta, exprimindo necessidades do espirito amplia os seus meios de expressão pelo Neologismo, abandonando fórmas desconnexas do vulgo para sustentar uma determinada regularidade. São variadissimas as relações entre estas duas funcções oral e escripta da linguagem; se se separam completamente uma da outra, a linguagem fallada torna-se um patois variavel de burgo para burgo, e a fórma escripta obedece a um aperfeiçoamento racional e artificioso, ficando privativa da classe culta, como aconteceu com o sanskrito e com o latim classico; se porém as duas fórmas de expressão se aproximam e se fecundam mutuamente, os escriptores encontrarão na linguagem do povo bellos elementos para enriquecerem o estylo com modismos pittorescos (como acontece com a obra esthetica em relação ás tradições anonymas), e o povo fallará com a perfeição da cultura social que reflecte, como se viu com o predominio do dialecto attico na Grecia. Em Portugal a separação da linguagem oral da escripta, deu-se desde que por effeito da corrente da civilisação preponderou a cultura latino-ecclesiastica, e chegou a ponto tal essa differenciação, que os velhos documentos juridicos tiveram de ser traduzidos para leitura nova em tempo de Dom João II; porém, desde os fins do seculo XVI até hoje tem-se operado a identificação entre estes dois modos de linguagem, e o poema de Camões é lido e entendido geralmente como se fosse escripto na actualidade.
Da observação d’este facto de transformação progressiva que exerce a escripta na linguagem, resultam explicações essenciaes de grandes phenomenos linguisticos accusados na historia. É assim que sendo a Linguagem congenita com a Raça, apparece muitas vezes o caracter da linguagem em contradicção com os dados anthropologicos, como notou Paul Broca. Basta a linguagem ser a consequencia de um estado elevado de civilisação, para ser facilmente admittida por um povo mais atrazado em relação áquelle que o absorveu ou subjugou. Vê-se que a linguagem é um importantissimo documento de paleontologia ethnica, mas um inseguro recurso para as classificações anthropologicas. Pelo desenvolvimento escripto do Latim na sua vasta legislação civil e administrativa, e continuado pelo catholicismo nas constituições apostolicas e doutrinação moral, tinha forçosamente esta lingua de dominar sobre as vastas populações prevalecendo sobre os dialectos celticos da Italia, das Gallias e da Hespanha, vulgarisando por meio da sua legislação uma linguagem cultivada artificialmente por escriptores barbaros, gaulezes, hispanicos e italiotas. Foi este facto que deu origem ao erro de se imaginar que as Linguas romanicas tinham sido formadas pela corrupção do Latim em uma vulgaria, como normas rusticas ou sermo pedestris. O uso do Latim entre os povos do occidente foi um artificio, uma educação, a ponto das provincias da Africa, Hespanha, Gallias e Italia cisalpina darem magnificos escriptores a Roma. Vêmos em Osca fundar Sertorio um centro de estudos classicos; continuam em Roma a litteratura latina os cordovezes Sextilio Henna, Lucano, Porcio Latro, os dois Senecas, Anneo Mella; os gaditanos Cornelio Balbo e Columella, Marcial, natural de Calatayud e o rhetorico Quintiliano, natural de Calahorra; á Hespanha pertencem os escriptores Claudio Apollinario, Felix, Marco Licinio, Pomponio Mela, Lucio de Tuy, Allio Januario, Cordio Sinforo, Silio Italico, Floro e Julio Higino, os imperadores Trajano e Adriano. Tambem a propagação do christianismo no segundo seculo, pelo emprego do latim na liturgia, fez que a classe sacerdotal concentrasse uma certa cultura e se imitassem as fórmas do Latim urbano; e ainda no ultimo seculo do Imperio empregavam o latim classico na litteratura ecclesiastica os bispos, Osio, de Cordova, Paciano e Olympio, de Barcelona, Gregorio Betico, de Granada, Potamio, de Lisboa, o papa S. Damaso, Dextro, Juvenco, Idacio, Paulo Osorio, Prudencio, Elpidio. É escusado ampliar este ponto de vista com escriptores latinos da França; egual phenomeno se dera com o grego transformado no dialecto commum, que os padres da Egreja, os Chrysostomos e os Basilios empregavam com o esmero de reproduzirem ou restaurarem o puro atticismo. Por certo que a lingua latina não penetrou nas populações sertanejas, os Pagi e Vici, as aldêas e os concelhos, para ahi se corromper. A par da Lingua latina existia a linguagem oral com riquezas proprias e differenças da fórma escripta. É essa lingua oral o fundo primitivo, que no Occidente constituiu o ramo complexo denominado no seu syncretismo, por Schleicher, Lingua Greco-Itala-Celtica, contrapondo-se no norte da Europa o outro ramo Slavo-Tudesco. Não admira, que ao destacar-se o Latim dos dialectos italicos pela fórma escripta e pela preponderancia historica, muitos dos seus elementos superiores fossem facilmente assimilados pelas populações occidentaes que recebiam o impulso da civilisação romana; o mesmo se póde inferir sobre a apropriação de elementos das linguas germanicas na França, Italia e Hespanha. Desde que se descobriu a unidade das linguas áricas ou indo-europêas, melhor se comprehende esta linguagem, de que se destacou o Latim classico, que coexistiu com as linguas falladas em todo o Occidente.
Esta coexistencia e duplicidade encontra-se expressa na designação de Latino e Ladino, contrapondo-se a Romance. São abundantes os trechos francezes, castelhanos o portuguezes, em que o termo Latino significa o espirito culto, o que falla bem, o arguto e ardiloso; romance significava a linguagem popular, a que se falla de visinho a visinho, como diz Berceo, a tradição oral, e já em épocas adiantadas da historia, o vernaculo ou nacional. Esta lingua syncretica estava diffundida em uma infinidade de dialectos, que foram desapparecendo á medida que a lingua escripta, pela absorpção nacional, se foi impondo ao uso das povoações ruraes. Raynouard cahira na illusão da unidade plena d’este fundo linguistico, chamando-lhe Lingua romance, e fazendo derivar da sua dissolução durante a Edade media as novas linguas meridionaes.
A coexistencia da linguagem oral com o Latim classico ou escripto acha-se notada no vocabulario pelos proprios escriptores latinos, taes como Festus, Vegecio, Palladio, Ennio, Terencio, Pacuvio, Lucrecio, Varrão, Aulo Gellio, Plauto, Columella, Cicero, Suetonio, Apuleio, Theodosio, Justiniano, Plinio, Vitruvio, Celso, Lactancio e todos os Padres da Egreja e escriptores latinos das provincias conquistadas. Ao passo que nas Gallias ás fórmas litterarias urbs, iter, os, hebdoma, osculare, se sobrepunham as fórmas vulgares ville, voyage, bouche, semaine, baiser, as quaes egualmente prevaleceram na Hispania, vêmos tambem na peninsula prevalecerem sobre os vocabulos latinos esses outros vulgares Burgo, Batalha, Camisa, Carregar, Cabana, Cafua e muitissimos outros apontados por Isidoro de Sevilha, nas suas Etymologias. Poder-se-ha contrapôr um vasto vocabulario da linguagem oral ao vocabulario classico latino, mas não é esse phenomeno ainda o que explica a formação das Linguas romanicas; o processo organico ou formativo operou-se intimamente, avançando essa lingua oral para a expressão analytica, que é verdadeiramente um progresso; e quando Plauto ou Cicero, e muitos escriptores classicos esclareceram os casos com preposições, ou as fórmas verbaes com auxiliares, não se deve entender que transigiam com a futura decadencia do latim, mas que sentiam a necessidade do processo analytico. Desde que o latim escripto deixou de exercer uma missão social pela queda do Imperio, e pelas invasões germanicas no Occidente, essas linguagens falladas na Italia, nas Gallias e na Hespanha, sem a disciplina imposta pelos cultos, procederam na transformação em que iam, desenvolvendo as fórmas analyticas e periphrasticas. Olhou-se mesmo com certo desdem para o Latim classico: no quarto Concilio de Carthago, no IV seculo, prohibiu-se a leitura dos livros profanos, que eram latinos; o papa Gregorio Magno, desprezava intencionalmente o emprego dos casos, dizia elle para não submetter as palavras divinas ás regras de Donato. A importancia das linguagens vulgares era tal, que em 230 Alexandre Severo promulgou uma lei permittindo fazer-se ou redigir-se fideicommissos n’ellas. Não era pois uma decadencia, que trazia essas linguas á fórma escripta. O proprio clero catholico, como se vê pela auctoridade de Licinio, bispo de Carthagena, e de Gregorio de Tours, tinha cahido em um certo analphabetismo, relaxando-se assim a preponderancia exclusiva do latim escripto. As linguas falladas, que tinham existencia propria, avançaram quando os fócos nacionaes as impulsionaram, e sem se moldarem no latim chegaram á accentuação e á rima, a uma fórma de poesia nova, a que o proprio Latim foi submettido na hymnologia da Egreja. Vê-se quanto é absurdo explicar a formação das linguas romanicas por meio de degenerações phoneticas operadas no vocabulario do latim classico. As modificações do vocalismo e consonantismo romanico são as mesmas que dominam todo o organismo das linguas indo-europêas, de que ellas são um producto.
Combatendo a theoria da escóla philologica que deriva as linguas e os dialectos romanicos immediatamente do Latim, já em quanto á estructura e mesmo ao vocabulario por processos de modificações phoneticas, Gubernatis oppõe-lhe os seguintes factos historicos: «porque é que os Romanos tendo penetrado na Grecia mais do que na Hespanha, não fizeram fallar latim aos gregos, como querem que o fizeram aos hespanhoes?—Porque é que uma colonia militar romana que occupou poucos seculos a Engadina, devia introduzir entre os Alpes suissos o dialecto latino, ao passo que numerosas colonias romanas fixadas na Illyria não conseguiram submetter os Slavos ao Romanismo?—Por que é que os Italianos da Italia superior fallando o Celtico, e os povos da França fallando Celtico, e os Bretãos fallando Celtico, o Celtico desapparece da Italia e quasi inteiramente da França, e sobrevive na Bretanha? e comtudo, os Romanos não occuparam certos remotos valles alpinos, certas provincias remotas da França, tanto como tinham occupado a Bretanha.»[80] Gubernatis reconhece a grande importancia do latim escripto e das leis promulgadas em latim pelo Imperio sobre os dialectos dos povos occidentaes, mas estabelece como principio historico que essas linguas vulgares não derivaram do latim, coexistiram com elle como irmãs: «contemporaneamente ao latim fallado em Hespanha e França, na Italia pela pluralidade das gentes pertencentes á mesma raça que os Latinos; Roma tendo predominado, a lingua romana prevaleceu e exerceu aquella mesma influencia que agora vêmos exercer-se da lingua italiana sobre os dialectos italianos, dos quaes o fundo é sempre italico...» E procurando o typo d’esta linguagem dos povos occidentaes, exemplifica: «De facto, quem de Genova se metter em viagem pelos Pyreneos, as variedades da linguagem modificam-se com um modo tão progressivo e espontaneo, que os dialectos da França meridional ficam como laço natural entre os da Italia e da Iberia, onde se os Bascos dominaram foram com o andar do tempo reduzidos como os Celtas...» E conclue: «Se não existisse um fundo italico nas populações e na sua linguagem, Roma teria triumphado com o seu latim no valle do Pó, provavelmente da mesma maneira negativa com que triumphou na Grecia e na Bretanha.»[81]
Como se vê, esta doutrina vae de encontro á escóla de Diez, que deriva as linguas romanicas do latim, principalmente por processos de degenerescencia phonetica, embora sustente ao mesmo tempo que ellas não provieram de um latim corrompido, mas sim de um latim vulgar coexistente com o latim escripto: «Ao lado do latim litterario, existia effectivamente uma lingua latina correntemente fallada, que os Legionarios e colonos levaram para a Iberia, para as Gallias, para a Dacia. Foi esta lingua popular que se transformou lentamente, tornando-se aqui o Hespanhol, ali o Francez, além o Roumenio, do mesmo modo que em Italia se tornou o Italiano.»[82]
É verdadeiramente maravilhosa esta explicação do metamorphismo do Latim vulgar, identificando-se nos seus resultados com os d’essa outra theoria tão combatida de Raynouard, da Lingoa Romance, cuja unidade quebrada produzira as linguas modernas meridionaes.[83] Nas linguas romanicas operou-se um trabalho de transformação de progresso, e não de decadencia; se o Latim como lingua flexional é synthetico na sua expressão, estas tornam-se essencialmente analyticas, pelo desprezo das flexões casuaes, e pela simplificação da Conjugação pelos verbos auxiliares. Alguma cousa de fecundo se passou n’esse periodo de elaboração analytica, tal como a substituição da quantidade pelo accento, que conduziu as linguas modernas á creação da mais bella poesia, e á construcção syntactica directa, actuando na nitidez do pensamento. A quantidade, ou o prolongamento ou abreviação do som vocalico de uma syllaba, liga-se á origem primitiva da raiz, breve na sua formação, longa, na sua derivação; o accento é o ponto de apoio em uma syllaba dominante, quando modificações profundas se operam na palavra por meio de flexões e de suffixos, para exprimirem varios pensamentos, mas sempre conservando a ideia primaria. Como observam Weil e Benloew, nas linguas mais antigas predomina a quantidade, que domina e determina o accento, ao passo que nas que mais avançam para a civilisação o accento prevalece sobre a quantidade.[84]
O predominio da accentuação representa historicamente o prevalecimento do espirito logico actuando sobre todas as fórmas da linguagem, como conclue Benloew, dominando a sua ordem ou disposição e a sua versificação.
O velho Latim anterior (treze seculos antes da nossa éra) ao Latim classico, só differia d’este em ter diphtongos, que o litterario reduziu a vogaes simples;[85] vê-se pois que o chamado latim vulgar não estava em decadencia, e se se differenciou do latim tornando-se analytico é por que avançava para uma expressão logica. Mesmo nos escriptores classicos apparecem preposições junto dos casos, e vozes de auxiliares simplificando fórmas verbaes, no periodo do esplendor de Roma. A lingua latina, empregada na Jurisprudencia e nos Editos administrativos, tornou-se quasi hieratica ou sacramental: Uti lingua nuncupassit ita jus esto; e a sua versificação retrogradou para a quantidade. Os outros povos occidentaes eram vivos e progrediam, sem precisarem do estimulo da conquista romana; estavam no periodo da accentuação, e foi esse o principio fundamental das Linguas chamadas romanicas, por meio do qual adaptaram ao seu vocabulario palavras latinas, celticas, germanicas e arabes com um rigor inalteravel como uma lei natural: a persistencia do accento tonico.
A primeira condição para o estudo scientifico das Linguas romanicas foi a descoberta da unidade das Linguas indo-europêas, de cuja filiação se veiu a descobrir uma grammatica geral a esse grupo de linguas; successivamente a analyse comparativa dos seus sons e fórmas, o consequentemente o mesmo methodo proseguido no exame dos seus varios dialectos e derivações.