DA 1.A EDIÇÃO (1870)

Em 1867, em uma nota do CANCIONEIRO POPULAR appareceu pela primeira vez a promessa de uma HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA. A obra está prompta; não sabemos se será possivel vencer a indifferença geral por esta ordem de trabalhos. Se a parte principal tiver de jazer inedita ou se perder, aqui fica desde já a INTRODUCÇÃO, como fio conductor para o que aventurar-se a examinar os páramos da nossa Litteratura.

Estão lançadas as bases, determinado o elemento nacional, discriminadas as influencias das litteraturas estrangeiras que actuaram sobre nós, e ligada a cultura portugueza ás grandes tradições da Edade media da Europa. A INTRODUCÇÃO Á HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA inaugura uma critica nova: inventaram-n’a os Schlegel, os Grimm, Victor Le Clerc, Paulin Paris, Fauriel e outros; nada mais fizemos do que repassarmo-nos da sua luz. Trabalho modesto a par dos iniciadores, é grande em uma terra aonde se não estuda e nada se respeita.

INTRODUCÇÃO
Á
HISTORIA DA LITTERATURA PORTUGUEZA

Quando no fim do seculo XII se constituiu independente o estado de Portugal, terminava o periodo fecundo da Edade media, em que foram elaboradas as condições para a existencia e desenvolvimento das sociedades modernas: Estavam unificadas as raças, que desde o seculo V até ao seculo VII se encontraram, em invasões e occupações territoriaes; differenciadas as classes, as guerras defensivas e o trabalho industrial tinham garantido a estabilidade das cidades com os seus codigos locaes, esboços para a constituição das nacionalidades europêas; realisada a creação popular das linguas romanicas, e o seu emprego na elaboração esthetica das tradições epicas das Gestas feudaes e das canções lyricas dos trovadores ocitanicos; florescia a architectura ogival, e o Catholicismo e o Feudalismo mantinham a nova ordem pela unanimidade da crença sob o Poder espiritual, e pela dependencia ou subserviencia ao Poder temporal.

Com a nacionalidade portugueza cooperam no seu desenvolvimento moral, economico e politico todas essas manifestações que imprimiram uma certa unidade nos povos europeus sob o regimen catholico-feudal. As diversas raças peninsulares integraram-se em um typo de população mosarabe; os dialectos romanicos definem-se nas formas vulgares em que o galleziano se aperfeiçôa no uso popular e palaciano das canções trobadorescas; as cidades livres ou behetrias redigem os seus codigos locaes ou Cartas de Foral; erigem-se os bellos templos gothicos, e compartilha-se do enthuziasmo da guerra defensiva das Cruzadas, tanto no territorio hispanico como nas expedições de ultra-mar.

Porém do seculo XII em diante, começa a grande crise da Revolução Occidental, pela dissidencia dos espiritos contra a unanimidade do Poder espiritual da Egreja, e das luctas da liberdade civil contra o Poder temporal do Feudalismo. Quando as linguas romanicas estavam aptas para fixarem a idealisação esthetica dos interesses da sociedade medieval, deu-se a instabilidade dos sentimentos e o negativismo dos pensamentos. As Litteraturas romanicas resentiram-se d’esta perturbação, que se prolonga até hoje e ainda actúa sobre ellas; durante os primeiros trez seculos da crise, do XIII ao XV, desconheceram mais ou menos completamente a Antiguidade classica, e os themas poeticos da Edade media foram tratados sem respeito, preponderando o genio sarcastico nas satyras, nos fabliaux, nos cantos farsis, nas parodias, nas comedias, e até na epopêa, como o Renard, e a faulse Geste. No seculo XVI, esta revolta ataca a ideia religiosa, na Reforma; e pelo enthuziasmo dos Humanistas diante das litteraturas classicas da civilisação polytheica greco-romana, a Edade media é desprezada como uma época barbara, e as Litteraturas romanicas exercem-se na imitação erudita, separando-se os escriptores da cooperação com o povo; aggrava-se esta situação deprimente com a influencia geral do pseudo-classicismo francez no seculo XVII e XVIII, e sómente no periodo do Romantismo, no primeiro quartel do seculo XIX é que as Litteraturas modernas foram revocadas á idealisação das suas origens pela rehabilitação e pelo estudo scientifico da Edade media.

Como todas as outras Litteraturas romanicas a portugueza acompanha esta longa crise social e mental, em que o sentimento ficou sem disciplina; através das mais artificiosas canções amorosas dos trovadores destacam-se as satyras e as coplas obscenas; por seu turno a auctoridade classica impõe-se á imitação dos escriptores, que abandonam com desdem as tradições nacionaes e populares, chegando a idealisação poetica a ser um producto frivolo para a distracção pessoal nas Academias e Tertulias.

A historia da Litteratura portugueza só póde ser feita scientificamente pelo processo comparativo, e collocando-a no quadro das Litteraturas novo-latinas; sob este aspecto não é menos fecunda, nem menos original do que as outras congeneres, embora se manifestasse depois de todas ellas e reflectisse todas as suas influencias pela solidariedade com a civilisação europêa.

A creação da Historia litteraria é muito recente; foi entrevista por Bacon no seculo XVII, e só depois dos trabalhos materiaes da bibliographia, e pela renovação dos estudos historicos n’este seculo, é que se conseguiu deduzir da obra litteraria a psychologia do que a sentiu, e a relação com o meio social em que foi sentida. Nenhum facto do espirito satisfaz tão bem este processo como a Litteratura; os factos da vida politica ou das emoções religiosas, das instituições sociaes e das descobertas progressivas, são sempre motivados por paixões bastante violentas, com consequencias imprevistas, e por isso não explicam tão claramente o homem como as creações estheticas produzidas por sentimentos desinteressados, por uma espontaneidade especifica de inspiração, por meio de themas tradicionaes que conduzem a uma unidade sympathica. Quem escrever uma Historia litteraria, tem, diante da série das obras de arte, de deduzir o genio e caracter intimo do povo que as produziu, e sobretudo de pôr em relevo as circumstancias exteriores que lhes deram origem; é um processo philosophico desenvolvendo-se conjunctamente com a investigação historica.