No estudo da Litteratura portugueza chegamos por um esforço individual a este resultado, tão lucidamente formulado por J. Jacques Ampère: Se a Litteratura não é uma declamação vã, se é uma sciencia, então entra no dominio da philosophia e da historia. São pois a Philosophia da Litteratura e a Historia da Litteratura duas partes da sciencia litteraria. Fóra d’isto não ha senão minucias da critica de detalhe e alarde de logares communs. Ampère recommenda que se comece pela Historia litteraria, porque: «Da historia comparada das Artes e da Litteratura em todos os povos, é que deve resultar a Philosophia da Litteratura e da Arte.» De facto os estudos da historia da Litteratura da Grecia, revelam-nos que a Tradição é sempre o elemento organico e o thema elaborado conscientemente pelas mais altas idealisações individuaes; bem como as fórmas universaes das Litteraturas, o Lyrismo, a Epopêa e o Drama têm uma correlação intima com as phases psychologicas da humanidade na sua representação objectiva e na sua reacção subjectiva. Todo o grupo das Litteraturas romanicas está cabalmente historiado, e pela luz do methodo comparativo chega-se aos caracteristicos da sua unidade e similaridade de evolução, como observaram Frederico Schlegel e Comte, na lucta do espirito novo elaborando as tradições medievaes nos rudes dialectos que se hão de tornar linguas nacionaes, reagindo contra o perstigio das obras classicas da antiguidade impostas á imitação pelos eruditos e pela admiração incondicional dos monumentos antigos. Goëthe presentiu que o conhecimento de todas as litteraturas levará ás novas fórmas de uma inspiração universalista; e Comte, prevendo o termo da grande revolução occidental que se prolonga do seculo XII ao XIX, liga á edade normal da humanidade as novas idealisações que darão ao sentimento a preponderancia social e moral de uma Synthese affectiva.

Pela marcha dos estudos accumulados póde já preceder a Philosophia da Litteratura á Historia da Litteratura, como a luz que melhor fará comprehender a complexidade de innumeros factos concretos, que tendem sem esse criterio a perder-se na curiosidade esteril. Tal o intuito d’esta introducção ou theoria da historia.

I
Elementos staticos da Litteratura

Como um producto da actividade social em condições de estabilidade, uma Litteratura só póde ser bem estudada e comprehendida conhecendo-se os elementos staticos, ou de ordem, e dynamicos ou de progresso, de que ella é um dos effeitos complexos. Spencer submettendo os phenomenos sociaes e mentaes á correlação das forças physicas, formúla com clareza esta base critica: «Uma sociedade pouco numerosa, seja qual fôr a superioridade do caracter dos seus membros, não póde desenvolver a mesma somma de acção social como uma que é grande. A producção e a distribuição das mercadorias deve fazer-se em uma escala relativamente pequena. Uma imprensa numerosa, uma litteratura fecunda, uma agitação politica poderosa não lhe são possiveis. A producção das obras de arte e das descobertas scientificas tambem não deve ser excessiva.»[1] Escrevendo a Historia da Litteratura portugueza importa ter sempre presente este ponto de vista, para não attribuir á raça a fraqueza da tradição nacional, a falta de concepção original e de invenção scientifica, a indifferença politica e a incapacidade de um regimen economico. Somos uma nação pequena, sem os estimulos organicos de uma numerosa população, sem o conflicto de classes, e limitada á provocação de um exiguo territorio. Isto se comprova ainda pelo final do pensamento de Spencer: «O que demonstra melhor a correlação das forças sociaes com as forças physicas, por meio das forças vitaes, é a differença das quantidades de actividade que desenvolve uma mesma sociedade conforme os seus membros dispõem de quantidades differentes de força tiradas do mundo exterior.» Assim, a visinhança do oceano Atlantico ao passo que nos differenciou dos hespanhoes, fez dos Portuguezes um povo de navegadores, dando-lhe a iniciativa das descobertas maritimas e condições economicas subsistentes. Os periodos de esplendor litterario ligam-se á influencia d’estes estimulos; surgiram os Quinhentistas, destacando-se então a epopêa mais caracteristica e expressiva da civilisação moderna, os Lusiadas.

Por esta ordem de factos se infere, que ha nas litteraturas manifestações de phenomenos inconscientes e separados ou fóra da acção da vontade do homem. Para bem comprehender a obra do homem, sentida, reflectida ou praticada, convém antes de tudo determinar-lhe o circulo de fatalidade dentro do qual se produz: o impulso atávico da raça, que orienta o sentimento do escriptor ou artista; a tradição, transmittida de seculos, que se torna o thema da elaboração ideal e pela qual a obra do genio realisa a synthese affectiva em uma sociedade; a lingua, como expressão do sentimento individual, que o escriptor não creou, mas que modifica para universalisar estados das consciencias, as mais indefinidas vibrações da sensibilidade e ainda as aspirações latentes de uma edade; por fim a nacionalidade, ou a consciencia da vida collectiva, que tem de exteriorisar-se pela acção historica, objecto das narrativas, das commemorações, dos monumentos, que vão unificando cada geração na mesma continuidade. Applicando pois a segura concepção de Augusto Comte, que divide os phenomenos sociologicos em staticos e dynamicos, á Litteratura como resultante do meio social, poder-se-hão considerar como staticos os factores que preponderam invencivelmente na elaboração esthetica: a raça, a tradição, a lingua, a nacionalidade. O influxo de uma determinada época historica, como transição, já pela decomposição de um regimen passado, já como aspiração a uma ordem nova; e além d’isso, o espirito inventivo das altas individualidades, que nas suas obras servem essa corrente regressiva ou progressiva, constituem perfeitamente a parte dynamica na historia litteraria. Uma tão clara distincção é já uma base segura para a critica scientifica; para o estudo dos phenomenos staticos são subsidiarias a Anthropologia, a Ethnographia, a Glottologia ou Philologia, a Historia geral, e a Sociologia; a comprehensão das obras primas das Litteraturas resulta d’estas relações intimas scientificamente investigadas e conscientemente estabelecidas. Sómente assim, é que a historia da litteratura, embora pertença a um pequeno povo, servirá de verificação das leis psychologicas e sociologicas, conduzindo ao conhecimento definitivo—a sciencia do homem.

§ 1.—A Raça e o Meio

Só muito tarde descobriu o homem, que os actos que elle julgava mais livres, reacções immediatas da sua vontade consciente, eram motivados por influencias a que obedecia sem as conhecer. No mundo physico vê-se isto na pressão atmospherica, em que nos equilibramos. Depois de Vico ter formulado o principio autonomico—o homem é obra de si mesmo,—Herder encetou a philosophia da historia pela descripção physica da terra, como do theatro em que a humanidade tinha de actuar, segundo as variações do scenario. Se as descobertas da astronomia, depois de Galileo, fizeram caducar o erro geocentrico, os estudos historicos e archeologicos desfizeram a illusão anthropocentrica. Como a distribuição das plantas sobre o planeta depende da luz e do calor, tambem a cada modificação na climatologia dão-se no homem modificações profundas na sua organisação; depois de Hippocrates, que lançou as bases da sciencia da Mesologia, Montesquieu foi dos primeiros pensadores que ligou uma importancia séria á influencia dos climas; e por certo a diversidade das raças proveiu de acclimações successivas senão da acção de meios differentes. Blumenbach, na Unidade da Especie humana, considera o negro retinto e o loiro dinamarquez como provindo do mesmo tronco. Uma distancia de gráos modifica as nossas ideias eternas do bello, abre um abysmo entre a Venus de Milo o a Venus hottentote; dá-nos uma glotte mais perfeita e harmoniosa, e a abstracção na linguagem, que facilita e habitua á cogitação. A doçura do ár ambiente, a estabilidade da temperatura, as aguas crystallinas, o céo puro fazem o temperamento sanguineo, como observam Cabanis, Chrichton, Haller, Cullen, Pinel e outros. O temperamento sanguineo dá uma carnação viva, um thorax largo proprio para receber grandes volumes de ár, uma circulação mais forte, de que resulta um augmento de calor distribuido até ás extremas radiculas nervosas: assim, impressões promptas, facilidade de movimentos, synergia revelada por um bem estar descuidado, a graça, a jovialidade espontanea. Eis a organisação do Grego; em um clima brando, suave, em uma natureza risonha, collocado em um justo equilibrio das forças do meio exterior com as do seu organismo, não se sente absorvido como os povos das regiões do oriente, nem provocado na sua individualidade como na rispidez do norte; gosa a vida por todos os póros e guarda uma juventude perpetua, uma voluptuosidade da communicação, na cidade, no ágora, onde o conflicto dos interesses agita as paixões que criam a obra da Arte. A Grecia realisou na civilisação o sentimento do Bello. Outros povos indo-europeus, nas suas diversas paragens revelam outras capacidades, com que se reconhecem na historia; o Romano attingindo a mais clara noção do sentimento do Justo, faz de Roma, no dizer dos antigos jurisconsultos, a patria das leis. Mais alguns gráos para oéste, e os Celtas, aventureiros, sonhadores, attingem a docilidade moral, a dependencia da confraternidade, e são dominados pela ideia religiosa da immortalidade, que os deprime. O Germano, em lucta com a natureza brumosa do norte, de uma robustez excepcional, faz da independencia individualista o seu caracter, e lança-se á invasão do occidente, onde é incorporado pela civilisação romana. No extremo norte da Europa, o Slavo conserva as suas primitivas tendencias mysticas, e assimilando todos os progressos da Civilisação oriental e da occidental aspira á hegemonia futura da humanidade.

Emfim, os innumeros factos em que se observa a influencia dos climas, a transformação dos temperamentos e as hereditariedades das raças, têm-se agrupado por forma que estão lançadas as bases para a systematisação da Geographia moral, como lhe chamou Michelet. A historia da Arte, as creações das Litteraturas, todas as obras em que a alma humana se deixar surprehender em sua espontaneidade emocional, são verdadeiramente elementos d’esta sciencia nova. Todas as vezes que o estylo artificioso, a rhetorica banal ou o servilismo da moda de uma certa época velarem as manifestações francas do espirito, essa litteratura não tem valor, por insignificativa; não reflecte o resultado das ideias religiosas, nem as formas linguisticas, nem as agitações sociaes, nem a synthese das concepções que constituem a civilisação de cada cyclo historico.

Nas Litteraturas, como expressão da vida affectiva das sociedades, é talvez mais importante o elemento inconsciente da tradição e do meio, do que a obra propriamente original da individualidade do escriptor. No meio social observam-se a persistencia de certas qualidades transmittidas na especie, e que differenciam os grupos humanos ou raças; as sobrevivencias de costumes, que se conservam automaticamente quando já de todo passaram os estados ou organisações sociaes que os provocaram e com que estavam em harmonia; e as recorrencias, ou renovações d’essas qualidades anteriores e costumes extinctos, quando um certo abalo social desperta em um povo todas as forças do seu instincto de conservação, mantendo-se pelas suas condições staticas. Como expressão da collectividade, a Litteratura reflecte ainda nas obras das mais altas individualidades a impressão d’estas forças latentes, e mesmo as suas concepções ideaes são bellas em todos os tempos, e são comprehendidas pela humanidade em geral, por que derivam d’essas condições staticas. Na Europa não existe uma raça pura de mescla; mas tem-se abusado cynicamente das caracteristicas da raça nos aggregados nacionaes para justificar hostilidades egoistas e anachronicos instinctos guerreiros para exploração de conquistas. Para a comprehensão d’esta influencia das condições staticas nas Litteraturas ou em qualquer outra manifestação humana, basta determinar a lei da recorrencia biologica, tão nitidamente formulada pelo physiologista Muller: «Uma raça nascida da fusão de duas raças, propaga-se pela união com o seu semelhante; ao passo que, quando ella se une com as raças que concorreram para produzil-a, ao fim de muitas gerações torna ao typo de uma d’estas ultimas.» Vemos prevalecer esta lei de regressão, nas populações ibericas: embora se fusionassem com o elemento árico (Celtas, Romanos e Germanos), comtudo tinham a seu favor o maior numero, e em ulteriores invasões com a mestiçagem dos Lybios, Bastados, Alanos, Berberes e Mouros, raça africana branca, fixaram pela recorrencia o seu primitivo typo anthropologico. Broca reconhece tambem que pelo predominio numerico a raça mestiçada tende a regressar, na série das gerações, á raça mãe. Por esta regressão se explicam as differenciações dos caracteres ethnicos dos povos, e portanto todas as fórmas das suas actividades sociaes. Herbert Spencer reconhece que as Litteraturas e as Bellas Artes só existem como resultante d’estas actividades, tornando por isso necessario o conhecimento do que as torna possiveis. Tiveram a intuição d’este principio os humanistas do seculo XVI quando procuravam interpretar as instituições sociaes romanas pelas referencias dos poetas satyricos e comicos de Roma, e Vico interpretava Homero como a synthese dos povos hellenicos, que Wolf applicou methodicamente. Este processo critico é já antigo e acha-se confirmado pelos grandes fundadores da historia como sciencia.

Ao começar a historia da Litteratura grega, Otfried Müller foi um dos primeiros a reconhecer o valor do criterio da raça: «O que é infinitamente mais importante para a historia da cultura intellectual dos Gregos, é o distinguir as raças o os dialectos que se formaram durante a edade a que se deu o nome de heroica por causa da preponderancia que tiveram n’ella as tribus guerreiras, e por que um certo gosto pelas aventurosas emprezas a caracterisa evidentemente. Por este tempo deveria ter começado o contraste entre as raças e os idiomas da Grecia, que exerceu posteriormente uma influencia tão notavel sobre toda a vida civil e intellectual, sobre a poesia, sobre as artes e sobre a litteratura.»[2] Unificando os diversos dialectos da Grecia nos dois ramos Dorio e Jonio, Otfried Müller deduz o duplo caracter da civilisação hellenica, baseada no accordo entre o respeito pela tradição do passado e o espirito progressivo de aperfeiçoamento: «Nos Dorios ... assim como mostram uma predilecção manifesta pelos sons largos, energicos e asperos, que conservam com uma regularidade inflexivel, póde-se naturalissimamente esperar o encontrar entre elles uma disposição a fazer prevalecer até mesmo em toda a organisação da sua vida publica e domestica, o espirito de austeridade e de respeito pelos antigos usos. Os Jonios, pelo contrario, mostram já no seu dialecto uma certa inclinação para alterar as velhas fórmas segundo o gosto e o capricho do momento, e uma tendencia a embellezar e a aperfeiçoar o seu idioma, que contribuiu muito, sem duvida, para que este dialecto, posto que mais novo e derivado, fosse o primeiro cultivado na poesia.»[3] A differenciação entre estes dois elementos existia quando ainda estacionavam na Asia Menor; os Doricos atravessam o Hellesponto e fixam-se nos territorios montanhosos ao norte da peninsula da Grecia; os Jonios occupam as ilhas e as costas do archipelago. As differenciações ethnicas são mantidas pelas condições do territorio: o montanhez é ferrenho nas suas crenças e costumes, e por isso Delphos torna-se a capital religiosa da primeira unidade federativa dos Hellenos, apoderando-se Sparta de uma severa hegemonia. Os habitantes das costas e das ilhas distinguem-se por um caracter de cosmopolitismo e assimilação facil de costumes; o seu deus nacional é maritimo, Poseidon, contraposto a Delios, e Athenas torna-se a capital politica, que realisa pela primeira vez no mundo a liberdade na formação da lei (autonomia) e a egualdade perante a lei (isonomia), que deram ao genio grego o poder creador que o faz dirigir ainda hoje sob o aspecto de renascença a marcha da humanidade.