Estes dois elementos ethnicos, Dorios e Jonios, fusionam-se pela pressão da necessidade, para resistirem aos assaltos dos piratas do Mediterraneo, quando os Phenicios dominavam no mar Egeo; e depois, pelo estimulo de independencia contra as invasões asiaticas. A synthese historica da civilisação da Grecia resume-se nas caracteristicas d’estas duas raças: o elemento dorico prepondera até á guerra da Persia; até ás guerras do Peloponeso predomina o elemento jonico; o esplendor do genio hellenico revela-se na sua unidade, primeiramente nas creações estheticas, e por fim na acção politica da grande época de Alexandre. O antagonismo de Apollo e Poseidon, os caracteres antinomicos de Achilles e Ulysses, as duas epopêas da Iliada e da Odyssea idealisando esses dois typos heroicos, as instituições aristocraticas lacedemonicas, e democraticas da Attica, não podem ser bem comprehendidas sem a discriminação d’estes dois elementos, capitalmente estudados emquanto aos Dorios por Otfried Müller, e por Ernst Curtius emquanto aos Jonios.

Os caracteres da raça persistem através do tempo, cooperando para a sobrevivencia das tradições e dos costumes. Na Grecia moderna, as tradições heroicas e muitos versos das tragedias de Eschylo e de Euripides andam nos estribilhos populares. North Douglas, no Ensaio sobre os Gregos, achou na companhia dos mancebos jonios o semblante e a linguagem dos antigos hellenos: cantavam nas guitarras como os rhapsodos, e ao toque da buzina corriam á conspiração, como no tempo em que reagiram contra a Persia. Este viajante diz, suspirando: «vinte e quatro seculos antes, seriam uns Alcibiades. É ainda hoje popular a Canção das andorinhas, a que alludem os antigos, e Charonte continúa a ser evocado nas pragas supersticiosas.»[4]

A separação que se dá entre os Arias e os Iranios, apparece reflectida nas differenças entre os Gregos e Romanos, embora pertencendo á mesma raça; o genio hellenico foi essencialmente especulativo, o romano extremamente pratico ou activo. A Grecia eleva-se á unidade moral pelo ideal artistico e pela concepção philosophica, Roma faz a unidade politica pela realisação do Direito. Mas apesar d’estas differenças, é pelos caracteres das raças da Italia, que se explica como a civilisação romana foi conjunctamente agricola e guerreira; como no seu direito conservou sempre um constante dualismo (optimo jure e minuto jure); por que motivo cedo abandonou as tradições proprias pela imitação das obras artisticas ou poeticas da Grecia; por que causas se desenvolveram as linguas novo-latinas ou romanicas, e como o genio gaulez chegou a ter importancia na Litteratura latina (Petronio, Ausonio, Rutilio, Sidonio Apollinario, etc.), na época da decadencia.

Antes das migrações pelasgicas que atravessaram os Alpes carnicos o se estabeleceram ao nordeste da peninsula italica, já n’ella existia uma raça autochtone ou população preexistente, a que os Gregos chamaram Opicos (comprehendendo os Oscos ou Volsquos, Marses, Sabinos, Sabelios, Samnitas, Lucanios, Campanios). Eram estes povos dados á agricultura, e á vida pastoral, seguindo alguns as armas, como os Sabinos, os Marsos, os Hirpinos e Samnitas. Vinte seculos antes da nossa éra fixa-se a época do encontro com os emigrantes pelasgicos ou Illyrios (Liburnos, Venetes ou Henetes, das bordas do Adriatico; e Siculos, das costas da Italia e do Latio). Seguindo as costas do mar, entram tambem na Italia por esta mesma época os Ligurios, e Sicanos que se fusionam com os Siculos ou Tyrrhenos. Não admira por tanto que antes da conquista de Tarento, Roma tivesse conhecimento da civilisação da Grecia e tendesse a imital-a, abandonando as tradições oscas, pela preponderancia dos elementos pelasgiscos da Grande-Grecia.

No seculo XIV antes da nossa éra é invadida a Italia septentrional pelo desfiladeiro do Tyrol, pelos Ambrones, Isombres, ou Ombrios, raça gauleza cisalpina. É depois d’esta invasão que começa a lingua osca a tornar-se um meio de unificação social. No seculo XI, antes da éra moderna, dá-se uma terceira invasão dos Rasenas, raça de pequena estatura e grande cabeça, extranha á familia greco-italica, que funda a primeira Confederação, creando a civilisação fundamental da Etruria. A importancia d’este elemento ethnico, resultou da sua similaridade com as populações autochtones da Italia, os Opicos, e por tanto com a separação natural dos elementos extranhos ou Inopes, começa o dualismo da civilisação romana: Os Opes, eram constituidos na vida privada pelos Chefes de Familia a quem competia o Nome proprio, a Justae Nuptiae, o Locuples ou dominio do territorio dos tumulos urbicos, o direito de herdar dos filhos ou Haeres, a compartilha com o pae e com o filho ou Dubnus, e a Divindade estavel da terra, Opulentus (de Opim, a divindade feminina ou a Terra agricultada). Emquanto á vida publica, competia-lhes com o Direito de Propriedade o dominio auctoritario, o levar os Clientes á guerra, concorrer ás magistraturas justas, o direito de vida e morte sobre os filhos e a mulher, o uso do vinho civil Temetum o do pão sagrado Maza, a posse das Res sacra (os Deuses da cidade, Indigetes: da Casa, Penates, e da Familia, Lares e Manes) e os Augurios.

Pelo seu lado os Inopes, formados de Servos, Clientes, Estrangeiros (almas decahidas) não tinham Familia, eram sem nome, tinham o Contubernium ou Injustae Nuptiae, e existiam pelo Patrono. Não tinham propriedade.

Os Chefes de Familia elegeram d’entre si um Rei, unificando esta época do Patriarchado o culto de Saturno e de Cybele; porém, quando se apoiaram na Propriedade e nos Clientes, constituiram-se em Republica aristocratica ou Senado, sendo a unificação social sob o culto de Jupiter e Juno; quando por fim prevaleceram os Clientes pela fórma do Tribunato, e se chega ao Imperio plebiscitario, preponderaram Vulcano e Venus. Tal é a evolução da historia da civilisação dos Romanos, (Ramnes) que unificaram os outros dous elementos Lucerense e Titiense.

A proposito do livro de Noël des Vergers, A Etruria e os Etruscos, escreveu Beulé: «do estudo dos monumentos resalta uma verdade, que será sempre cada dia mais sensivel, e vem a ser, que Roma, apenas fundada, e já augmentada por fórma a poder attrahir a attenção, tornou-se uma cidade etrusca, pela religião, pelas artes, pela civilisação, e preciso é confessal-o, pela conquista. Não é amesquinhar o genio latino o reconhecer que elle recebeu uma educação, soffreu um jugo salutar, e acceitou modelos que viria a exceder. A vitalidade e originalidade da raça latina sobreviveram através d’estas provas; que direi? engrandeceram-se á custa d’ellas.—Roma devia reagir de prompto, absorveu a Etruria, como a Grecia sua mãe, e a sua grandeza não diminuiu por ter conhecido dominadores antes de ter adquirido o imperio do mundo.»[5] A persistencia d’este caracter etrusco, notado por Beulé na civilisação de Roma é o que melhor explica a sua facil incorporação das raças brancas do norte da Africa, dos Iberos da Hespanha e dos Gaulezes, de cuja civilisação rapidamente se apropriaram, a ponto de darem litteratos a Roma.

Roma achou-se collocada entre dois pontos que diversamente actuaram nas suas capacidades e épocas litterarias: ao sul, a Grande-Grecia, d’onde recebeu a cultura hellenica, na poesia, na arte, na philosophia, na eloquencia e na historia: vê-se isso em Livio Andronico, Ennio, Pacuvio, Terencio, Horacio. Ao norte, é na Gallia Cisalpina que desponta o espirito original e universalista da grande raça gauleza; pertencem a esta corrente Cecilio, o comico; Catullo, de Verona; Tito Livio, de Padua; Virgilio, de Mantua; Cornelio Gallus, o amigo de Virgilio, de Frejus; Propercio, de Mevania, na Ombria, bem como Passienus Paullus, e o umbriano Plauto.[6]

O fundo ethnico da população italica, que apesar d’estas duas influencias grega e gauleza ou pre-celtica, não perdeu o seu caracter proprio, chegou a transparecer na litteratura e nos costumes populares de Roma. As Saturae etruscas, representações scenicas ao som da flauta, com mimica e dansa, as Atellanas oscas pondo em scena os aldeãos da Campania, conservaram-se no gosto publico até á época do Imperio. Este genero de farça burlesca era improvisado de momento, por typos conhecidos e vulgarisados na sua caracterisação; e o que é mais para notar é que um tal genero de improvisação dramatica ainda persiste na Italia, na Commedia dell’Arte, e os velhos typos burlescos têm os mesmos representantes na actualidade, como o Maccus (Polichinello), o Pappus (Pantalon), Casnar (Cassandra), Sannio (Zanni), Manducus (Croquemitaine), que continuam a fazer rir o povo com os seus ditos desenvoltos. A comedia improvisada pertence a um fundo ethnico occidental, pois que a encontramos na tradição popular hespanhola nas Encortijadas, e a fórma portugueza conserva-se nos costumes do Brazil no auto do Bumba meu boi. Vê-se portanto, que este fundo ethnico Osco, analogo ao Euske da Hespanha, ao Ausci da Aquitania, é que nos explica a similaridade dos cantos épicos ou Romances no occidente da Europa, como a observaram Nigra, Liebrecht, F. Wolf e R. Köhler; dá-se egual morphologia nos cantos lyricos, Pastorellas, balladas e serranilhas, como observaram Paul Meyer e Mainzer. E se estas fórmas se conservaram através da forte cultura greco-romana implantada nas Gallias e na Hespanha, persistiram tambem os costumes, as superstições, os jogos, que provocavam o seu emprego, assim como as tendencias federalistas mantinham as condições para a differenciação do Latim em dialectos rusticos independentes, que depois se tornaram as linguas romanicas, pelas condições de autonomia nacional.