Dá-se na Litteratura latina o estranho phenomeno de não se encontrar a poesia do povo ou da tradição nos seus poetas; estes, absorvidos pela imitação dos Alexandrinos, ou preocupados com as doutrinas philosophicas da Grecia, obedeceram a uma corrente do gosto que lhes fez perder o sentimento da nacionalidade. Procurando-se o caracter da Poesia latina, não se encontrará nos seus maiores poetas, que se esqueceram das tradições do Latio e abandonaram a metrificação organica da sua lingua, a Accentuação, do verso saturnino, pela Quantidade, dos gregos, exprimindo o sentimento nas mesmas fórmas de Pindaro, de Alceo e Sapho, descrevendo a natureza como a representaram Homero e Hesiodo, e parodiando os conflictos da vida pela adaptação dos typos de Aristophanes e de Menandro na comedia, e de Euripides, na tragedia. Como os actos juridicos dependiam para a sua validade de um certo numero de ritos symbolicos e formulismos tradicionaes, a que os Opicos ligaram os seus privilegios, é por isso que através do dominio absoluto dos rhetoricos em Roma, essas antiqui juris fabulas constituiram na sua Jurisprudencia, como observou luminosamente Vico, na Sciencia Nova, uma severa poesia. A moderna erudição historica e as investigações ethnologicas vão determinando esse fundo anthropologico nas tradições e nos costumes; estão achados os Cantos dos irmãos Arrales, as cantigas a Julio Cesar, a Vigilia de Venus, e numerosos versos a que alludem os escriptores latinos.[7] A Italia antiga revive ou persiste tambem nos costumes, crenças e tradições populares; as excavações de Pompeia mostram que a mulher italiana ainda usa o venetus cuculus, a agulha de aço com que prende os cabellos; o pileus usa-se até em Fondi; os improvisatori de hoje, rodeados pela multidão, procedem como o poeta Stacio em Roma ante o seu auditorio; na alimentação segue-se o mesmo regimen, o prandium ao meio dia; os preceitos das Georgicas ainda vigoram na agricultura, e as cercanias de Roma permanecem desertas, mantendo o aphorismo de Catão na observancia do systema dos prados. Os Condotieri precisam dar largas ao antigo instincto bellicoso do salteador, instincto modificado pelo contracto de associação. Os contos maravilhosos da feiticeira Circe continuam a povoar a imaginação do povo; e como observa Bonstetten, no seu livro O Latio antigo e moderno: «segundo Niebuhr, os romanos de hoje acreditam na existencia da donzella Tarpêa em um poço do Capitolio. Os Marsi curavam mordeduras de serpentes, e os Giravoli dos arredores de Syracusa pretendem hoje cural-as com saliva.» Muitos costumes persistiram mudando-lhes o Christianismo o sentido por uma lenta evolução: os milagres da Medêa são attribuidos pelos napolitanos a San Domenico di Cullino; o templo de Romulo e Remo pertence hoje aos gemeos S. Cosme e Damião; no sitio d’onde se precipitou Anna Perenna, está a capella de S. Anna Petronilla.[8]

As differenciações ethnicas que mantiveram na Italia as fórmas federalistas (lucumonias), accentuam-se no genio esthetico. Cada escóla de Pintura, na Italia, tem caracteres em que apparecem feições locaes, que se succedem fatalmente. O primeiro passo para vencer a rudeza morta da pintura byzantina foi a ideia de aperfeiçoar os baixos-relevos; sente-se aqui a transição da estatua para o quadro. A Toscana, aquella antiga Etruria onde primeiro appareceram as artes e as sciencias na peninsula italica, começou este movimento. Nicoláo Pisano imitou na pintura as figuras em relêvo dos tumulos antigos; vendo mais a fórma material que apalpava do que a linha, cujo ideal procurava, não podia deixar de ser um excellente architecto.[9] A escóla de Roma e de Florença (Raphael, Salvator Rosa) são correctas no desenho; as figuras reproduzidas de um modo severo têm muitas vezes, como nota Michelet, a secura architectural.[10] Apoz a esculptura veiu o mosaico, descoberta da Toscana (do monge Mino da Turita). Á altivez e terror, seguiu-se a graça e a delicadeza; tal o estylo do florentino Cimabue. A escóla da Lombardia eleva-se na pintura á graça (Leonardo de Vinci, Corregio) e ao movimento; a escóla de Napoles descobre os effeitos da luz; a escóla de Veneza não tem rival no colorido (Paulo Veronese, Giorgione, Ticiano) e na faina de uma republica mercantil, que precisa de emoções fortes, esse colorido é vivo e exagerado (Tintoreto, pintando com furia em quadros descommunaes). A escóla de Bolonha pertence a uma época em que acabava a creação inconsciente; formada depois de todas as outras, fixa as regras da technica, e é naturalmente eccletica (os Carraches, Dominiquino, Primatice.)[11] Raça e acção mesologica, nas suas sobrevivencias, e na determinação dos temperamentos individuaes são o verdadeiro criterio para a comprehensão das creações de uma psychologia collectiva. Exemplificámos este facto capital com o exame ethnologico da Grecia e de Roma, que pelo universalismo helleno-italico são ainda hoje a base da Civilisação occidental propagada á Europa pelo genio francez; assim naturalmente ficou esboçado esse elemento classico ou greco-romano que veiu a influir no desenvolvimento das litteraturas modernas. E como a França suscitou em todos os povos da Europa as manifestações do genio poetico pela imitação dos seus cyclos épicos, novellescos, e lyrismo trobadoresco, torna-se tambem importante fixar as caracteristicas de raça nas fórmas da sua Litteratura, apesar de pela propria corrente da civilisação europêa irem-se apagando cada vez mais essas differenças anthropologicas.

A historia da litteratura franceza já foi tratada sob o ponto de vista dos caracteres da raça por Émile Chasles:[12] no typo gaulez synthetisa o genio nacional persistente através de todas as fusões e assimilações historicas com outros povos; no Gallo-romano, descreve a esplendida civilisação meridional, que veiu a produzir a creação do Lyrismo trobadoresco; no Gallo-bretão, as ficções novellescas que encantaram o mundo medieval unindo o espirito christão e cavalheiresco; no Gallo-franko, a unidade politica imposta pelo poder real na lucta dos grandes vassalos, lucta que inspirou o cyclo épico feudal das Canções de Gesta, creadas no norte da França. O encontro das raças produz, como observou Lemcke, um desenvolvimento de poesia; o conflicto da França feudal com a França meridional desenvolve e faz manifestar o genio lyrico nas canções da lingua d’oc, que se propagam pelo meio dia e pelo norte da Europa; a propria Bretanha, antes de entrar na unificação nacional faz a revivescencia dos seus cantos ou lais, que se desenvolvem nos poemas de Merlin, de Arthur e da Tavola redonda. A estes trez elementos que constituiram a unificação da nacionalidade franceza, correspondem no territorio trez regiões climatologicas, agronomicamente bem reconhecidas. Os Celtas e os Frankos, que se fusionaram com o elemento Gaulez não apagaram, apesar da sua supremacia árica, esta raça, que através de todos os tempos synthetisou a feição nacional da França. Se o Gaulez manteve e imprimiu em tudo o seu caracter, é por que além do seu numero tinha attingido uma civilisação superior á dos Celtas e Frankos. O imperador Claudio, que conhecia perfeitamente a Gallia, diz que Roma não póde desprezar a nação que estava unida á civilisação romana pelos costumes, pelas artes, pelas affinidades (moribus, artibus, affinitatibus nobis mixto.) Quaes seriam estas affinidades, para o imperador que nascera em Lyon, senão a similaridade ethnica de uma raça que se estendia por toda a Europa meridional, e que mantinha os mesmos costumes e práticas industriaes. Os Romanos, segundo Diodoro Siculo, davam o nome de Gaulez a todos os povos da França meridional; pela sua parte Polybio já distinguiu o Gaulez das outras populações celticas, raça que se manteve intacta na Aquitania entre os Pyreneos, o Garona e o golfo da Gasconha. Broca diz que tudo induz a crêr que os Aquitanios pertencem a esta raça de cabellos pretos, cujo typo se conserva quasi sem mistura entre os Bascos actuaes.[13] (Gascões, Vascones e Bascos.) Este elemento iberico, commum á Hespanha, Italia e França meridional, é caracterisado por Jorge Philipps: «no tempo de Cesar, os Iberos possuiam ainda na Gallia a maior parte do territorio situado entre o Garona, o Oceano e os Pyreneos; elles se conservaram n’este triangulo, apesar das conquistas dos Ligurios primeiramente, e depois, de um inimigo mais terrivel, a raça Celtica.» Estes factos comprovados pelos modernos anthropologistas explicam-nos a transmissão do lyrismo trobadoresco a todo o occidente da Europa. Chasles d’Héricault, considera os Iberos como repovoadores e civilisadores da Gallia; Émile Chasles, resumindo o estado d’esta questão apresenta o seguinte facto: «Atravessando a Bretanha franceza, notareis com surpreza, em certas aldeias, homens que têm os olhos com a obliquidade dos Mongoes, e por consequencia a arcada zygomatica do extremo Oriente, signal palpavel de uma migração obliterada na historia.»[14] Charrière, na Politique de l’Histoire, acceita a identidade primitiva da raça hispanica e italica, reunindo-se pelo laço natural da Aquitania e pelo meio dia da Gallia; e Petit Radel observou a semelhança de um grande numero de nomes geographicos da Italia e da Hespanha.[15] O typo do africano branco é o que conservou mais puros os caracteres d’esta raça autochtone do Occidente da Europa, anterior ao estabelecimento dos Celtas, e com os quaes se cruzou; Émile Chasles cita um facto, que segundo confessa, faz pensar: «na Edade media um exercito de invasão passou da Africa a Hespanha, e devastou-a até aos Pyreneos. Chegados alli, os Africanos reconheceram immediatamente em um reconcavo da montanha, gente que fallava a mesma lingua que elles; em logar de se baterem fraternisaram em nome de um remoto parentesco que a politica e o tempo tinham obliterado. Eis aqui Berbères, que nos dão uma lição sobre os primordios da historia, e que por ventura fornecerão um novo argumento a M. de Belloguet.»[16] Na sua Ethnogénie gauloise, Belloguet sustenta a anterioridade da civilisação gauleza á celtica, que attribue aos Ligurios. Sobre este fundo ethnico commum á França, Italia e Hespanha, é que as invasões dos Celtas, dos Romanos e Germanos vieram constituir os povos que formaram as modernas nacionalidades depois da queda do Imperio. Competia á França a hegemonia sobre as nacionalidades da Edade media, continuando a grande Civilisação occidental, que em Marselha reflectira a cultura grega, e em Tolosa a cultura romana. Pela região da Aquitania transmittia á Italia e Hespanha o gai saber, a idealisação do lyrismo trobadoresco; pelo elemento celtico espalhava na Inglaterra as tradições do Santo Graal e da Tavola redonda; pelo elemento franko, transmittia á Allemanha o impulso que acordava a inspiração dos seus Minnesaenger. O que vemos pelas condições da raça, confirma-se pela consideração geographica, em que a França tinha naturalmente de exercer uma missão intermediaria entre os novos estados da Europa; escreve Edgar Quinet: «seja qual fôr a diversidade dos instinctos da Europa, tem a França orgãos para apanhar-lhes o caracter. Pelo Meio Dia e golfo de Lyon não toca ella na Italia, a patria de Dante? Do outro lado, os Pyreneos não a ligam como um systema de vertebras ao paiz d’onde surgiram os Calderon, Camões, Miguel Cervantes? Pelas costas da Bretanha não se prende ella intimamente ao corpo inteiro da raça gallica, que deixou a sua feição em todo o genio inglez? Emfim, pelo valle do Rheno, pela Lorena e pela Alsacia, não se une ella ás tradições como ás linguas germanicas, e não lança ella um dos seus ramos mais vivazes ao seio da litteratura allemã?» E assim como a França influiu directamente na cultura europêa por estas condições mesologicas, ellas mesmas facilitavam esse espirito de sociabilidade e prompta assimilação de todos os progressos europeus; é assim, que no seculo XVI o humanismo italiano leva a França ao abandono das tradições medievaes e imitação das obras classicas da Antiguidade; no seculo XVII a Hespanha inspira os seus poetas dramaticos, como Corneille e Molière, e dá-lhe o modelo das novellas picarescas; no seculo XVIII a Inglaterra suscita a actividade do pensamento critico e do encyclopedismo; e no seculo XIX é da Allemanha que recebe a nova corrente de idealisação litteraria do Romantismo, que propagou depois ás litteraturas meridionaes. Quinet, fallando da diversidade das provincias francezas para estas diversas assimilações, conclue: «Resulta d’esta diversidade, que estando em communicação com a Europa inteira, a França não tem a temer uma influencia exclusiva; que o Norte e o Meio Dia se corrigem mutuamente, e que este paiz chamado para tudo comprehender, póde enriquecer-se com cada elemento novo sem se deixar absorver por nenhum.» Onde se conhece esta indemnidade ou originalidade é no chamado genio francez, já notado pelos escriptores da antiguidade, que alludem á sua paixão guerreira e oratoria (Rem militarem aut argute loqui, segundo Catão); tumidissimi, lhe chamam outros, e vê-se pelas referencias de Aristoteles, de Plutarcho, de Sallustio, de Florus, de Tito Livio, de Cicero, de Diodoro Siculo e de Cesar, que as suas qualidades os impressionaram excepcionalmente.

O caracter gaulez, audaz e mobil, com regularidade nos seus caprichos, logico na paixão, preferindo a prosa á poesia, o conto faceto á lenda épica, trocando a palavra abstracta pelo symbolo naturalista e concreto, possuindo-se primeiro do que outrem da verdade das grandes e generosas ideias pelo que ellas têm de prático e de sociavel, adorando a dedicação da amisade e mais ainda o chiste de um bom dito, leviano mas intuitivo no alcance, bom e ao mesmo tempo implacavel na ironia, sensualista e crente na immortalidade, o genio gaulez é sempre a alma d’este eccleticismo intelligente e do sentimento de sociabilidade que caracterisa o francez em toda a parte. Quando o direito universal se exprimia por um symbolismo poetico, a França começava pela linguagem da rasão; quando a Europa jazia sob a arbitrariedade do Feudalismo e dos terrores da Egreja, o burguez ria-se nos Fabliaux, mofando das duas tyrannias temporal e espiritual; a lingua franceza tornou-se de um universalismo extraordinario pelo espirito de sociabilidade, e como dizia Martin de Carrale, no seculo XIII: «la plus delitable à lire et à oir que nulle autre.» É uma lingua vulgarisadora para toda a ordem de factos, cooperando para que a França seja a capital da civilisação, o centro em que palpitam as emoções mais generosas. A litteratura franceza é influenciada por este génio da raça: ora desenvolta e cheia de ironias e ditos de boa sociedade, como em Rabelais, Montaigne, Bonaventure des Periers, Beroalde de Verville, Luiz XI e a rainha de Navarra, La Sale e tantos que continuaram sob o humanismo classico a vêa sarcastica e mordente dos Fabliaux dos seculos XIII e XIV e das Sotties do velho theatro popular; ora pautada, pedante, convencional como no preciosismo, em Racine, Marmontel, Scudery, Delille; mystica, como em Calvino, Francisco de Sales e Fénélon; tumida e emphatica em Victor Hugo. A hegemonia intellectual da Edade media continuou-se pela França na fórma social depois da Revolução, que ella propagou a todos os povos da Europa não tanto com balas como com cantigas. Michelet, que comprehendeu tão lucidamente a hegemonia da França, proclama-a na Introducção á Historia universal: «Toda a solução social ou intellectual fica infecunda para a Europa, até que a França a interprete, traduza, popularise... Ella diz o Verbo da Europa, como a Grecia disse o da Asia.»

Para a comprovação do genio da raça transluzindo nas creações artisticas, ainda apesar do convencionalismo de escóla e dos preconceitos da civilisação, Taine determinou na Historia da Litteratura ingleza duas correntes de inspiração, provenientes dos sangues saxão e normando, caracterisadas nos maiores escriptores. O Saxonio tem o genio tenaz, luctador, vive da incerteza, sorri-lhe a ideia da morte, põe-se em combate com a natureza; a tensão violenta diante da catastrophe é o momento mais bello da sua vida; tem uma mythologia sombria, tradições medonhas, instinctos brutaes. Dos parceis do mar germanico, vem como o alcyão da tormenta accoitar-se na Bretanha, e com os Juttes e os Anglos supplanta pela conquista o elemento celtico. Para esses invasores o céo plumbeo da Inglaterra é uma aurora comparado com a cerração dos mares do norte; são meio hyppopotamos na ferocidade e na voracidade, procurando a alegria ruidosa nas bebidas mais corrosivas. Quando o influxo do Christianismo veiu explorar o instincto supersticioso d’esta raça, substituiu-lhe o terrivel deus Thor que atirava o martello pelos áres, pelo deus dos exercitos que arrojava o raio, e enlevou-a com as lendas tenebrosas da Descida ao Inferno (Tundal e Purgatorio de S. Patricio.) A poesia ingleza, exprimindo esta energia saxonia representa na sua espontaneidade a trilogia satanica, a Duvida, o Mal, o Desespero; é Shakspeare propondo a fórmula dubitativa em Hamlet: To be, or not te be, quando depois da Renascença se dissolvia a synthese theologica da Egreja sem se determinar a synthese humana da consciencia; é Milton, depois da revolução social, divinisando o principio do Mal, Satan, como a libertação de todos os absurdos que desde a Reforma prendia a sociedade e o espirito em um despotico puritanismo, na phrase: Mal, torna-te o meu bem (Evil be then my good) na epopêa do Paraiso perdido; é Byron, levado ao paroxismo do desespero entre uma aristocracia convencional, que não percebe a marcha do tempo moderno, e que o repelle com o desdem de uma mediocridade panurgica; ello abandona a Inglaterra, o vagabundo Child Harold, que divaga pelo occidente á busca do seu ideal da liberdade, indo morrer por ella na Grecia.

A Renascença como o regresso da alma ás fontes da natureza, e as luctas violentas da Reforma suscitaram em Inglaterra a preponderancia d’este veio saxonio, como as fortes torrentes que descarnam os rochedos: Dayton, Greene, Marlow, Ben Johnson são os precursores ou os primeiros productos da corrente que orientou o genio de Shakspeare. E assim como apparecia o drama em Inglaterra, onde as instituições dos homens livres coexistiram sempre com instituições feudaes ou senhoriaes e monarchicas, tambem a complexidade dos interesses burguezes e da moral privada deram logar á creação nova das litteraturas modernas, o Romance, de que são creadores Fielding, Swift, de Föe, Richardson, Goldsmith.

Ao veio saxonio contrapõe-se o genio normando, como exemplifica Taine. Desde os seculos IX e X, que os Normandos infestavam as costas meridionaes da Europa; terriveis como os saxonios, a permanencia nos climas suaves do sul enfraqueceu-lhes a irritabilidade, fel-os brandos, amigos da novidade. A conquista dos Normandos sobre os Saxões foi superficial, por que os vencidos em menos de trez seculos imprimiram a sua feição aos vencedores: o normando conservou apenas as qualidades exteriores dos seus habitos senhoriaes, que differenciam ainda hoje a aristocracia ingleza, ao passo que o franco caracter saxonio se conserva no povo. Os velhos chronistas notaram este antagonismo; diz Roberto de Gloucester: «As gentes da Normandia ainda habitam entre nós, e aqui ficarão para sempre... Os Normandos descendem dos homens de alta cathegoria, que estão n’este paiz, e os homens de baixa condição são filhos dos Saxões.» Antes de Taine, já o historiador Agustin Thierry fundou sobre este conflicto de raças a Historia da conquista de Inglaterra. A litteratura ingleza resente-se da influencia normanda na predilecção da fórma, na imitação dos modelos convencionaes, em um classicismo sem ideia, em um meio termo do bom, em menos espontaneidade e mais estylo; Drydon, Pope, Addisson, Waller, Gray, seguem a moda litteraria, e ainda hoje fazem a predilecção dos espiritos academicos, dos que consideram a litteratura como um nobre ocio, ou uma habil curiosidade. A hombridade saxonia e a cortezania normanda reunindo-se formaram esse temperamento sanguineo ligado a um caracter impassivel; o humour é o estado psychico d’esta fusão, um lampejo de alegria sob um ár taciturno constante, uma jovialidade indecisa como de quem reage contra um mal estar. O humour é o verdadeiro elemento da obra de arte ingleza: Sterne, no Tristan Shandy e Viagem sentimental, Swift, nas Viagens de Gulliver, Fielding, no Tom Jones, Butler, no Cavalleiro de Hudibras, e modernamente Carlyle representam esta fórmula da esthetica ingleza. Em philosophia, tem a audacia critica de Hobbes e de Bolingbroke a par do mais subserviente biblicismo; tem o positivismo de Locke e Hume conjunctamente com o idealismo de Berkeley, e na sciencia procura manter o accordo official entre a velha synthese theologica com as mais audaciosas theorias transformistas, como se observa em Darwin.

Ampliando o criterio ethnologico á litteratura da Allemanha, já alguns criticos observaram as differenciações locaes reflectindo no genio dos escriptores; a Suabia, é a patria do lied, a canção tradicional, do canto que se desenvolve em um esplendido lyrismo; na Franconia, o gosto artistico popular organisa-se nas Meistergesang. Na sua Physiologia dos Escriptores e dos Artistas, Deschanel transcreve as palavras de um critico indicando que Schiller era da Suabia, e Goëthe da Franconia, deduzindo assim a diversidade d’aquelles dois genios que synthetisam toda a litteratura allemã: «O primeiro, como a raça allemanica d’onde provém, raça isempta, altiva, concentrada, democratica, apresenta-nos a irritabilidade dos sentimentos, a vivacidade da imaginação, o liberalismo da rasão; o segundo, em virtude da sua origem, possue a calma, a correcção, a serenidade, a flexibilidade industriosa de um espirito aberto a toda a cultura. Schiller gastou-se prematuramente pela impetuosidade interior; Goëthe, durante a sua longa vida, foi avançando por um progresso insensivel e contínuo para a perfeição.»[17] Apesar do sentimento nacional tender para a unidade politica, ainda assim prevalecem as influencias locaes nas manifestações do espirito allemão; escreve G. Weber: «Debalde se procurará hoje, um centro litterario parecido com aquelles que existiram outr’ora em Saxe e em Thuringe. Berlim permanece a séde da philosophia e das sciencias especulativas; Munich o fóco das bellas-artes e o baluarte do ultramontanismo; Leipzic e Dresde o centro da critica, da arte dramatica e das bellas-letras...»[18] Heinsius, na sua Historia da Litteratura allemã determina-lhe os periodos da evolução sob o aspecto da raça: o gotico, até ao meado do seculo VIII; o franko, até ao advento dos Hohenstaufen no seculo XII; o suabio, periodo dos Minnesinger e da cavalleria exaltada; o rhenano ou saxonio, da erudição e das Universidades, do seculo XIV a XVI; o saxonio, comprehendendo a renascença, as controversias religiosas, os Meistersenger, ou os cantores populares, e a creação da lingua nacional, pela fusão dos dois dialectos principaes por Luthero; o silesio e suisso, em que predomina a influencia franceza da escóla de Opitz, reagindo e vencendo o perstigio das tradições germanicas em Klopstock, que determina a grande época allemã, em que brilha a pleiada dos genios creadores, como Goëthe, Schiller, Bürger, Wieland, Lessing, etc., como uma integração affectiva da Germania. Sobre esta successão, conclue Heinsius: «Observa-se que em cada época, á parte esta ultima, é uma das grandes familias da nação allemã que conduz todas as outras, que preponderou tanto no pensamento como na actividade, nas letras como na vida social, que, finalmente, imprimiu o seu caracter ao resto da nação e a fecundou com o seu genio.»[19]

Não é excessiva a nossa comprovação, ao tratar-se de determinar o caracter da raça, e acção do meio na civilisação e litteratura de Portugal; por que todos esses povos, a começar pela França exerceram uma acção profunda, já na constituição da raça, já nas fórmas da manifestação do genio nacional. Celtas, Romanos, Germanos e Arabes actuaram sobre o fundo persistente das populações hispanicas, que apesar d’isso conservaram as suas tendencias separatistas e as suas differenciações locaes. Nas creações artisticas formadas por individualidades que estão fóra das influencias vulgares, ainda assim se revela esta fatalidade do sangue, e do meio cosmico. Sobre a mais antiga camada anthropologica da peninsula estabeleceram-se os cruzamentos: Hispano-celtico, hispano-romano, hispano-gotico, e hispano-arabe. Vê-se aqui um fundo persistente de população, que as invasões successivas não conseguiram obliterar nas suas mestiçagens.

O que era pois este elemento hispano? Quando as primeiras frotas tyrias aportaram no Mediterraneo, já a peninsula se achava habitada por gente que se considerava autochtone ou filha da propria terra. Bem podiam ter-se esquecido da sua proveniencia, desde que os Pyreneos a defenderam contra a terrivel invasão dos gelos da época glaciaria. Quem era essa raça mysteriosa aqui escondida? Ella achava-se ramificada pelo sul da Italia e tambem pelo meio dia da França, mesmo pelo norte da Africa; chamaram-se os Iberos. Segundo Guilherme Humboldt, o genio iberico é a base da unidade dos povos meridionaes; com os recentes estudos anthropologicos foram-se esclarecendo estas similaridades, e nos estudos comparativos dos costumes e das tradições confirmando pelas analogias ethnicas este sub solo social. Segundo Bergman, o Ibero é a transição da raça amarella para a aríaca; além da Italia e da França, tambem apparece na Inglaterra, e no typo ruivo germanico, constituindo um fundo primordial ou preárico da Europa. Monumentos, superstições, mythos religiosos, recorrencias de costumes, tradições lyricas e heroicas, communs principalmente ao occidente da Europa, explicam esta raça a que na Hespanha se deu o nome de iberica, que os escriptores da antiguidade greco-romana descrevem com uma elevada cultura, com leis e poesia. Nas successivas invasões da peninsula nunca este elemento hispanico foi obliterado; entraram aqui os Celtas gaulezes, deixaram o seu vestigio no onomastico local, venceram as tribus locaes ibericas, mas foram absorvidos por ellas, como os Saxões da Inglaterra vencidos pelos Normandos os assimilaram ao fim de trez seculos. Os Celtiberos nunca puderam ligar-se completamente para a defeza commum, d’onde Guilherme Humboldt conclue mais pela cohabitação do que pela fusão d’estes dois elementos; o Ibero continuou a ser taciturno, e accoutando-se nas montanhas por um instincto defensivo, e o Celta veiu insensivelmente isolando-se para as bandas do mar, para lançar-se á vida aventureira. En Dorel e Esus são os dois deuses d’estas raças, que persistem em muitas das inscripções lapidares da Hespanha. A facilidade de adaptação estava da parte dos Celtas, que tambem na Italia, em França e Inglaterra se unificaram com outros povos preexistentes, conservando a sua delicada sensibilidade poetica. Aqui temos um começo de differenciação na futura raça hispanica ou nacionalidades peninsulares. As esperanças da raça celtica, personificadas na vinda do Rei Arthur, ainda hoje alentam o povo portuguez, que na decadencia da sua grandeza historica compraz-se com o sonho do Quinto Imperio do mundo, em que o desejado Dom Sebastião hade vir aqui formar a ultima grande monarchia; as tradições da velha Atlantida enlevam a imaginação dos portuguezes insulares, que julgam vêl-a nas cerrações em noite de Sam João. Para as regiões centraes e montanhosas confinaram-se os iberos, de que os bascos actuaes, apesar dos seus cruzamentos são ainda um manifesto documento anthropologico; o elemento docil, aventureiro, amoroso, propriamente celtico irradiou pela orla maritima, em uma linha norte sul, vindo por isso os Portuguezes a conservarem o genio celtico, não obstante Herculano affirmar que o portuguez nada tem de commum com os antigos occupadores da peninsula. É pela extensão e diffusão d’este ramo celtico, que se explica a facil adopção do latim nas conquistas romanas, e mais ainda a differenciação dialectal, que produzia as linguas novo-latinas, cuja formação os discipulos de Diez deduzem de simples degenerescencias phoneticas. O facto da adopção de uma linguagem, orgão de uma mais elevada cultura, em nada modificára a população hispanica.