Os Phenicios, que exploraram o Mediterraneo, vieram attrahidos á peninsula pela noticia das suas riquezas metalurgicas; os que já estavam cansados dos errores longinquos, fixaram-se ao norte da Africa onde fundaram Carthago, e d’ali exploraram commercialmente a Hespanha, preferindo o trafico á guerra. Seria esta situação do ramo semita, naturalmente incommunicavel, segura e sem perturbação, se as rivalidades com o poder romano não produzissem a derrota da segunda guerra punica.

Roma repelliu da peninsula o dominio carthaginez; possuindo um energico poder centralisador, começou por imprimir no territorio dos hispanos as suas divisões administrativas e militares. Não dominava pelo numero e cruzamentos, por que Roma não tinha gente sufficiente para a occupação, mas pela vigilancia das suas legiões, e pelo colonato dos povos vagabundos, que se entregavam á sua protecção, é que sustentava a conquista. A concessão do direito italico harmonisava-se com os costumes ibericos. A influencia de Roma é profunda, como elemento civilisador, e de unificação social, mas nulla em quanto á modificação dos caracteres anthropologicos da raça. Sob o seu dominio os hispanos ficaram taes como eram. A lingua latina como universalista, exprimindo o direito e a poesia, dava distincção ao que a fallava; por tanto deu a Hespanha á litteratura romana muitos dos seus melhores escriptores, coincidindo esta actividade com a adopção da religião universalista do Christianismo, que vinha unificar sentimentalmente o Occidente: Seneca, Lucano, Marcial, Prudencio, Draconcio, Sam Damaso, fazem brilhar a lingua de Cicero na época de uma decadencia que se sustentou com a vitalidade provincial. O verso latino, que na época de esplendor desprezava a accentuação natural pela quantidade, á imitação da poetica grega, voltou nos primitivos hymnos da Egreja, compostos por Sam Damaso, á simplicidade do verso saturnino, ao octosyllabo popular. Estavam achadas as bases da poesia moderna, do lyrismo das novas linguas, a accentuação e a rima, que mesmo nos hymnos da Egreja dão á expressão latina uma belleza incomparavel. A Egreja e o Imperio romano imprimem aos povos da peninsula uma unidade politica e moral, deixando esse germen da cultura erudita, que se sobrepõe ás tradições populares sem comtudo ellas se extinguirem. A Egreja, depois da queda do Imperio, mantém na sua liturgia a lingua latina, e os Reis germanicos reataram a tradição imperial, conservando a lex romana e o seu processo nos tribunaes: estas mesmas causas cooperam para a unidade da civilisação do Occidente.

As invasões germanicas, communs á Italia (Ostrogodos e Lombardos), á França (Frankos e Borguinhões), á Inglaterra (Saxões) e á Hespanha (Visigodos e Suevos), determinam uma certa similaridade das instituições modernas, cujas relações com as instituições gregas e romanas foram achadas por Freemann como provenientes de um fundo commum árico. Mas a invasão germanica da Hespanha, embora numerosa, não alterou o typo anthropologico da população iberica. Assim como os Lombardos, no clima quente da Italia ao fim de um seculo estavam extinctos, por egual causa os Visigodos seriam lentamente eliminados em Hespanha; ao fim de dois seculos já não puderam resistir a uma pequena incursão de Arabes. Comtudo, a invasão germanica deixou elementos que foram apropriados pela povoação hispanica, como vamos vêr. Os Godos aqui em contacto com a organisação civil e politica romana conformaram-se com ella; e a sua aristocracia ou classe guerreira, chegou a esquecer a mythologia de Odin pelo polytheismo social romano; imitou os Codigos romanos, principalmente o theodosiano, excluindo do seu direito a banda pastoral e agricola, a quem deixava o costume ou lei consuetudinaria do Estatuto territorial, conservando exclusivamente para si o estatuto pessoal; esqueceu-se do culto da mulher, de que falla Tacito, e adoptou os costumes dos harens asiaticos; em religião, abandonaram a doutrina da humanidade de Jesus, tornaram-se orthodoxos por corrupção, e desprezaram completamente as suas tradições poeticas. D’esta ruina falla o profundo Jacob Grimm: «As tradições goticas, tão bellas, tão numerosas, aniquilaram-se na maior parte, e não se avalia o alcance d’esta perda; pelo que nos deixou Jornandes se poderá julgar a importancia das origens mais antigas e mais ricas, que existiam no seu tempo.»[20] Grimm explica esta ruina pela influencia da reacção catholica: «A historia trata os Godos com severidade por causa de terem abraçado o arianismo e combatido a orthodoxia;»—«o christianismo triumphante arruinou-lhes os monumentos do passado, prescrevendo como um dever o abandono dos velhos costumes, e o desprezo de todas as tradições do paganismo.» Estas tradições conservaram-se nas camadas populares da banda agricola e pastoral, como o symbolismo juridico. Muitas das lendas germanicas se acham implantadas, confundidas com as nossas lendas portuguezas: as lendas de Nossa Senhora da Nazareth, salvando Fuas Roupinho,[21] da Roussada de Bemfica, contada por Fernão Lopes,[22] o estratagema do Alcaide do castello de Faria,[23] a de Geraldo sem Pavor,[24] de Gaia,[25] da Náo Catherineta,[26] são provenientes d’este fundo dos lites ou colonos decahidos da condição de homens-livres. Nas superstições populares prohibidas pelas Constituições dos Bispados, vem apontada a Camisa de Soccorro, costume privativamente germanico.[27] No Direito portuguez consuetudinario, as Cartas de Foral encerram numerosos symbolos germanicos, embora o mechanismo dos Concelhos tire as suas designações de nomes arabes.[28] Porém, esta camada popular dos lites, era formada do colonato admittido pelos Romanos, de Alanos e outras tribus que acompanharam as invasões sem serem propriamente germanicas; pertenciam a esse fundo que já vimos identificado com o elemento iberico. Não admira pois o facto, citado por Émile Chasles, que na invasão dos Arabes, os Berberes fallassem e se entendessem com povoações acantonadas nos valles (Cagots, Mauregatos), por isso que pertenciam a esse elemento iberico ou hispanico. Quando se deu a reconquista visigotica ainda a aristocracia quiz conservar no Codigo Visigotico os seus privilegios, mas não foi isso possivel diante do desenvolvimento da população das cidades, que era hispanica.

Com a invasão dos Arabes, embora a peninsula fosse fundamentalmente revolvida e até certo ponto as duas civilisações se penetrassem, nem por isso o elemento semita alterou os caracteres anthropologicos da população iberica. Assim como os Romanos, nas suas conquistas formavam o grosso das suas legiões com povos barbaros, tambem os Germanos trouxeram nas suas bandas guerreiras tribus que lhes eram extranhas (Alanos, Gelas, Seythas), e os Arabes occuparam a peninsula hispanica quasi que com exercito de Berberes. Os dominadores conservaram-se sempre estranhos ou incommunicaveis com os povos conquistados; o estipendiario, o mercenario, o aventureiro trazidos na corrente da conquista é que se misturavam entre o povo e conviviam em uma crescente mestiçagem. O Proconsul romano, o Conde germanico, e o Emir arabe consideravam barbaros a sociedade e o paiz que governavam, e fechavam-se nos seus costumes aristocraticos, e nos seus privilegios excepcionaes; pelo contrario os elementos do colonato romano, dos lites germanicos, que se haviam confundido na persistente população hispanica, e dos mouros trazidos pela invasão e ulteriores conflictos do dominio dos Arabes, vieram a constituir a gente sedentaria das villas e cidades, a que já no seculo XII se dava o nome de Mosarabes. Esta designação é preciosa, por que denominando o fundo anthropologico da raça hispanica ou iberica, exprime a influencia exterior ou a acção do contacto com a civilisação dos Arabes; segundo Pascoal de Gayangos, Must’ariba significa o que imita o viver dos Arabes. Bastava a profunda tolerancia politica e religiosa dos Arabes, e o modo como garantiram a existencia e a propriedade ás populações sedentarias, mediante um leve imposto de capitação, para os seus costumes provocarem interesse. Mas estas relações entre o povo conquistado e o Arabe não foram descriptas com verdade pelos chronistas ecclesiasticos; do seculo VII em diante não cessaram de retratar com as côres mais sinistras o quadro da invasão arabe; representam razzias sangrentas, desolação geral, ruina dos templos, ausencia de toda a cultura litteraria; para elles entre a Cruz e o Crescente existe um abysmo, de odio eterno, irreconciliavel, de morte; as duas raças, arabe e germanica, repellem-se com uma antithese absoluta. Para os escriptores ecclesiasticos e chronistas contemporaneos é esse eterno antagonismo que faz com que a aristocracia visigoda se refugie nas montanhas das Asturias abandonando as populações sedentarias ao invasor arabe, e é que o obriga passado o primeiro espanto a ir reconquistando a palmos o solo patrio. Odio politico, repugnancia entre as duas religiões, aversão á diversidade de linguas e costumes, era quanto bastava para communicar entranhado ardor á cruzada permanente que terminou na conquista de Granada.

Triste erro da paixão patriotica e religiosa dos chronistas, que não quizeram relatar como a população sedentaria, colonos romanos, lites germanicos, sob o regimen de tolerancia dos Arabes, acceitaram a convivencia com os mouros ou berberes, e vieram do seculo VII ao seculo XI a formar d’esse complexo elemento hispanico ou iberico um povo livre. No onomastico popular acham-se os nomes godos ligados com os arabes (ex. Venegas e Viegas = Ibn-Egas); acham-se nos divertimentos e cantos populares os nomes dos instrumentos musicos e dos generos poeticos, (quitara, serranilha, leila, lenga-lenga); os sacerdotes christãos têm nomes arabes, e escrevem em caracteres arabes ou aljamia. Quando começou a reconquista pela aristocracia goda, este elemento popular ou propriamente nacional estava já tão desenvolvido nas suas relações civis e economicas, que não foi possivel restaurar as velhas e atrazadas instituições germanicas, artificialmente e capciosamente regulamentadas no chamado Codigo Visigotico. É esta população que recebeu o nome de Muztarabe, como se acha em um documento de 1101, de Affonso VI; no poema de Gonzalo de Berceo, Milagros de la Virgen, já se dá a essa collectividade o nome de Mozarabia, em contraposição á classe culta ou Clerezia; o nome é vulgar no castelhano Mozarabe, no valenciano Moçarab, Moçab, e no portuguez Mosarabe. Este dualismo entre um povo livre, que se vae constituir em nacionalidades, e uma aristocracia atrazada que vae ser submettida pelo poder real, acha-se perfeitamente representado no typo épico do Cid, como observou judiciosamente D. Agustin Duran: «Ha um Cid monarchico, popular, religioso e aventureiro; ha outro aristocratico, feudal, cavalheiresco e devoto; porém nunca se confundem no principio politico que representam. O Cid feudal e devoto acha-se sómente idealisado na Chronica rimada e em alguns romances tirados d’ella; o Cid monarchico, popular, santo e cavalheiresco está formado no Poema publicado por Sanchez, nas Chronicas latinas e castelhanas, e provavelmente nos cantares que n’ellas se citam, ou que convertidos em prosa se inseriram no texto, e nos romances velhos que restam, ou em antigos compostos posteriormente no seculo XVI, quando predominavam o espirito cavalheiresco e os costumes palacianos. Este Cid, que se oppõe ao Cid dos senhores, é o que triumphou das ideias feudaes, é a verdadeira figura popular que a escripta e a tradição nos legaram, condemnando ao olvido a do seu antagonista; é a que caracterisa em todas as épocas a idiosincrasia nacional, a necessidade de conquistar a unidade de territorio e das leis, a de acabar com a anarchia que impedia a reconquista do paiz contra os Arabes. Este é o Cid, que, como o povo, se ligava aos monarchas para libertar-se da oppressão dos senhores; mas que, ao mesmo tempo, vencido de outra tyrannia que podia empecer a liberdade, ao passo que acatava e fortalecia os reis, lhos fallava severa linguagem de verdade, obrigando-os a respeitar a lei da opinião.»[29] A poesia popular fez aqui a synthese da creação da sociedade civil na alliança da burguezia com a realeza.

Foi tambem com o nome de Mosarabes que Alexandre Herculano designou a população da Extremadura e da Beira antes da constituição da nacionalidade portugueza: «os habitantes da capital da antiga Luzitania eram principalmente Mosarabes...»[30] E: «na Beira, o mosarabismo devia caracterisar mais profundamente a população, do que ao norte do Douro...»[31] Mosarabia e Mosarabismo, significa com todo o rigor historico, ethnico e anthropologico a raça hispanica ou iberica, tendo incorporado em si todos os elementos celticos, colonato romano, lites germanicos, tribus maurescas ou berbericas, vindo sob a tolerancia arabe a constituir a nova povoação livre que se transforma de classes servas no povo das nacionalidades peninsulares. A designação é restricta á época arabe, como exprimindo uma unificação ou integração social; creadas as nacionalidades, esqueceu-se o nome de Mosarabia, prevalecendo o separatismo nos nomes de Gallegos, Portuguezes, Aragonezes, Leonezes, Navarros, Castelhanos, etc. Mais tarde o nome de Mosarabe revivesceu com um sentido puramente religioso, para designar aquellas povoações, que em contacto com os Arabes souberam conservar intacta a fé e o culto christão; tal é o sentido com que se encontra em uma comedia citada por Ticknor.[32] Este dualismo da Mosarabia e Clerezia, indica em que elemento ethnico se devem procurar os caracteres psychologicos e os themas tradicionaes das creações artisticas, e por que via as correntes da erudição grega e romana exerceram por vezes uma obnubilação na phantasia dos escriptores peninsulares. Quando estas populações christãs foram reconquistadas, o laço religioso é que as unificava, porém os costumes imitavam a cultura arabe, subordinando-se aos novos senhores pela identidade da fé; no acaso da guerra, se tornavam a cahir no dominio sarraceno, eram tratadas com mais brandura. No seculo X o terreno comprehendido sob o titulo de Minho, Traz os Montes e Beira-Alta era extremamente povoado, o que não teria sido possivel se tivesse sido occupado simplesmente por christãos asturo-leonezes. Os territorios do Douro e do Mondego já por este tempo apresentavam grande numero de granjas, casaes, villares e povoas. Sob as phrases do latim tabellionico dos diplomas, como notou Herculano, sente-se palpitar uma população livre, que se fará reconhecer mais tarde. A contar do seculo IX encontram-se nos contractos celebrados entre estas differentes sociedades nomes goticos e romanos amalgamados em agnome e cognome com os nomes arabes; presbyteros e diaconos assignam-se com nomes mussulmanos, e ás vezes filhos e irmãos entre si diversamente chamados com nomes arabes e goticos. Pelo que, conclue Herculano: «Não é evidentemente esta confusão de denominações a imagem da assimilação, que, salva a differença do culto e da jurisprudencia civil, se operára lentamente entre os sarracenos e os hispanogodos sujeitos ao seu dominio?»[33] Na magistratura civil, os nomes dos varios cargos tinham tambem designações arabes; na segurança da sua erudição, concluiu Herculano: «O resultado definitivo de todos estes factos, devia de ser, no começo da monarchia a preponderancia do elemento mosarabe entre as classes inferiores, ao passo que entre a nobreza preponderava forçosamente a raça asturo-leoneza.»[34] De facto na Extremadura, Alemtejo e Algarve, depois da separação de Portugal de Leão, ficaram vivendo os mouros forros com a sua independencia garantida pelos Foraes e pela immunidade da communa. Assim se fortificava esse elemento mosarabe nas classes inferiores, onde se crearam as manifestações artisticas, principalmente architectonicas, e se conservaram as tradições poeticas, ou Aravias. Esta influencia poetica dos Arabes acordou a imaginação popular; pelos Arabes da Hespanha se implantaram na Europa os contos orientaes do Hitopadeça, do Pantchatantra e do Calila e Dimna; foram esses themas novellescos vulgarisados pelos arabes que vieram fortalecer o instincto da liberdade burgueza, e que foram estimular a creação romanesca no Decameron de Boccacio, nos Contos de Sassetti, nas Notte piacevoli de Streparole, nas graciosas narrativas das litteraturas romanicas.

Este dualismo, que Herculano tambem observou entre as classes inferiores ou mosarabes e a aristocratica ou asturo-leoneza, reflecte-se no antagonismo entre as autonomias nacionaes, ou individualismo dos estados peninsulares, e a obliteração de todos esses caracteres por um espirito abstracto de unitarismo, conservado da acção imperial romana, gotica e arabe, que a organisação tambem unitaria da Egreja veiu fortificar na aristocracia e na realeza, que ao caminhar para a dictadura se separou do povo. Era este espirito de unidade que fazia com que os reis e aristocratas christãos se entendessem por vezes com os emires e kalifas; na batalha de Zalaka trinta mil sarracenos combatiam sob as bandeiras christãs do rei de Castella e Leão, ao passo que os cavalleiros christãos coadjuvavam as hostes do almoravide Iussuf; Affonso VI, no enlevo dos seus amores por Zaida, queria pôr no throno o filho da sevilhana que estremecia; em Portugal tambem vêmos D. Affonso Henriques fazer uma alliança com Iben-Kasi. O ideal da unificação manifestou-se na creação do kalifado de Cordova, e na reconstituição da unidade visigotica, nas luctas de Castella, Navarra e Aragão. Alheio a todas as ambições creou-se um povo vivendo por si e para si, que emquanto manteve os seus separatismos naturaes, ou pequenos estados, chegou a exercer uma acção immensa na Civilisação occidental. É este caracter ethnico, que o nome de mosarabe exprime tão perfeitamente, que deve ser procurado nas creações dos povos peninsulares differenciados pelas condições do territorio.

Portugal occupa na peninsula hispanica uma faixa norte a sul, na orla occidental: d’aqui a grande variedade da sua climatologia, das suas producções agricolas, e das capacidades e caracteres individuaes dos seus habitantes. Foi esta a causa immediata da actividade social que o levou á desmembração da unidade asturo-leoneza, e que sem fronteiras naturaes, separou Portugal profundamente dos outros estados hispanicos. Além d’esta situação, que em muitas cousas torna Portugal comparavel ás peninsulas da Italia e da Grecia, o solo do paiz é bastante accidentado, influindo pelas altitudes na variação do clima de provincia para provincia; a visinhança do mar, ou as grandes montanhas e os valles profundos tornam o clima ora desegual, ora desabrido, como na Beira, Minho e Traz os Montes, apresentando as vegetações das zonas frias na Serra da Estrella e no Gerez, e o algodoeiro das zonas quentes no Algarve. A florescencia indica esta instabilidade: os cereaes recolhem-se um mez mais cedo na Extremadura e Alemtejo do que em Traz os Montes, em Trancoso, na Guarda, em Almeida e no Sabugal; o pecegueiro, o damasqueiro e a cerejeira florescem em Chaves em Janeiro, em Montalegre em Dezembro, e em Coimbra nos principios de Fevereiro. As duas primaveras que o anno apresenta em Fevereiro e Outubro, são alternadas, a primeira de calor e chuva em todos os trez mezes de duração, a segunda é precedida de trez mezes de calma ardente e falta de agua até ao equinocio, em que começam as chuvas torrenciaes. Cada provincia apresenta caracteres differentes; nos districtos mais elevados das provincias do norte, as neves mantêm na estação calmosa a frescura da atmosphera, tornando as noites frias mesmo nos ardores do verão. O Minho é a mais pequena de todas as provincias e a mais florescente em agricultura, em commercio e industria; aqui a actividade do homem venceu o terreno esteril tornando-o fecundo; ha mais densidade de população, mais fartura, mais desenvolvimento moral e iniciativa. Na Beira, o systema agricola dos pousios não deixa á terra a largueza da sua producção, que diminue cada vez mais com a extensão dos baldios para pastagens; a falta de communicações conservou por muito tempo o povo em uma rudeza e fanatismo invencivel. Traz-os-Montes é uma provincia montanhosa, fria em extremo no inverno, abrasada pelas calmas no verão, em rasão dos grandes montes que a fecham; tem immensos baldios, contando mais de dez leguas abandonadas desde a raia de Hespanha até ás proximidades de Barca d’Alva; alli o homem participa do caracter energico que lhe dá a natureza, é contrabandista. Na rica Extremadura, é mais geral a miseria da população solitaria e ignorante, explorando o solo feracissimo com rotinas caducas. O Alemtejo é a provincia mais extensa, mais fertil e a mais despovoada; a fecundidade do solo fez o habitante indolente; ama de preferencia o ser guardador de gado, a vida de campino; o seu desleixo tem empobrecido a provincia por não procurarem agua. O clima do Algarve é amenissimo, uberrimo o terreno, mas desprezado; não conhecem os habitantes as vantagens das florestas e vão sendo invadidos pelos areaes; a vegetação é tropical, como a bananeira, a palmeira, a cana de assucar; amendoaes, alfarrobaes e figueiraes florescem luxuriantes, mas os rios e as barras vão-se tornando incommunicaveis pela indolencia dos povos.[35]

Perturbações subitas da atmosphera levam á formação do temperamento bilioso, que como observa Stendhal torna as impressões violentas, e as ideias mais absolutas mas inconstantes;[36] a agitação e o mal estar permanente provocam-no á actividade. Diz Stendhal: «O bilioso melancolico, variedade tão commum em Hespanha e Portugal, e no Japão, parece-me o temperamento da desgraça em todas as suas fórmas.»[37] E exemplificando este temperamento pelos typos tão caracteristicos de Domingos de Gusmão, Carlos V, Cromwel, podemos equiparar-lhes os portuguezes Pedro I, Dom João II, Affonso de Albuquerque, Fernão Mendes Pinto, Sá de Miranda, Ruy de Pina, Damião de Goes, typos austeros e atormentados. Para o melancolico o amor é sempre um negocio sério, como observa Stendhal; e que sômos aos olhos da Europa, senão um povo de apaixonados? Quem tem os mais exaltados poetas do amor, como Bernardim Ribeiro, Christovam Falcão, Camões, Rodrigues Lobo, Garrett, João de Deus? Uma lenda de amor deu a primeira tragedia nas litteraturas da Europa, a Castro, de Ferreira; o amor é uma fatalidade invencivel, como se vê nas Cartas da Religiosa portugueza, e torna contagioso o suicidio na mocidade e nas classes populares.

A visinhança do mar imprimiu a estas energias uma acção commum, que tornou Portugal um dos principaes factores da historia: a exploração do Mar Tenebroso, a circumducção do globo, e a idealisação de uma das mais bellas Epopêas da humanidade.