Ha no caracter portuguez uma certa sympathia pela novidade, uma facil assimilação de todos os progressos ou estrangeirismo; foi esta qualidade, tão mal comprehendida, que fez do genio jonio o elemento fecundo e activo da civilisação hellenica. É esta tendencia progressiva que reserva a Portugal uma missão hegemonica na futura federação dos Estados peninsulares.

Com a marcha da civilisação humana as raças vão naturalmente unificando-se, e, como observa Comte, só virão a conservarem as suas qualidades e caracteres differenciaes as raças branca, amarella e negra. A successão e distribuição das raças da Europa, segundo as modernas investigações da anthropologia, apresentam uma quasi completa similaridade; na corrente da historia, uma mesma cultura greco-latina, uma mesma religião catholica, accordando as consciencias, os mesmos elementos sociaes desenvolvendo as instituições civis e politicas, concorreram activamente para esta solidariedade humana que já merece o nome de Republica occidental. D’estes antecedentes, e do contacto sempre crescente dos povos europeus no sentido industrial e economico, resulta a influencia mutua que todos elles exercem entre si, conduzindo para a acção commum.

Os Francezes, Italianos, Hespanhoes e Portuguezes formam perante a civilisação um mesmo povo; as mesmas raças invadiram os seus territorios e ahi se fixaram fusionando-se. O elemento iberico assimila e unifica em si o romano, o celta, os ramos germanico, franko, lombardo e gotico e por fim o arabe. A creação das linguas romanicas proveiu mais da persistencia dos caracteres communs dos povos conquistados pelos romanos do que da decomposição do latim litterario. Uma mesma tradição, formada da decadencia dos seus polytheismos serve de assumpto para essa nova linguagem; o jogral cantando de terra em terra faz-se entender por toda a parte mudando a accentuação das palavras, chega a empregar ao mesmo tempo varios dialectos, como no Descort; uma mesma lingua, o latim, presta os seus moldes de construcção syntaxica a esta diversidade de dialectos, dos quaes os mais desenvolvidos se tornarão linguas nacionaes; uma mesma poesia, a canção trobadoresca, alegra a mudez dos castellos, irradia do Meio Dia da França, cultiva-se nos principados da Italia, em Aragão, na região gallecia ao norte de Portugal. A arte da poesia ou do gai saber ramifica-se, imprimindo uma unidade sympathica aos povos novo-latinos. As mesmas lendas épicas seduzem a imaginação d’estes povos: Carlos Magno, o centro heroico das Gestas, combate nos romances os Sarracenos; os Hespanhoes celebram a sua derrota em Roncesvalles na pessoa de Roland; os Italianos ferem-no na vileza e degradação do filho e dão o nome de ciarlatani (de Carlos) aos troveiros que celebram os seus feitos nas praças publicas: em Portugal apparecem os vestigios meio apagados do Cyclo carlingio, trazido pela passagem dos Cruzados que ajudaram a conquista de Lisboa.

As mesmas commoções politicas succederam na Europa meridional; o impeto revolucionario era contagioso, e o grito da liberdade popular repetia-se por todas as cidades da Italia, servindo aquellas que primeiro alcançavam a independencia, de typo para a exigencia de futuras garantias. Por toda a parte o alto clero se oppoz á revolução communal, em que se creavam as condições do terceiro estado. As Chartes e Coutumes serviam de typo para as povoações que procuravam organisar-se; em Hespanha as Cartas pueblas e os Fueros, em Portugal as Cartas de Foral, foram consequencia d’esta corrente a que depois da reconquista obedeceu a liberalidade régia. Os Foraes de Salamanca, Avila e Zamora foram o typo geral que os povos reclamavam como segurança das suas garantias, subsistindo em Portugal os typos de Salamanca, Santarem e Evora.

As lendas da credulidade religiosa foram por todo o Occidente as mesmas, com egual intensidade e fervor: na Italia, França, Hespanha e em Portugal campêam as Cathedraes goticas, bellas como noivas préstes a receberem a visita do amado. Sente-se o mesmo sarcasmo nos contos decameronicos e nos fabliaux, que pintam a vida domestica burgueza e a defendem; espalha-se o mesmo terror nas lendas da Dansa da Morte, da Descida aos Infernos, do Judeu errante, dos semeadores das pestes, da condemnação do livre exame, equiparado ao pacto demoniaco como no Milagre de Teophilo, e ainda no panico do fim do mundo fixado para o anno mil.

A consanguinidade dos povos latinos é evidente; pelo processo da fixação do poder monarchico, egoismo das familias dynasticas e abuso da dictadura, foi-se estabelecendo a separação d’estes povos com as mais insuperaveis fronteiras de bastardia politica. Esta antinomia, como observa João Müller, explica dez seculos de guerras na Europa. Foram as Litteraturas modernas, no seu periodo medieval que conservaram o instincto d’esta confraternidade apagada; serão ellas os principaes orgãos, na sua futura idealisação universalista, que hão de tornar consciente este espirito de occidentalidade.

§ 2.—A Tradição e os Costumes

De todas as raças que se encontraram na Peninsula hispanica, assim como ficaram vestigios dos seus caracteres anthropologicos, que se imprimem persistentemente na população actual, tambem se conservaram disposições ethnicas, que se transmittem na prática dos costumes e no automatismo das Tradições. Esta physionomia organica e moral do passado revela-se ás primeiras observações, e muitas vezes a intelligencia dos dizeres dos antigos geographos quando descrevem os povos peninsulares, comprehende-se melhor fazendo a comparação com os habitos do presente.[38]

Conforme as raças que occuparam a Hispania se foram mestiçando, accumularam-se tambem as Tradições poeticas, coexistindo por modo que ainda hoje se póde determinar o que provém de uma origem iberica, celtica, phenicia, romana, germanica ou arabe. O syncretismo d’estes elementos resultava da obliteração dos caracteres nacionaes; por que o facto da unificação politica da Peninsula foi sempre um esforço artificial, voluntario, mas impotente, sem que, sob o imperio romano, germanico ou kalifado arabe se conseguisse fundar a synthese organica de todos estes povos em um substractum de nação. Existem tradições ibericas, que não exprimem um sentimento nacional; como existem tradições celticas que não attingiram tambem esta alta expressão social. Se as tradições germanicas ou arabes chegaram a revelar essa consciencia superior de uma raça, perderam o sentimento nacional n’este syncretismo determinado pela successão de tantos povos já de caracter mongoloide ou allophylo, já de caracter semita e árico.

As nacionalidades peninsulares, como a portugueza, por exemplo, são posteriores a este grande residuo de tradições ethnicas: e a sua constituição é devida a um impulso individual, ao heroismo e ambição de um chefe; mas este esforço seria esteril se não aproveitasse as condições immanentes, que existiam nas populações que se confederavam espontaneamente nas suas Behetrias. Diante d’isto facil foi o equivoco de um historiador qualquer de attribuir a formação da nacionalidade portugueza á vontade de homens que se impuzeram á multidão inconsciente. Se D. Affonso Henriques e os reis que lhe succederam até D. Affonso III, não dessem cohesão ás cidades livres do Condado portucalense, jurando elles proprios as suas garantias em Cartas de Foral, não teriam conseguido apoiar o seu poder real sobre populações autonomistas, que assim se submetteram a uma unificação nacional. Em uma carta de Alexandre Herculano vimos uma allusão a essa theoria historica de nação-consciencia, que elle refuta com simplicidade dizendo, que no seculo XII já os Portuguezes chamavam com desdem aos hespanhoes estrangeiros. E Fernão de Oliveira, tambem notava, sem o saber explicar, como é que os Portuguezes acceitaram a fórmula castelhana El-Rei para designarem uma instituição politica que não tinham, por que viviam por si, nas suas cidades confederadas. Quando esta união se conheceu pela primeira vez proficua nas batalhas do Salado e de Aljubarrota, e nas expedições maritimas do Atlantico, foi então que a collectividade portugueza pulsou com o sentimento de Patria; é n’este activo periodo, que abrange os fins do seculo XIV e todo o seculo XV, que as tradições peninsulares, persistentes e sobreviventes de um longo passado, se adaptam á expressão do sentimento nacional. Assim, vetustas tradições do cyclo da Odyssea mediterranea, como a dos errores de Ulysses e do regresso do heroe, tomam o aspecto nacional das navegações portuguezas nos romances da Náo Catherineta e da Bella Infanta. O povo canta o seu heroe nacional na idealisação do Condestavel Nun’Alvares, e lamenta como em um novo Iálemos a morte do princepe Dom Affonso. As vagas tradições phenicias das Ilhas encantadas servem-lhe para estimular a audacia nas expedições maritimas pelo Mar Tenebroso; e as lendas celticas da ilha dos heroes, da phantastica Avalon, servem para guardar a esperança do vingador da nacionalidade extincta, o desejado e popular Dom Sebastião. Aqui vêmos como se faz a apropriação ao organismo nacional e historico d’esse residuo de tradições de todas as proveniencias ethnicas persistentes na peninsula hispanica. E n’este ponto de vista está implicita uma certa similaridade de fórmas lyricas, épicas e dramaticas em todos os povos do occidente da Europa em que entraram os mesmos elementos da raça, facto já anteriormente notado por alguns philologos e ethnologistas em quanto a Portugal, Hespanha, França, Italia e Grecia moderna. É pois esta a primeira base para o estudo comparativo das Tradições, resultando das suas similaridades nas fórmas lyricas, épicas, novellescas e dramaticas a reconstrucção de uma manifesta occidentalidade.