Depois d’esta coordenação fundamental, em que os povos meridionaes não se plagiam mas são simplesmente conservadores inconscientes, apparecem os rudimentos em que pela aggremiação territorial se iam estabelecendo os esboços de nacionalidades. As Tradições e cantos populares do Minho (norte de Portugal) completam-se pelo estudo simultaneo e comparativo das Tradições da Região Asturo-Galecio-Portugueza, substractum de uma nacionalidade que se definia na orla maritima de oéste, que chegou a abranger a Beira. Ao sul de Portugal esboça-se um outro rudimento social apagado na historia, mas persistente nas Tradições da Região Extremenha-Betico-Algarvia. No percurso historico da nacionalidade portugueza, a expansão colonial começa quando a Tradição se tornava a expressão do sentimento de Patria; os cantos tradicionaes fixaram-se n’esses varios centros de persistencia ethnica, os Archipelagos da Madeira e dos Açores, e modificaram-se segundo os elementos da população nos outros fócos coloniaes da Africa, Brazil e India.
Quando um povo entra na vida historica, assimilando os progressos realisados na humanidade e contribuindo para a civilisação com a energia ou tendencias novas que distinguem a sua raça, a este impulso dynamico corresponde a manifestação d’essa outra força statica, a Tradição, que no meio de todas as transformações hade ser o vinculo moral e affectivo da nacionalidade. A Tradição torna-se muitas vezes um estimulo de actividade, como se vê na Grecia quando reagiu contra a Persia; e então, como primeira revelação da unidade d’esse povo, o amor das tradições provoca elaborações individuaes conscientes, que pelo seu intuito esthetico constituem o phenomeno sociologico da Litteratura. Só merece o nome de Litteratura, tomada sob este aspecto, a série das creações sentimentaes e intellectuaes por onde o gráo de consciencia que esse povo tem do seu individualismo nacional chegar a ser expresso. Todos os povos que tiverem caracteres de raça bem accentuados, que a par de uma marcha historica importante não tiverem obliterado as suas relações com um passado tradicional, que ao facto da nacionalidade ligaram um ideal de liberdade na esphera civil, politica e philosophica, esses povos devem possuir uma Litteratura original e fecunda, servindo ao mesmo tempo para patentear o seu nivel moral e para annunciar a aspiração que ás vezes leva seculos a ser effectuada. Sob um tal aspecto não existem Litteraturas mais ou menos perfeitas, por que productos reflexos do meio social, o seu estado é um documento immediato; se se moldam por typos de convenção, a que as academias chamam classicos, se a obra do escriptor consiste em uma paciente imitação e é produzida sem intuito de communicação com o povo, a sua esterilidade está revelando que a nacionalidade se conserva em uma aggregação sem destino, e que causas intimas a atacam nas suas condições organicas. Estas são as bases positivas da critica de qualquer litteratura; procurar se as obras se conformam com os preceitos rhetoricos, ou se se aproximam do typo abstracto do Bello pelo confronto com as realisações artisticas da Grecia, estes dous processos são os que ainda seguem os obcecados habitos escholares do humanismo jesuitico, e os que levados por miragens metaphysicas dão a phrases sem sentido o nome de syntheses.
A Litteratura é objecto de uma sciencia concreta, que se presta á deducção de leis geraes da Sociologia; estabelecer a relação entre as concepções individuaes ou dynamicas, e os elementos staticos da Raça e da Tradição é o processo por meio do qual se chega á determinação do caracter nacional de uma litteratura. O criterio da filiação pertence rigorosamente á historia; por isso a Historia da Litteratura assenta sobre esta phylogenia da Raça e da Tradição como modificadores de todas as concepções individuaes. Só por uma tal connexão é que essas obras podem ser bem sentidas e bem comprehendidas. A Historia da Litteratura é este processo em que se procura descobrir pela realisação que nos apresenta, a vitalidade da raça, a consciencia da nacionalidade, e até que ponto estas duas forças naturaes estiveram em harmonia ou antinomia com a civilisação.
O estudo comparativo das Litteraturas levou a determinar um certo numero de fórmas, por assim dizer universaes, que são a Epopêa, o Lyrismo e o Drama; a sua universalidade deriva de estados psychologicos communs, bem como a successão do seu desenvolvimento resulta das transformações do meio social, onde muitas vezes se conservam os elementos tradicionaes que serviram de thema ás obras e concepções sentimentaes das individualidades superiores. Remontar pela critica das obras primas do genio a esses elementos inconscientes da Tradição, relacional-as com as exigencias moraes da sociedade cujas aspirações exprimem, eis o processo da historia completo nos seus fins de disciplina critica e de synthese.
Estas fórmas litterarias têm uma origem commum humana, n’esse poder mental de personificar em mythos e de communicar a emoção pelo equivalente da imagem, ou intuição das analogias. Ao trabalho da personificação, que se acha plenamente desenvolvido nos Mythos religiosos, segue-se uma degenerescencia provocada pela especulação abstracta dos dogmas, e em grande parte é d’essa degeneração popular dos mythos que se formaram as Epopêas antigas ou anonymas. As analogias das imagens serviram para fixar o modo de expressão do sentimento em um periodo em que o impressionado não podia ainda julgar a sensação emotiva; assim o Lyrismo foi tambem descriptivo, e simultaneo com a Epopêa, tendo egualmente uma base de transmissão tradicional; taes foram os typos hymnicos e dithyrambicos, e na Europa Occidental as Pastorellas e Balladas.
O apparecimento do Drama é tradicionalmente bem caracterisado; nascido tambem de actos ritualisticos, desenvolve-se com as condições que emancipam as classes medias ou burguezas, quando ha egualdade civil, interesses geraes, collisões de deveres, conflictos de ambições, quando existe um consensus moral por onde se afferem os actos das personalidades. Nenhuma fórma da arte ou da Litteratura se cria por méra curiosidade; corresponde sempre a um estado psychologico, á necessidade de uma expressão e communicação de sentimento.
Seguiremos esta divisão natural de todas as Litteraturas, derivando cada uma d’estas fórmas dos seus germens tradicionaes, determinando assim o que ha de organico em manifestações tão complexas que se julgou terem sido creadas arbitrariamente.
a) DAS FÓRMAS LYRICAS
A relação entre a Epopêa e um fundo tradicional foi muito cedo achada pelos philologos e é uma base positiva da critica; porém não era procurada essa relação com o Lyrismo por se attribuir o seu desenvolvimento ao ideal do sentimento resultante do maior progresso social, e da elaboração subjectiva de um estado do passividade consciente que se discute. Antes do sentimento pessoal existiu o sentimento da collectividade, expresso em fórmas consagradas nas festas do trabalho, como labutação da lavoura, dos rebanhos e do mar, e nos factos da vida domestica, como nascimentos, casamentos e enterros, ou mesmo na vida publica. O sentimento pessoal servia-se d’essas fórmas tradicionaes, adaptando-as á expressão consciente e voluntaria de uma situação particular; é assim que se destaca do fundo tradicional a obra litteraria, a qual para ser bem comprehendida precisa ser aproximada da sua origem. Os cantos hymnicos, que apparecem nas religiões primitivas, embora se immobilisassem na fórma do dithyrambo, ou a successão de imagens representando sempre a mesma ideia, conservam o typo tradicional do Lyrismo: essa ideia unica repete-se como apoio rythmico, é o estribilho, refrem ou retornello, correspondendo a esta cadencia estrophica o parallelismo. Assim despontou o lyrismo egypcio, e se vê seguir o mesmo desenvolvimento nas canções accádicas e chinezas, e o que hoje traz embaraçados os criticos, ainda se observa nas Pastorellas do occidente da Europa.
Para comprehender a poesia lyrica portugueza é necessario determinar-lhe scientificamente as suas bases tradicionaes; ellas nos explicarão a sua originalidade e vigor, e estabelecerão as relações com as correntes litterarias da Europa, caracterisando assim pela connexão historica as épocas e influencias cultas que actuaram sobre a sua manifestação. Já pessoal e psychologicamente descriptiva, a fórma lyrica reflecte o estado intellectual do que canta; o poeta é conhecido, causam interesse os pequenos successos da sua vida, as aventuras, os triumphos, os desalentos pessoaes. Isto influe sobre as fórmas em que se quer mostrar perito, sabedor de todos os segredos da arte (gai saber); a construcção da estrophe torna-se a preoccupação exclusiva; inventa o metro caprichoso, acha as rimas novas, cruza-as, encadeia-as; taes foram os Trovadores, que pela relação com os jograes, nunca se esqueceram completamente dos elementos vitaes da tradição originaria, que depois imitaram artisticamente.