Outras vezes o poeta faz da fórma lyrica o meio de analyse da sua paixão, torna o sentimento uma casuistica, desenvolve a imagem até á allegoria, convertendo o seu estado emocional em uma synthese philosophica; taes foram os Petrarchistas, que não podem ser bem avaliados quando separados dos Trovadores. A imitação material em que o lyrismo foi applicado a descrever todos os accidentes insignificantes de uma vida mediocre, motivou esses productos morbidos das Academias litterarias (Culteranismo, Arcadismo) contra os quaes reagiu a renovação do Romantismo, que começou pela revivescencia das tradições medievaes, e depois da vaga melancholia chegou á expressão synthetica de uma emoção consciente e universal.
Na poesia trobadoresca, o lyrismo provençal conservou as suas origens tradicionaes em um elemento popular commum tanto ás pastorellas italianas, como ás balladas francezas, como ás serranilhas gallegas, portuguezas, valencianas e castelhanas, que chegaram a penetrar nos Cancioneiros aristocraticos e litterarios. Este facto encerra um grande problema, que tem preoccupado os mais atilados criticos: que não é na Provença que se hade determinar o ponto de irradiação do Lyrismo das litteraturas modernas, mas em um facto de persistencia ethnica, que se poderá definir pela observação da área que facilitou a sua propagação do sul da França á Italia meridional e ao norte da Hespanha. Analysando algumas canções portuguezas extrahidas por Ernesto Monaci do grande Cancioneiro da Vaticana, o romanista Paul Meyer, observando as analogias com antigas balladas provençaes, concluiu que ellas não provieram de uma imitação directa, mas: «foram concebidas segundo um typo tradicional, que devera ter sido commum a diversas populações romanicas, sem que se possa determinar em qual d’ellas fôra creado.»[39]
Aqui temos proposto o problema com toda a nitidez, e a que julgamos ter dado uma solução definitiva, sobretudo auxiliado pelo criterio ethnico. Para isso descemos das fórmas conhecidas pela via litteraria até ás suas relações com os costumes populares, e d’estes até ao centro ethnico da irradiação.
O lyrismo trobadoresco manifestou-se pela fórma escripta ou provençal na zona gallo-romana; no sul da França o elemento gaulez não soffreu uma transformação organica, como no norte em prezença do vigoroso elemento franko. O romano preoccupado com a ideia da unificação administrativa dominava mas não absorvia, impunha fórmas governativas mas não assimilava as populações; a sua organisação municipal, pelas autonomias locaes, não atacava a essencia da nacionalidade gauleza, ainda que a forçava a uma certa unidade civil. Segundo Diodoro Siculo, os romanos davam o nome de gaulez a todos os povos que entraram na França meridional; já Polybio separava os Celtas dos Gaulezes, antes das confirmações decisivas da Anthropologia.
No sul da França conservaram-se tradições, cuja existencia se determina pelas prohibições canonicas dos bispos, desde o seculo V; taes eram os cantos acompanhados de dansa, a que deram o nome erudito de Balismalia ou Vallemachia (a bailata ou balada) com o caracter satyrico, que reappareceu nas sirventes; taes eram os desafios poeticos com processos de casuistica sentimental, como os Puy, que se desenvolvem nas Côrtes de Amor; taes eram os cantares de Alvoradas e Serenadas, de que os trovadores fizeram generos litterarios; e ainda a caracteristica da composição poetica especialmente pelas mulheres. Esses cantos eram oraes; não tinham importancia no gosto dos latinistas para merecerem ser escriptos; e mesmo esses costumes, de que formavam parte, eram condemnados pela Egreja, e eram risiveis ante o viver dos castellos senhoriaes.
Identica persistencia das fórmas poeticas se encontra em Italia, com a mesma similaridade tradicional, como observou Costantino Nigra. E assim como o sul da França se distingue da França do norte ou feudal pelo exclusivismo das fórmas lyricas, tambem na Italia, segundo Gregorovius, faltam as tradições épicas; conservam-se ali os Voceros, os Triboli, ou Lamenti, analogos ás Endechas dos mortos na peninsula hispanica, e aos Aurusta do Béarn, e Arrirajo das Vascongadas. Os costumes estão indicando um elemento ethnico commum. Na sua entrada na Europa os Celtas encontraram uma raça de cabellos pretos, com que mais ou menos se fusionaram, conservada por longo tempo intacta na Aquitania, em uma região comprehendida entre os Pyreneos, o Garona e o golfo da Gasconha; já nos referimos á observação de Paulo Broca: «Tudo induz a crêr que os Aquitanios pertencem a esta raça de cabellos pretos que se conserva quasi sem mistura entre os Bascos actuaes.» É n’este triangulo situado entre o Garona, o Oceano e os Pyreneos, que essa raça, que se estendeu pela Italia e pela Hespanha, se confinou, como observa Jorge Philipps, resistindo á invasão celtica.
O problema proposto por Paul Meyer, quanto á communhão lyrica das diversas populações romanicas, não póde ser explicado como propoz Nigra, pela raça celtica, e muito menos pelo elemento franko, como entendem Jeanroy e Gaston Páris. A realidade está na persistencia d’esse elemento iberico na Aquitania, á qual pertenceu tambem a Galliza; a propagação do lyrismo para a Italia e Sicilia torna-se tambem um facto natural de revivescencia. O sul da França teve condições historicas para esta iniciativa: «Onde quer que a conquista sobrepoz uma raça a outra, acontece que o vencido por fim retoma os seus direitos. É o genio da raça primitiva que retoma pouco a pouco a dianteira. A Gallia soffreu o duplo dominio do Romano e do Franko; ella recebeu a substancia das duas raças: mas o velho fundo gaulez prevaleceu em ultimo logar, e a França não chegou ao supremo gráo da sua energia nacional se não no dia em que o Gaulez absorveu o Romano e o Sicambro.»[40] Esse lyrismo corresponde a uma certa estabilidade na vida pastoral e agricola, que nem o Ligurio ou Celta maritimo conhecia, nem o Celta nomada podia acceitar. Com o seu profundo senso artistico, Montaigne conheceu o valor esthetico das canções populares da Gasconha, a que chamou Villanelles[41]; a que os italianos chamam Villoti, e que Miguel Leitão de Andrada, no fim do seculo XVI chamava Villanellas para designar as fórmas do lyrismo popular portuguez.
Esta persistencia do lyrismo tradicional no sul da França impuzera-se aos trovadores, como vemos em Ramon Vidal, dizendo nas Les rasos de trobar: «la parladura franceza est plus avinenz a far romans et pasturettas, mas cella de Lemosin val mais per far vers e cansons e sirventes.» O trovador indicava aqui um genero popular em contraposição com as fórmas artisticas que outros trovadores iam destacando e individualisando; por que os primeiros trovadores revelaram-se adstrictos ás fórmas populares, como vêmos em Cercamons, «joglars de Gascoigna, e trobet vers e pastoretas a la usanza antiga.» O discipulo d’este trovador, Marcabrun, em duas pastorellas que compoz, já elabora o typo tradicional com um intuito de satyra moral e social. O typo tradicional, abandonado ao povo, não foi totalmente esquecido pelos trovadores subjectivistas, por que ainda foi seguido por Cadenet e Gui de Usiel, que fazem a transição de Marcabrun para Giraud de Riquier.
A ausencia do criterio ethnico é que fez com que Wackernagel e Brakelmann attribuissem a origem tradicional da pastorella ao norte da França, quando ella pertence a este fundo da população occidental que occupou a França, a Italia e a Hespanha antes da invasão celtica. Esta mesma insufficiencia fez com que Jeanroy considerasse ironicamente as investigações sobre este campo como litteratura pre-historica! Como se a tradição pertencesse ás épocas historicas.
As investigações sobre as origens cio lyrismo tradicional feitas na Italia por d’Ancona, levam a precisar este fundo anthropologico occidental. Observando as fórmas do Contrasto de Cielo d’Alcamo, poeta siciliano do seculo XIII, analogas aos themas e estructura francezas, d’Ancona quer que ellas derivem do antigo carmen amebeum, que se conservou na Sicilia; e conclue: «os antigos historiadores nos asseguram que esta fórma teve origem na Sicilia, que ella é devida primitivamente aos pastores sicilianos. Saíndo dos nossos valles e montanhas, ella se nobilitou, um pouco tarde talvez, nas mãos de Theocrito e de Virgilio; mas ella permaneceu na sua simplicidade nativa propriamente do povo da Sicilia, no qual se perpetuou com o dom da improvisação.» A ilha da Sicilia foi o ponto de juncção das raças brancas do norte da Africa com as da orla europêa mediterranea; a persistencia d’esse fundo lyrico impressionou Theocrito e Virgilio, como os themas da Gasconha ou da Aquitania impressionaram os Trovadores e os levaram á imitação. Reconhecendo as relações do Contrasto italiano com as fórmas francezas, escreve Jeanroy: «mas nós nos guardamos de sustentar que este genero fosse exclusivamente francez, da mesma maneira que não podemos conceder a M. d’Ancona que elle fosse propriamente siciliano; deve ser effectivamente uma propriedade commum de todo o territorio romanico.»[42] «Ainda mesmo que houvesse já Contrasti na Sicilia no tempo de Atheneu e de Diodoro, não nos auctorisava isto de modo algum a crêr que elles fossem originarios da Sicilia.—É essa uma fórma, que longe de ser exclusivamente siciliana, se acha na poesia popular de um grande numero de povos.»[43] E mostra como longe da Sicilia esta fórma lyrica tradicional é seguida pelas aldeãs de Ferrara nas Romanellas, em Portugal nos Desafios á desgarrada, e nos Dayemans da Lorena.