Mas estendendo mais o campo da observação, é um caracteristico commum a este lyrismo tradicional o ser a canção amorosa composta e cantada pela mulher. Nos cantos populares da Galliza a mulher conserva o costume que vêmos nas serranas e pastoras do Cancioneiro trobadoresco da Vaticana. Já o erudito Sarmiento, nas Memorias para la Historia de la Poesia española, escrevia: «he observado que en Galicia las mugeres no solo son poetisas, sino tambien músicas naturales.—En la mayor parte de las coplas gallegas hablan las mugeres con los hombres; y es por que ellas componen las coplas sin artificio alguno; y ellas mismas inventan los tonos ó ayres à que las han de cantar, sin tener idea de arte musico.»[44] É ainda este o costume do Minho;[45] o caracter da lyrica de elaboração feminina determina-lhe a sua mais alta antiguidade; escreve Jeanroy, apesar de ter receio da litteratura pre-historica: «W. Scherer, em uma muito instructiva noticia, citou um grande numero de factos que o provavam: desde o seculo X, a canção de mulher existia na Allemanha, como o mostra uma pequena peça latina d’essa época; as canções servias são ordinariamente collocadas na bocca de uma rapariga, e Talvj pensa que são realmente as raparigas que as compõem; peças analogas se acham na Islandia, na Russia, na China, nas Kabylas, e em muitas tribus selvagens. A attribuição das canções a uma mulher, é por consequencia uma feição commum á nossa antiga lyrica popular e a muitas outras.»[46] Por este exame de Scherer, encontramos sempre este caracter do lyrismo tradicional entre povos em que persiste o elemento mongoloide (como a Servia, a Russia, as Kabylas, a China, notando-se tambem que entre os Germanos se fusionou o Geta.) E continuando a citação: «Scherer faz notar, que o parallelismo mais ou menos rigorosamente seguido entre a descripção de algum objecto natural e a pintura da paixão se encontra em um grande numero de poesias populares, particularmente entre os Servios, os Allemães, os Malaios, os Chinezes. A poesia slava, sobretudo, abunda n’este genero em uma infinidade de especimens, dos quaes alguns têm impresso o cunho da mais alta, da mais bella poesia, etc.»[47] É por consequencia um processo logico o procurar estas origens do Lyrismo na raça branca, não árica nem semita, que precedeu ou occupou a Europa antes dos Celtas; o centro ethnico da Aquitania como ponto de irradiação do Lyrismo, levou-nos á investigação apparentemente aventurosa: as fórmas tradicionaes communs á Italia, Provença, Galliza, Catalunha e Portugal, (populações romanicas que não lhes deram origem), têm um typo perfeitamente egual ao das Canções accádicas, descobertas e traduzidas pelos modernos assyriologos, e são na sua estructura semelhantes ás canções chinezas do Chi King, traduzidas pela fórma homeometrica, homeostrophica e homeorythmica por Legge. D’aqui a inferencia sobre o estado moral e relações anteriores d’esse typo iberico conservado mais puro na Aquitania. O desenvolvimento da poesia provençal fôra attribuido á influencia dos Arabes no lyrismo do Occidente; mas a poesia lyrica dos povos semitas, como o provam os estudos assyriologicos, foi produzida pela imitação da poesia dos Accads. Reconhecida esta demonstração, comprehende-se como, apparecendo na poesia arabe a fórma da Pastorella, esse grande ramo semita viesse estimular a revivescencia de uma tradição, que se extinguia entre a transmissão oral das camadas populares. Como relacionar esse fundo occidental ou iberico com os povos accádicos? Esse é o problema a que conduzem todas as similaridades do Lyrismo tradicional; a elle respondeu Roisel no seu livro Les Atlantes, mostrando como a civilisação da Chaldêa foi iniciada por navegadores atlanticos da raça branca primitiva e autochtone da Europa.[48] Comprehende-se como os cantos arabes fossem communs entre o povo hespanhol e portuguez; nos versos do Arcipreste de Hita ainda vem enumerada a lista dos instrumentos musicos para os cantares arabicos, e em Gil Vicente ha uma referencia a uma canção arabe Calbi arabin. No Cancioneiro da Vaticana existe uma canção trobadoresca com o estrebilho Lelia vai Lelia, que dava nome a um genero lyrico tão popular e persistente nos costumes, que Philippe II prohibia que se cantassem as Leilas arabes. A designação com que no seculo XV se conhecia esta fórma tradicional da Pastorella era a de Serranilha, da palavra arabe serra. Na poesia moderna do povo da Galliza persiste este genero na fórma da Muiñeira; e em Portugal tornou a communicar-se aos escriptores como Gil Vicente, Sá de Miranda, Christovam Falcão e Camões, tomando a fórma litteraria das Modinhas brazileiras, especialmente nas Lyras de Gonzaga. Determinada, pois, esta base tradicional, temos a disciplina critica para conhecer o desenvolvimento do Lyrismo trobadoresco, e successivamonte da sua transformação italiana do dolce stil nuovo, e imitação geral nas Litteraturas romanicas da Renascença até ao Romantismo.

b) DAS FÓRMAS ÉPICAS

Nas composições poeticas tradicionaes distinguem-se o genero lyrico ou subjectivo, e o genero narrativo ou épico, essencialmente objectivo. Observando esta distincção nas Origens da Poesia lyrica em França, escreve Jeanroy: «Os differentes criticos estrangeiros que se têm occupado respectivamente da historia da sua poesia, MM. Bartoli, d’Ancona, Scherer, Richard M.-Meyer, Braga, entre outros, sustentam unanimemente a opinião que estas ultimas (as narrativas) constituem o fundo original da sua poesia. Sendo nos trez paizes esta parte identica ou muito analoga, elles não podem egualmente ter rasão. Nós tentaremos demonstrar que estão egualmente em erro, e que n’isso em que vêem uma emanação espontanea do genio nacional, importa vêr uma imitação de toda uma poesia franceza hoje perdida.»[49] Mas referindo-se aos themas tradicionaes d’esses cantos narrativos, Jeanroy presente um fundo ethnico que não é propriamente francez: «Nós demonstraremos bem que estes themas não são exclusivamente italianos, allemães, portuguezes; mas demonstraremos nós por isso que elles são exclusivamente francezes? Não; e seria uma pretenção evidentemente excessiva. Queremos só fixar um ponto, e vem a ser, que as peças estrangeiras consideradas como autochtones, devem, na sua fórma actual alguns dos seus traços á imitação franceza, que ellas não lhe escapam, como se tem dito. Mas, será certo que o assumpto mesmo tenha sido importado da França, que o thema nos pertença tão bem como a fórma que o revestiu? Não. É mesmo mais que provavel que, se a nossa poesia achou tanto enthuziasmo no estrangeiro, é por que ella ali encontrava assumptos analogos aos seus, e que o terreno estava como que preparado para receber a communidade de certas tradições poeticas. Bem longo de affirmar que estes themas são exclusivamente francezes, nós não ousamos sustentar que elles sejam exclusivamente romanicos[50] Não andavamos em erro quando localisámos as nossas investigações no fundo anthropologico persistente na Europa, de que o elemento iberico, eusk e gaulez na Italia, França e Hespanha, e o elemento getico e seythico na Allemanha, conduzem a uma unidade de tradição poetica.

É incalculavel a extensão e profundidade da tradição popular hispanica d’onde se tem colligido desde o seculo XIII até hoje esses pequenos cantos narrativos, verdadeiros rudimentos de uma Epopêa cyclica que não chegou á elaboração, como as Gestas germanicas. Esses cantos aproveitados por Affonso o Sabio como elemento historico para a Cronica general de España, explorados pelos impressores do seculo XV, estudados e colligidos com amor desde o principio d’este seculo, constituem o vasto campo do Romanceiro, que se deve considerar o elemento poetico mais rico das Litteraturas peninsulares. A tradição apparece por vezes commum a Portugal e Hespanha; outras vezes os paradigmas encontram-se em França, na Italia, e na Grecia moderna, o que revela uma fonte primordial. Nos Romances peninsulares ou meridionaes, encontram-se costumes de uma sociedade barbara, como na Sylvana e Rico-Franco, vive-se em estado de guerra, e a lei é a vontade irrefreiavel de um só.

D’onde provém essas tradições? Nada se encontra semelhante na civilisação romana; mesmo entre as colonias mais romanisadas, como a Italia, a poesia tradicional narrativa é pouco profunda.[51] Se os dialectos romanicos se desenvolveram pela acção dos Romanos, os costumes e as tradições são mais antigos, devem ser procurados em um sub-solo ethnico; os dialectos romanicos servindo de expressão e unificação d’esses elementos, contêm as indoles, como os proprios romanos lhes chamavam, mas cuja natureza não é romana.

Os recentes estudos accádicos e assyriologicos, e as conclusões da anthropologia e ethnogenia peninsulares, dão auctoridade ás palavras de Strabão, que consignava a existencia de poemas heroicos entre os Turdetanos, de mais de seis mil annos do antiguidade. As inscripções lapidares encerram tambem os nomes de muitos deuses ibericos; e as superstições comparadas com as do magismo accádico, espalham uma grande luz sobre a ethnologia iberica. A persistencia do typo iberico na Peninsula, quer pelas migrações do norte, como se vê pela Aquitania, quer pelo sul, como se comprova pelos Berberes, acha-se confirmada pelas differenças cephalicas representadas nos dois typos bascos francez e hespanhol. Por tanto o estudo da poesia tradicional narrativa da Peninsula deve fixar-se n’este fundo ethnico iberico, remontando essas camadas de civilisação até á constituição das suas nacionalidades. Como o estudo dos cantos lyricos feito comparativamente leva a achar nas Serranilhas gallezianas e Pastorellas francezas um typo commum ás populações romanicas, o estudo dos cantos épicos, ou Romanceiros, deve seguir egual methodo, que conduz aos mesmos resultados, como observaram Nigra, Wolf, Köhler e Liebrecht.

Do elemento iberico.—Os cantos heroicos peninsulares foram chamados Romances pelos eruditos, por considerarem os dialectos em que eram cantados como despreziveis em comparação com a lingua e cultura latina; ainda no seculo XVII romancista era o homem sem cultura litteraria ou scientifica. O povo, porém, chamou-lhes Aravia, e mais geralmente Estoria; a primeira designação é vulgar em algumas das ilhas dos Açores, e contém um sentido que nos leva ao intimo do problema: a Aravia significou um dialecto vulgar das classes que estavam em contacto com os Arabes ou propriamente com Berberes; esta classe sendo constituida com as populações hispanicas preexistentes á invasão arabe, facilmente assimilou a si o elemento mauresco determinando a revivescencia do typo iberico. Para os eruditos do seculo XV e XVI, a Aravia é a linguagem corrupta com que christãos e arabes se entendiam, é uma especie de giria não escripta, e a propria designação de um canto do povo. Mem Moniz, que esteve no seculo XII no cêrco de Santarem: «sabia fallar mui bem a aravia.» E Gil Vicente, nos seus Autos: «Que linguagem é essa tal?—Ui! e elle falla aravia.» Quando no fim do seculo XVI o P.e Fernão Guerreiro, na phrase «entoar uma aravia» a empregou no sentido de canto, já era usada pelo povo nas colonias portuguezas dos Açores, e nas colonias hespanholas do Perú, depois que a cultura latina atacou a originalidade nacional. Na propaganda catholica, os missionarios hespanhoes introduziram na toada dos cantos peruanos os romances castelhanos ao divino. Prescott, na Historia da Conquista do Perú, fallando dos troveiros peruanos chamados Haraveques, como os que registavam os annaes d’essa extraordinaria civilisação, diz: «D’esta maneira formou-se um corpo de poesias tradicionaes semelhantes ás balladas inglezas e hespanholas, pelas quaes o nome de um chefe barbaro, que teria desapparecido á falta de historiador, chegou á posteridade por causa de uma melodia rustica.»[52]

Esta relação notada por Prescott entre os Yaravis peruanos e as balladas inglezas e hespanholas é tanto mais importante, quanto pelos estudos ibericos se sabe da correlação entre a Peninsula e as ilhas Cassiterides ou Inglaterra. Do mesmo fóco atlantico que iniciou a civilisacão dos Accads na Chaldêa, partiu o impulso das civilisações rudimentares da America. Continúa Prescott, fundado na auctoridade de Garcilasso no Commentario real: «A palavra haraveque significa inventor, auctor, e no seu titulo e nas suas funcções este poeta menestrel póde-nos lembrar o trouvère normando.» A funcção do menestrel saxonico que cantava á meza dos princepes, dos feitos e batalhas reaes: «era em parte exercida pelos Haraveques, que escolhiam os incidentes os mais brilhantes para assumpto das suas canções e balladas, que se cantavam nas festas reaes á mesa dos Incas.» Dos cantos populares do Perú, escreve o moderno viajante Paul Marcroy: «Estas composições chamadas Yaravis ... foram a principio cantos de victoria, odes, dithyrambos destinados a celebrar o triumpho das armas dos Incas, suas qualidades particulares e seu poderio. Com o andar do tempo tomaram fórmas mais variadas, e cantaram o amor, a natureza e as flores.» E em nota accrescenta, definindo a palavra Yaravi: «Litteralmente, cantos tristes. Os Yaravis são hoje simples romances, cuja musica é sempre escripta em tom menor e com um movimento lento. Cantam-se com acompanhamento de guitarra.»[53] Tanto o Yaravi, como a Aravia açoriana, ou o romance peninsular ainda hoje são acompanhados á quitara arabe, ou á guitarra actual, e entre os Arabes, os Ravi eram os narradores. Dá-se aqui o mesmo influxo de revivescencia tradicional no Occidente ao contacto da civilisação arabe, como se notou nos cantos lyricos por essa influencia da poesia accádica no lyrismo semita. A parte communicativa da raça arabe na invasão da Peninsula eram os mouros, cruzamento do Arabe com o Berber, coadjuvando assim a regressão mais pronunciada ao typo iberico. A origem dos cantos epicos occidentaes tem sido já procurada n’este sub-sólo social de uma raça não árica; Liebrecht encontra paradigmas do romance Donzella que vae á guerra nos cantos chinezes, e Lange acha nos poemas homericos inclusas tradições mongolicas. Strabão referindo-se ás tradições de Troya no occidente da Europa, allude a cantos narrativos na Italia e na Hespanha, que em vez de se diffundirem dos poemas homericos foram unificados n’elles: «Não só na Italia se conservam passagens d’essas historias, senão tambem na Iberia, existem mil vestigios de taes expedições, assim como da guerra de Troya.»[54] As tradições argonauticas que se crearam nas primitivas expedições atlanticas, é que foram depois incorporar-se nos poemas odyssaicos, circumscrevendo-se ás expedições mediterraneas ou jonicas.[55]

No velho romanceiro peninsular ainda se encontram fórmas que revelam o primitivo modo de recitação coral, em que a rima masculina e feminina, grave e aguda, se alternam em um canto amebeo. Na tradição asturiana dá-se a este genero o nome de cantos de estavillar (do typo Ay! un galan d’esta villa.) É ainda vulgar na Finlandia esta fórma de recitação das runas, como observa Léozon le Duc. A rima do canto No figueiral figueiredo é um vestigio precioso d’esta perdida estructura poetica, que tanto nos aproxima da origem das tradições épicas peninsulares.[56]

Do elemento germanico.—Nas invasões germanicas na Peninsula, foram os Visigodos os que preponderaram, submettendo os outros ramos á unidade nacional. Da grande familia germanica foi o Godo o que deixou menos vestigios de tradições poeticas, apesar das immensas riquezas lendares de que se serviram Jornandes, Paulo Diacono e Saxo Grammatico nas suas historias. A causa d’esta obliteração, segundo Jacob Grimm, foi por ter o godo adoptado o arianismo, soffrendo depois os renhidos combates ou repressões do catholicismo; comprova-se isto com o Borguinhão, que tambem era sectario do arianismo, e cujas tradições épicas se perderam. Ao godo da banda guerreira, que veiu a formar a aristocracia feudal, fascinado pela civilisação romana, facil lhe foi despojar-se das suas crenças e tradições; a banda agricola e pastoral, que pela decadencia dos homens livres veiu a constituir a classe dos lite (lendes, lazzi) e dos Vassu, com a fusão com o colonato romano e assimilação do elemento mauresco, formou esse rudimento de povo, que avançou para o estabelecimento da liberdade civil e foi conhecido pelo nome de Mosarabe. Entre esta grande classe que sacudiu a servidão, é que se conservou pela sua situação atrazada aquillo que mais se apodéra da alma humana, os Symbolos, as Superstições, os Costumes, emfim, a tradição poetica até aos seus mais inconscientes vestigios.