Em nenhum povo da Europa, como notou Reyscher, apparece a conservação dos Symbolos como na familia germanica; comprovámol-o no symbolismo juridico do direito consuetudinario das Cartas de Foral exigidas ou concedidas ás povoações mosarabes. Estudada esta efflorescencia dos Symbolos juridicos,[57] por elles fomos levados a comprehender a importancia tradicional dos Romanceiros.
Raro será o romance popular portuguez que não contenha um symbolo germanico francamente expresso, mesmo com a ingenuidade de quem já o não comprehende. Enumeremos alguns dos mais profundos: no romance de Gerinaldo, o rei deixa o punhal collocado entre sua filha e o pagem que dorme com ella, como o signal de que ha entre elles a distancia inaccessivel de classe; depois de perdoar ao pagem e de o casar com sua filha dá-lhe a egualdade pela cerimonia de sental-o comsigo á meza. No romance insulano Flores e Ventos apparece a penalidade germanica do banido completamente desenhada, negando-se-lhe tecto, lar e agua, tal como nos Foraes portuguezes; isto mesmo se encontra no romance castelhano de Lanzarote del Lago, em que os criminosos chegam a transformar-se em cães e veados, especies de Wargus. No romance portuguez de Clarinda ha a pena de fogo para o adulterio da mulher, como no Codigo visigotico. No romance da Infantina ha a condição do servo germanico notada com o nome de malato, como se encontra nos documentos juridicos. O symbolo do cabello atado, como signal de mulher casada, e em cabello (mancipia in capillo, da fórmula foraleira) conserva-se nos anexins: «Moça em cabello não m’a louves companheiro.»
Passemos ás superstições: o culto do carvalho sagrado Ygdrasill, debaixo do qual se celebrava a assembléa juridica dos homens livres germanicos, é a carvalheira á porta da egreja, debaixo da qual julgavam os homens-bons dos Foraes; é esse mesmo roble em que está a donzella encantada, a Infantina dos romances hespanhoes o portuguezes, tendo além d’isso a particularidade do tanque de agua fria, que é a fonte de Urda. Esta mesma tradição encontra-se em muitas terras de Portugal, que tem carvalhos consagrados ao pé de poços de aguas santas. O symbolo não comprehendido torna-se superstição, como o Wargus, o banido que era equiparado ao lobo nocturno, e que ficou para o nosso povo o lobishomem.[58]
Nos costumes populares portuguezes temos a Cavalgada furiosa na fórma da Corrida do porco preto, em Braga; e Wodam, no Homem das ervas, das festas de maio. Ainda que as festas populares de S. João, Maias e Natal, vestigios polytheistas do Combate do Verão e do Inverno, sejam anteriores ás tradições germanicas, comtudo a sua persistencia entre o povo mostra-nos que o rigorismo catholico e a cultura romana pouco actuaram n’este ponto entre os Mosarabes.
A palavra Rima, significando a composição poetica em geral, é empregada n’este sentido pelo Chanceller Ayala, que em versos de lingua vulgar diz: «mi tiempo passar, En fazer rimos...» Tambem no seculo XV chamava D. Duarte Rymanço á fórma que melhor se decorava por causa da rima. Parece que o termo de romance, referindo-se á linguagem vulgar se identificou com o rimance, que segundo a origem germanica designava a tradição poetica. Nas fórmas poeticas conservou-se tambem a aliteração, que com a rima constituem a poetica dos povos do norte. Nos anexins populares é frequente a aliteração, como: Gota a gota, o mar se esgota.—Vento e ventura, pouco dura, etc.
Dos themas poeticos germanicos parece-nos pertencer ao typo scandinavo de Sigurd, o romance: Eu bem quizera senhora, etc. A vida historica da raça germanica começou no seculo V; n’este periodo ella cria uma fórma poetica, breve, narrativa, cantando os feitos bellicos e a independencia individual, adaptando-se aos successos novos, correndo de bocca em bocca, sempre anonyma, com interesse immediato, dando vida a todos os dialectos e animando as tribus á invasão. Tacito falla d’esta ordem de poemas, a que os medievistas, fundados em um texto de Oderico Vital deram o nome de Cantilenas. D’este typo rudimentar, que pela aggregação cyclica formou as Epopêas feudaes ou Gestas, além de outros especimens, existe desde 1812 em que se descobriu, a magnifica cantilena de Hildebrand e Hadebrand. Não temos hoje as cantilenas goticas da Peninsula, posto que sua efflorescencia poetica appareça em symbolos e superstições populares. Á designação de Chacone, tanto em Portugal e Hespanha, como em Italia e França, por onde se estendeu a occupação germanica, corresponde esse costume primitivo da raça, em que os cegos, principalmente entre os Lombardos, eram os que diziam as Cantilenas heroicas, como Ludgero e Bernlef o frisio; chamaram-se por isso Chiecone. Nas raças germanicas entraram populações scythicas, como colonos e servos, e era costume entre os scythas cegar os escravos (Herodot., IV, 2); cegar era synonimo de escravisar, e filho de cego significava propriamente escravo. Eram esses os cantores narrativos, dos quaes escreve Ozanam: «No seculo XVIII via-se ainda nas aldeias pagãs da Frise, cegos e mendigos ganharem o seu pão recitando nos ajuntamentos de aldeãos—as aventuras do tempo antigo, e os combates dos velhos reis.»[59] Isto explica a persistencia do genero da Chiecone, pelo sentido do poeta identificado no de cego, como em Cieco d’Ascoli, Cieco de Ferrara. Homens cultos e aristocraticos, como o Marquez de Santillana, no seculo XV, tinham por infimos e despreziveis os que tratavam romances vulgares. O nome de Chacoula é ainda designativo de canto popular no Alemtejo.
As Cantilenas germanicas, antes do seculo IX, decaíam por falta de importancia historica; estava terminado o periodo das invasões. O que se dava no ramo mais vigoroso da familia germanica, com mais intensidade deveria dar-se entre os Godos, por causa da reacção do catholicismo fortalecido com a cultura romana. As Cantilenas germanicas, logo que appareceu o vulto de Carlos Magno receberam um novo interesse, uma actualidade devida á transformação social, ou fixidez em que entravam os estados da Europa; emquanto esta acção não chegou a Portugal, a Cantilena gotica não se perdeu completamente. Nem do outro modo se explica a existencia dos cantares historicos de que se serviu Affonso o Sabio na sua Chronica. Alguns d’esses typos se recompõem nos versos da Cronica rimada do Cid; no Cancioneiro da Vaticana acha-se um romance: Desfiar enviarom, assignado por João Ayras, que nos aproxima do typo da Cantilena. O romance de Don Favila, colligido da tradição popular na Republica Argentina, é uma prova d’esta elaboração poetica anterior aos cantares da Gesta.[60] O romance do Figueiral figueiredo, que Miguel Leitão ouvira a uma velha de muita edade no ultimo quartel do seculo XVI, pelo seu conteúdo, é um vestigio da Cantilena, que se ia apagando, da mesma fórma que os romances se modernisaram no seculo XVI.
Depois que a poesia dos jograes e trouvères se espalhou pelo Occidente, o que por colonias francezas, casamentos de princepes e romarias provocadas pelas santificações locaes, se tornaram as communicações affectivas mais directas entre os diversos povos, as Cantilenas, que haviam recebido pelo genio gallo-franko uma transformação profunda, formando as grandes Canções de Gesta, vieram já em uma época historica fecundar as Aravias, que conservaram sempre a fórma breve e anonyma, que se continua no Romance popular. Na antiga poesia hespanhola falla-se na Maestria de França; em Portugal achamos empregado o titulo de Gesta em uma composição satyrica em verso alexandrino por D. Affonso Lopes de Baião, imitando a neuma tradicional dos recitadores. A palavra Francias designou os contos facetos dos Fabliaux, em parte derivados de cantos poeticos, como vêmos ainda na poesia popular da Madeira, no romance do Boi Rabil, que é um conto na Gesta Romanorum.
Transformação erudita do Romance popular.—Cansados de esgotar os innumeros artificios do lyrismo trobadoresco, que em Portugal se manteve por todo o seculo XV, os cavalleiros, condemnados pela organisação social em que a Realeza caminhava para o predominio da dictadura monarchica, a viverem a vida parasita de cortezãos e a divertirem os serões do paço, lançaram-se á imitação dos cantos populares; as fórmas lyricas subsistem nos Cantares d’Amigo, nos cancioneiros aristocraticos, mas as fórmas narrativas não se conservaram com o mesmo esmero. Affonso Sabio só admittia que esses cantos fossem de feitos de armas; e mais tarde o Marquez de Santillana condemnava-os ao desprezo pela inferioridade da sua origem. Mas no seculo XV os Romances conseguiram vencer esse desdem dos latinistas e aristocratas. O que havia de profundamente humano e pittoresco n’esses cantos tradicionaes, em que o mosarabe alludia ainda aos seus Symbolos já sem os comprehender por extranhos á legislação codificada, não deixou de impressionar os Poetas palacianos. D. João Manoel adoptára esses cantares-romances, e impuzera-se a moda; a rainha D. Joanna, filha do rei Dom Duarte, casada com Henrique IV de Castella, pedia aos cavalleiros da sua côrte que lhe glosassem Romances, como o que começa: Nunca fue pena mayor, tambem glosado em Portugal por Pedro Homem, estribeiro-mór, e referido em Gil Vicente. Garcia de Resende tambem glosou o romance Tiempo bueno, Sá de Miranda e Gil Vicente, o romance da Bella mal maridada. Colligindo-se todas as referencias a romances velhos nos escriptores quinhentistas, vê-se a sua vivissima vulgarisação oral, antes da primeira collecção formada e impressa em Sevilha em 1551.
Quando no seculo XV a erudição latina tomou um ascendente no gosto, fazendo decahir os elementos medievaes das litteraturas, os dialectos populares chamados romance continuaram a empregar-se na poesia popular, vindo este nome a designar esta fórma épica tradicional. Bernardim Ribeiro usa-o com este duplo sentido: «não soube inteiramente mais que por um cantar-romance, que d’aquelle tempo ficou.» E em um verso do Cancioneiro geral: «mais ande cantar romance.» (t. III, 358.) O povo ficou empregando a palavra Estoria no mesmo sentido de narrativa poetica, como a usava Fernão Lopes no sentido de tradição, e que Bernardim Ribeiro emprega: «ouvi-a já então contar a meu pae por estoria.» Quando a erudição, para variar as fórmas poeticas, teve de contrafazer a poesia popular narrativa no seculo XV, perdeu a noção da sua origem, e mais ainda a sua comprehensão. A fecundidade do povo, que se fixa entre o seculo XII e XIV, acabou em resultado da extincção das liberdades locaes ou foraleiras pela dictadura monarchica, e com a liberdade de consciencia pela intolerancia catholica a pretexto de combater a Reforma. Ambos estes poderes fizeram reviver e prevalecer a cultura latina nas letras o na politica.