Rogel, del ingenioso ferrarez,

Tanto alabado en tan sabroso estillo,

Astolpho aventurero y vano ingles.

Camões tambem conhecia esse cyclo épico das Gestas francezas através da influencia italiana, desprezando diante da sublimidade dos factos historicos dos portuguezes as façanhas do vão Rogeiro,—«E Orlando, inda que fôra verdadeiro.» Era corrente entre os eruditos da Renascença, como vêmos em Luis Vives, desprezar os poemas da Edade media.

A propria França chegára ao esquecimento total das Gestas, depois de uma decadencia successiva, já pelo agrupamento cyclico, já pelo syncretismo com os poemas de aventuras, e finalmente pela sua dissolução em prosa com pretenções a chronica. D’onde proveiu esta decadencia, não já entre os povos romanicos, mas n’aquella mesma nação que elaborou toda a poesia das Gestas? Comte viu claro, quando esboçou a dissolução do regimen catholico-feudal, e explicou o desprezo em que ficaram os themas poeticos de uma edade que desapparecia; o juizo do philosopho foi mais tarde confirmado pelos eruditos. D’Héricault, no seu Essai sur l’origine de l’Épopée française, accentua a mesma causa: «A nossa epopêa nacional fôra engendrada por uma série de factos, de personagens de uma ordem particular, que tinha desapparecido no seculo XIII. As circumstancias politicas, o estado da sociedade, as tendencias das ideias e dos costumes, a fusão das raças, as victorias alcançadas pelo espirito do catholicismo sobre os restos da barbarie, todo o conjuncto da vida da França tinha tirado a estes factos e a estas individualidades o seu vivo interesse. Já não tinham mais razão de ser, não eram comprehendidos e não podiam por consequencia vir renovar incessantemente a fonte da poesia a que elles tinham dado nascimento.» E mostrando como um outro estado de consciencia, em uma nova éra social, exigia outras fórmas de idealisação, continúa o mesmo critico: «Mas, á medida que se afastavam d’este periodo barbaro, os caracteres humanisaram-se, os espiritos educados em outro meio social, admittiram outras bellezas. Do seu lado, a memoria esquecia a significação precisa d’estes acontecimentos de outra edade. O poema puramente militar teve de desapparecer e com elle a invenção ingenua dos typos unicamente guerreiros, dos caracteres selvagens e grandiosos, personalidades simples, sem meias tintas e sem flexibilidade. As feridas, as ondas de sangue, todas as peripecias de uma batalha ou de um combate singular tornavam-se insufficientes emquanto a interesse, desde que já se não via nos heroes em acção mais do que titeres de ferro.» Por esta falta de interesse, consequencia de um outro estado social, as Gestas guerreiras foram substituidas pelos poemas das aventuras de amor. D’Héricault explica o advento d’esta corrente poetica: «Afastando-se dos factos creadores da poesia, e não ligando seriedade ao papel de chronistas, os troveiros viam-se desapossados d’esta fórma naturalmente dramatica, d’esta acção ingenuamente interessante, d’esta marcha viva que a Canção de Gesta devia á sua preoccupação de imitar os aspectos da historia. O cyclo carlingio estava então exposto a perder o sôpro épico, e accumulava, para o substituir, logares communs, declamações que lhe eram indicadas pelo seu genero, duello entre guerreiros, injurias contra Carlos Magno, exposição da doutrina christã a um sarraceno, confusão geral entre christãos e pagãos, etc. Foi n’este declive que o valente Rei Arthur e os seus cavalleiros vieram suster os guerreiros do Imperador da branca barba. O cyclo da Tavola Redonda acordou a imaginação dos troveiros francezes, e lançou a epopêa em uma via nova, em que a dirigiu impondo-lhe as suas sympathias, a sua arte e as suas fórmulas. Foi principalmente por meio d’estes dois perstigios de predilecção—a mulher e o maravilhoso, que elle revolucionou o nosso genio, triumphou da Canção de Gesta e poz em debandada os Doze Pares.—A poesia do amor tendia assim a substituir a poesia da guerra.»[124]

Quando em França se dava esta decadencia das epopêas feudaes, muito mais profunda foi ella entre os povos que tiveram heróes nacionaes a idealisar, como o Cid em Hespanha, ou que desconheceram o feudalismo, como a Italia e Portugal. Os poemas de amor exerceram uma acção profunda nos costumes das classes elevadas, foram lidos com encanto e deram origem ás Novellas cavalheirescas, que luctaram com vantagem contra a corrente classica.

c) INFLUENCIA GALLO-BRETÃ

(Poemas e Novellas da Tavola Redonda)

A grande raça celtica que occupou todo o Occidente, possuia como as outras raças com que se fusionou, profundos elementos de poesia tradicional. Porém esta poesia só nos apresenta vestigios depois do seculo VI, em um pequeno grupo celtico, que escapou á conquista e absorpção dos Romanos e dos Saxões, e até certo ponto resistiu ás doutrinas do christianismo. Esse grupo celtico, que veiu enriquecer as litteraturas da Europa com novas tradições poeticas, que seduziram todas as imaginações depois do seculo XII com as encantadoras ficções da Tavola Redonda e do Santo Graal, compõe-se dos habitantes do paiz de Galles ou Cambria e da peninsula de Cornwall (os antigos Kymris), dos da Bretanha franceza (a Armorica), dos Gaëls do norte da Escossia, e ainda da Irlanda. Do isolamento que este grupo celtico conservou diante da conflagração dos povos desde as conquistas dos Romanos até ao fim das invasões germanicas, escreve Renan: «Nunca familia humana viveu mais isolada do mundo e mais pura de toda a mestiçagem estrangeira. Confinada pela conquista em ilhas e peninsulas esquecidas, ella oppoz uma barreira inaccessivel ás influencias exteriores; tirou tudo de si propria, e viveu com os seus recursos. D’aqui esta potente individualidade, este odio ao estrangeiro, que até hoje, tem accentuado o traço caracteristico dos povos celticos. A civilisação de Roma apenas os attingiu, deixando entre elles poucos vestigios. A invasão germanica repelliu-os diante de si, mas não os penetrou.»[125] É natural que o elemento kymrico, na Bretanha insular, conservasse mais intensa a memoria das suas tradições; e que a Bretanha continental, ou a Armorica, as renovasse mais tarde, pela relação entre os dois paizes, dando-lhes esse relêvo poetico com que deslumbraram a Europa no seculo XII. Dois periodos de elaboração se destacam historicamente; um, que começa no seculo VI da nossa éra, quando se vulgarisam os cantos dos bardos Taliesin, Aneurin e Liwarc’h-Hen, e se escutam as melodias da chrota britana, os Lais amorosos, e os Contos maravilhosos do Mabinogion; o outro é principalmente litterario, idealisando as aventuras guerreiras de Arthur, os amores de Tristão, de Lancelot, de Merlin, creando por effeito da propaganda christã o cyclo dos poemas do Santo Graal. Se o elemento tradicional foi principalmente elaborado na Bretanha insular, na Bretanha franceza é que esses themas tiveram o seu desenvolvimento artistico, espalhando-se pelos menestreis normandos por toda a Europa. Renan define essa primeira época de revivescencia poetica da raça celtica: «O sexto seculo foi para as raças celticas esse momento poetico do despertar, e da sua primeira actividade. O christianismo, recente ainda entre ellas, não tinha completamente abafado o culto nacional; o druidismo defende-se em suas escholas e nos seus logares consagrados; a lucta com o estrangeiro, sem a qual um povo nunca chega á plena consciencia de si proprio, attinge o seu mais alto gráo de vivacidade.—O sexto seculo, é effectivamente, para os povos bretãos um seculo perfeitamente historico.»[126] Basta-nos fixar esta época para determinar desde quando se espalham os cantos lyricos bretãos, que adquiriram um certo interesse até ao ponto de se desenvolverem em poemas de aventuras. As melodias e instrumentos musicos bretãos, como a rhota britana, citada nos versos de Venancio Fortunato, são levados por todas as côrtes da Europa por cantores vagabundos, desde o seculo VI até ao XII seculo. Falla-se no poema de Guillaume au Court-nez, no prazer de ouvir cantos bretãos entre os prazeres do vinho e da caça. Eram esses cantos os Lais, principalmente agradaveis ás mulheres, como o revela Denys Pyramus: «Lais soulent as dames plaire.» Juntamente se espalhavam os cantos narrativos, a que se chamava Bairtni, designação que se encontra no Arcipreste de Hita como nome de um instrumento musico, e que o rei Dom Duarte, no Leal Conselheiro emprega como o narrador de contos: «em tal maneira que não pareça que os albardões tem mais sabedoria que nós, por que elles nom se trabalhom d’arremedar as estorias melhores, mas que lhe som mais convenientes.»[127] A palavra albardeiro, empregada por Gil Vicente como exprimindo a sua vêa comica parece ligar-se a esta funcção narrativa; assim como as palavras Fatiste no tempo de Francisco I significando compositor «de jeux et novalités»[128] e o portuguez Fadista, cantor de narrativas, se ligam ao nome de Faith, dado na Irlanda aos cantores ou vates. O bardismo, perdido já o seu caracter sacerdotal, conservou-se como um mister de cantores vagabundos: «instituição que atravessou seculos e tornou-se uma feição caracteristica dos costumes gaulezes e irlandezes da Edade media,»[129] como o affirma Belloguet. Ao colligir as leis consuetudinarias cambrianas, no seculo X, estatuia Hoel o Bom ácerca d’estes Bardos: «Quando a rainha quizer ouvir um canto, o bardo domestico será obrigado a cantar um á sua escolha, mas em voz baixa, ao ouvido para que a côrte não seja perturbada.» Com o nome de Segrel (de Secretela, na baixa latinidade) encontra-se nas côrtes peninsulares uma classe de cantores que não são nem jograes, nem trovadores. Pela caracteristica do canto modulado em voz baixa, como se exige nas Leges Walliae, e pela frequencia dos Lais, que achamos citados nos Cancioneiros portuguezes, este nome de Segrel designa o cantor das melodias bretãs. Já no seculo XII o trovador Geraud de Riquier fallava d’esta classe de cantores da côrte: «E ditz als trobadors—Segriers por totas corts.» E no Regimento da Casa de D. Affonso III, de 1245, acha-se estabelecido: «Elrei aia trez jograres em sa casa e nom mais, e o jogral que veher de cavallo d’outra terra, ou segrel, lhe dê elrei ataa cem (maravedis?) ao que chus der, e nom mais, se lhe dar quizer.»[130] Muitos trovadores portuguezes alludem a este nome; como Affonso Eanes de Coton:

a todo o escudeyro que pede don