(St. 1739.)
A çanfonha era o instrumento que acompanhava a recitação das Gestas; o seu uso, peculiar aos primeiros seculos da monarchia, e ainda hoje popular na Galliza, leva-nos a inferir que tambem as Gestas seriam cantadas por esse tempo. Em um manuscripto da Edade media, descreve-se a Çanfonha: «Chama-se em França Cymphonie um instrumento que os cegos tocam cantando a Canção de Gesta, e tem este bello instrumento doce som, e mui agradavel de ouvir.»[120] Quando o rei D. Pedro I prohibiu os instrumentos musicos que não fossem a trompa ou a corneta, para não se effeminarem os animos, seguia as disposições da Egreja exaradas nas Summas do seculo XII. Escrevia Guillaume Perrauld, na Summa Vitiis: «O ouvir Canções é muito para se temer... Tambem são muito para se temer os instrumentos musicos, pois tocam e amolecem os corações humanos.»[121] Em uma Summa de Penitencia prega-se a maior complacencia para os jograes que cantam Canções de Gesta, e condemnam-se os que cantam cantilenas lascivas. Tambem nas Leis de Partidas, que estavam em vigor em Portugal, prohibe-se a todo o bom cavalleiro o ouvir canções quando ellas não forem de feitos de armas.
No seculo XV as Gestas dissolviam-se em chronicas historicas; ainda assim, acha-se citada por Azurara a Gesta sobre o Duque Jehan de Lanson, «ca sem embargo de se em todollos regnos fazerem geeraaes cronicas dos rex d’elles, nom se deixa porem de screver apartadamente os feitos dalguns seus vassalos, quando o grandor he assy natural de que se com razom deve fazer apartada scriptura; assy como se fez em França do duc Joham de Lançam.»[122] Azurara alludia a uma Gesta carolina do seculo XIII pensando que se referia a uma chronica; o mesmo succedeu a Philippe de Mouskes, na sua Chronica rimada, que resumiu essa gesta attribuindo-lhe valor historico. Foi talvez Portugal o unico paiz que ouviu fallar da Chanson de Jehan de Lanson, apezar do que d’ella diz Léon Gautier: «Poucas canções ha que tenham tido popularidade menos vasta e menos duravel. As nações estrangeiras não parecem tel-a conhecido, e não existe d’ella versão em prosa.»[123] Mas não bastou a Azurara o cahir no mesmo erro de Philippe de Mouskes; comparou esta Gesta que idealisa um traidor, e em que é Carlos Magno exposto ao mais pungente sarcasmo, á bella Chronica anonyma do Condestavel, identificando-o com o typo do heroe-santo.
Não admira; no seculo XV começava o perstigio da erudição latina, e o desprezo pela Edade media; e na época da Renascença os heróes das Gestas são conhecidos em Portugal através da corrente italiana, pelos poemas de Pulci, Boiardo e Ariosto. Esta influencia italiana é evidente em Sá de Miranda, que cita Turpin, Roland e Ogier le Danois, pela leitura d’esses poetas:
Grandes cosas se cuentan de como a escuras
D’aquelles tiempos de vista Turpino
A estranos cuentos orejas seguras.
El hadado Roldan, Reynaldo, Dino,
Que le fuera fortuna mas cortés
De sus riquezas, un tal Paladino.