e ora per Roncesvales passou

e tornou-se do Poio de Roldan.

(Canc. Vat., n.o 1066.)

Reflectiu-se este cyclo épico nos cantos populares portuguezes; nos romances que fallam da derrota de Roncesvalles, allude-se a uma expressão franceza: «Nos portos de mal passar.»[118] N’este sentido de desfiladeiro, fauce entre dous montes, significando a passagem dos Pyreneos, usa-a a Chronica de Turpin, e vem no Roman de Garin: «As ports d’Espagne s’en est entrez Roland.» A influencia popular conhece-se principalmente como foram aportuguezados os nomes dos heróes épicos francezes: Roland é Roldão, Renaud de Montauban, Reinaldo de Montalvão; Ogier le Danois, Dones Ogeiro e Ogeiro o Dão; Olivier, Oliveiros; Bauduin de Vannes, Valdevinos (na giria popular, vagabundo, tunante); Richer, Ricardo; Garin de Monglave, Garinos; Naimes le Bavarois, Duque Maime; Gaifier de Bordeaux, Gaifeiros; Didier, Dirlos; Huon, Dudão; Eghinard, Eginaldo, Gerinaldo e Reginaldo; Aude, a namorada de Roland, Alda; Floripar, Floripes; Fierabras, Ferrabraz (valentão roncador).

O rei D. Affonso III, que residira quando princepe alguns annos na côrte de França, imitou na sua côrte as festas poeticas que lá admirára. Nos festejos que se fizeram em Melun, quando D. Affonso foi armado cavalleiro, o rei S. Luiz deu cincoenta libras aos menestreis que a elles assistiram; vinte menestreis se acham inscriptos nos Documentos para a historia de França.[119] É evidente que a influencia da poesia franceza se havia de reflectir na côrte de Portugal; assim no Regimento da Casa real manda D. Affonso III, que estejam sempre trez jograes ao serviço da côrte, e prescreve o numero dos jograes e dos segreis que venham de longe aos quaes se dará agasalho. As Canções de Gesta caminhavam para a inevitavel decadencia, e este mesmo reflexo vêmos em Portugal na parodia feita por D. Affonso Lopes de Baião de uma Gesta franceza em uma metrificação de doze syllabas, em longas tiradas monorrimas, e com a celebre neuma AOI (seculorum amen) com que terminavam as estrophes longas da Chanson de Roland. No Cancioneiro da Vaticana foi colligida essa composição singular da Gesta de Maldizer, em que o fidalgo Baião, da côrte de D. Affonso III, ridicularisa um cavalleiro Dom Velpelho (de Vulpecula, a raposa), talvez um dos vencidos do partido de D. Sancho II. Aqui o que nos interessa é a prova clara do conhecimento da fórma litteraria das Canções de Gesta.

Na descripção da batalha do Salado, de Rodrigo Yanes, alludem-se aos personagens do cyclo franko:

Nin fue mejor cavallero

El arçobispo Don Turpin,

Ni el cortés Olivero,

Ni el Roldan paladin.