As condições de ordem e estabilidade na Europa datam do apparecimento e acção historica de Carlos Magno; sustaram-se as invasões, e o Feudalismo foi gradualmente cahindo diante da crescente dictadura monarchica. É essa lucta dos grandes vassallos contra a realeza, que se torna o thema fundamental das Epopêas ou Canções de Gesta, que se produziram depois da completa fusão do elemento gallo-franko, como synthese da nova nacionalidade—a França. O typo lendario de Carlos Magno centralisou na imaginação poetica esta lucta da realeza, que durou seculos. A fórma cyclica d’essas composições narrativas e a independencia e superioridade politica do franko, bem mostram que essas epopêas, ainda não totalmente individuaes, são as Cantilenas germanicas agrupadas em torno de um mesmo vulto historico, pelo syncretismo dos factos e das épocas, que é um dos processos espontaneos da tradição. Segundo os medievistas Paulin Paris e Léon Gautier, nas Gestas francezas é germanica a ideia da guerra, da realeza, do feudalismo, dos symbolos juridicos, da mulher e da divindade. Os textos de Tacito e de Eghinard provam a primitiva commoção historica do modo mais completo, e ao mesmo tempo a persistencia das Cantilenas germanicas durante a primeira raça, cantadas em lingua vulgar, como vêmos pelo principal monumento, a Vie de Saint Faron, do seculo VII. A figura imponente de Carlos Magno syncretisando em si todas as individualidades heroicas, que se manifestaram ainda depois d’elle, veiu imprimir a essas Cantilenas um caracter historico, dar-lhes um agrupamento cyclico e uma expressão nacional.
As primeiras Gestas que circularam na Europa foram a Chanson de Roland, a de Girard de Rousillon, a de Ogier le Danois, a de Raoul de Cambrais e de Aliscamps. Este periodo de assombrosa elaboração épica deu-se do principio do seculo XII até 1328. Estas datas são capitaes para nós, por que abrangem o periodo organico da nacionalidade portugueza. Era impossivel que n’estes annos de aspiração autonomica, em que o conde francez D. Henrique imitava as instituições carlingias, como os Missi dominici, em que buscára apoiar-se em colonias frankas, em que os Bispos, que representavam então o maximo poder espiritual e eram os defensores civitatum, vinham tambem de França, impossivel seria que não chegasse a Portugal essa floração poetica das Gestas heroicas. O nome de Gesta e Estorea, significando a poesia épica na Peninsula, e a referencia á maestria de Francia, indicam-nos, que se deu uma intercorrencia da poesia narrativa dos troveiros com a subjectiva dos trovadores. Emquanto estes cantavam nas côrtes e solares feudaes, os troveiros recitavam nas praças, d’onde muitas vezes a auctoridade os repellia ou obrigava a pagarem um imposto.
As tradições épicas do norte da França espalharam-se em Portugal no tempo de D. Affonso Henriques, pela passagem dos cavalleiros que iam por mar á Palestina. Esses cavalleiros, ávidos de aventuras heroicas, o ajudaram a conquistar Lisboa, e no descanso do arraial se desenfadavam com as suas tradições guerreiras.[111] Na Chronica Gothorum, as phrases referentes a D. Affonso Henriques clarus ingenio e lingua eruditus, coadjuvam em parte a tradição de que este primeiro rei portuguez fôra poeta. A sua côrte, apezar dos continuos trabalhos da guerra, foi abrilhantada pelos costumes da galanteria provençal; casado com uma princeza italiana (Mahaut) não nos admira que as canções de Sordello de Mantua e de Bonifacio Calvo fossem conhecidas em Portugal. Mas sobretudo as suas preferencias deviam de ser pelos cantos épicos; as epopêas heroicas desenvolvidas pelo genio francez não puderam encontrar na Peninsula condições para se implantarem, por lhe faltarem uma classe feudal independentemente organisada, e por ser excessiva a admiração pela cultura latina, que se tornou uma distincção na aristocracia e alto clero.
A tradição épica da Edade media não foi extranha a Portugal; na Chronica de Turpin, acha-se citado o nome de Portugal.[112] Infeliz lembrança teve o pseudo-chronista, por que pretendendo dar-se como contemporaneo de Carlos Magno, a designação Portugal desconhecida em todos os documentos anteriores a 1069, descobre o intuito da falsificação.[113] Segundo Fauriel, na gesta de Fier-à-bras ha o retrato allegorico da rainha D. Thereza.
Na analyse do poema, escreve: «Creio entrevêr em algumas particularidades e no desfecho do romance de Fierabras, uma allusão romanesca á creação do reino de Portugal. Affonso VI, rei de Castella, conquistou em 1093 aos Arabes uma parte dos territorios entre o Douro e o Tejo, e d’elles fez um Condado, que deu com uma de suas filhas a Henrique de Borgonha, joven e valente senhor que viera em seu auxilio d’além dos Pyreneos; este Condado chamado Porto-Cale, do nome da sua capital, engrandecido pelas conquistas do seu primeiro senhor, veiu a ser o reino de Portugal. Entre a fundação d’este Reino e o desenlace do Fierabras, não ha, é verdade, relação alguma de datas ou de pessoas; mas cumpre considerar, que para os romancistas dos seculos XII e XIII, toda a historia tanto nacional como estrangeira, se reduz a algumas tradições cada vez mais alteradas e falsificadas, sobre as quaes bordaram sem escrupulo, sem outro designio mais do que o de exaltar as imaginações contemporaneas. Fazer de Portugal um reino de Agramene; de um Henrique um Gui de Borgonha; de uma filha de Affonso VI uma princeza sarracena convertida; transportar para o VIII seculo um acontecimento do seculo XI, tudo isto é quasi historico para qualquer d’estes romancistas.»[114] O caracter altivo de D. Thereza, tal como se conserva na historia, está em harmonia com o retrato de Floripar feito no poema; isto comprova o juizo de Fauriel: «que não ha epopêa primitiva que não seja por algum ponto a expressão de um acontecimento ou de uma ideia.»
Em uma citação do Livro de Linhagens, em que se allude aos Doze Pares, encontra-se o vestigio das Gestas francezas: «muitos ricos-homeens que iam para lhes acorrerem disseram a elrey dom Fernando, que nunca virom cavalleiros nem ouviram falar que tam soffredores fossem e pozeram-nos em par dos Doze Pares.»[115] A creação dos Doze Pares apparece nas mais antigas Canções de gesta franceza, taes como a Chanson de Roland, a Viagem a Jerusalem e em Renaud de Montauban.[116] O texto em que se faz a referencia aos Doze Pares é do principio do seculo XIV; por tanto é natural, que qualquer d’essas trez epopêas fosse conhecida em Portugal. Nos Karlamagnus Saga, Gui de Bourgogne, Otinel, Fierabras, Simon de Pouille, Ogier le Danois, Huon de Bourdeaux, Galien Restoré, cita-se a instituição dos Doze Pares; estes poemas como mais modernos pouco teriam influido para a vulgarisação da lenda carlingia em Portugal, em um tempo em que começava o perstigio dos poemas da Tavola-Redonda.
Na sepultura do cavalleiro Rodrigo Sanches, morto na Lide do Porto em 1245, batendo-se a favor de D. Sancho II, gravaram-lhe um epitaphio, comparando-o a Roland:
Belliger insignis fuit hic cunctis et amandus,
Laudibus ex dignis, alter fuit hic Rotulandus.[117]
Eghinard escrevera este nome Hruodland, e Radulphus Tortarius Rutlandus, e acha-se na canção de Guerau de Cabrera na fórma Rotlon (Roldão na linguagem popular portugueza, como synonimo de valentão.) Ainda na côrte de D. Diniz eram lembradas as Gestas carlingias, como se vê pela canção de João Baveca: