Al e Alphão e al sesserigo.
Era dever de todo o homem de guerra, como bom cavalleiro, saber brandir uma espada e discretear galantemente com damas; mas n’estes tempos de luctas como a da facção que depoz D. Sancho II, prevalecia principalmente a satyra, como se vê nas coplas contra os Alcaides que entregaram como não deviam os castellos a D. Affonso III. Fallando do Cancioneiro da Ajuda (publicado por lord Stuart em 1823), Frédéric Diez caracterisava as obras d’esta collecção e a época a que pertence: «Se as fórmas poeticas são rigorosamente as dos trovadores, de longe em longe accusam a nacionalidade, mas não deixam suppôr o conhecimento familiar da fórma provençal. Os versos de dez syllabas predominam nas estrophes, que se correspondem pela rima... Ha uma analogia surprehendente na contextura, e em nenhuma das canções pudemos descobrir vestigios de traducção.»[110] Esta caracteristica de metro define-nos a influencia limosina, que seguiram os nossos trovadores fidalgos. Ainda não imperava a galanteria e o requinte da sensibilidade; só começou com a imitação directa da Provença, na côrte de Dom Diniz, que empregou todos os recursos da arte para exprimir a paixão. As canções provençalescas ou em maneira de proençal dobravam-se a todos os caprichos de uma poetica artificiosa, aos segredos do leixapren e do mansobre, ás exigencias da rima encadeada, aos córtes do verso nos seus hemistichios, para corresponderem ás finas allegorias do sentimento. Depois do direito feudal ter aberto um abysmo inaccessivel entre a castellã e o servo, a canção trobadoresca veiu estabelecer a egualdade perante o amor, conforme a bella phrase de Quinet. O artificio provençalesco não consistia apenas em alardear a plasticidade da lingua rude amoldando-se a todos os requebros, em achar (trouver) os melhores recursos da rima e das combinações estrophicas, mas principalmente em velar ou encobrir o sentimento que fazia com que o apaixonado cantor erguesse os olhos para a castellã orgulhosa. Um compassivo olhar, um leve sorriso precipitava o scismador em um enlevo ou melancholia eterna, em uma louca inspiração. Todas as emoções estão ali descriptas: o sentimento da propria inferioridade, o olhar generoso que o levantou da terra, a anesthesia das dores por um simples relance descuidado, o receio ou terror de que adivinhem por quem é a absorpção do seu espirito, que o traz de longe, a esperança de a vêr mais de perto e a lembrança angustiosa de uma ausencia forçada, tudo isto vibra na canção provençalesca. Avançava-se para o idealismo neo-platonico, que ia suscitar o superior lyrismo italiano.
No Cancioneiro da Ajuda, imita-se toda essa ordem de sentimentos; não só a lingua, como as fórmas poeticas notadas por Diez, como a natureza dos sentimentos, provam a antiguidade e o valor d’este monumento. Os nossos trovadores tambem se apaixonam por castellãs, sem attenderem ao abysmo que os separava; João Soares de Paiva morreu em Galliza por amores de uma infanta. Na côrte de D. Diniz impera já esta metaphysica amorosa, que elle idealisa artificialmente, fallando do temor do seu segredo amoroso, apezar de ter numerosos bastardos. E levado pela necessidade de variar e vivificar com realidade as fórmas poeticas, é que o rei D. Diniz, seguindo o estylo das pastorellas da eschola de Gasconha, imita as serranilhas populares portuguezas e gallegas, dando assim protecção a todos os jograes das côrtes de Hespanha, que vinham a Portugal como ao centro da mais activa elaboração poetica do seculo XIV. Pela poesia trobadoresca se fazia a unificação affectiva dos Estados livres peninsulares, e Portugal, como o confessa o erudito Marquez de Santillana, exerceu então pela primeira vez a sua hegemonia. Durante este periodo a poesia provençal recebeu uma transformação profunda na sua essencia; suffocado o esplendor da Provença pela terrivel cruzada contra os Albigenses, esse lyrismo desceu ás classes populares, d’onde primeiro sahira (son veill antic), convertendo-se-lhe agora em um mister lucrativo (os jocistae, joculatores ou jograes, e os ministralles ou menestreis). O jogral substituia o desinteressado trovador: ia de terra em terra acompanhando o cantor apaixonado, apanhando de memoria as canções que lhe ouvia, e repetindo-as depois nas praças, ou nas côrtes, recebendo da multidão a pequena moeda (a poitevine) e da fidalguia pannos e cintos. É frequente encontrarem-se protestos dos trovadores contra esta exploração jogralesca; Astorga, no seu Poema de Alexandre, tem medo que o tomem por um jogral, e diz: «Mester trago fermoso, no es de ioglaria.» Em uma das suas canções o rei Dom Diniz confessa que celebra os seus amores sem se parecer em nada com esses que «troban no tempo da frol.» Mas a invasão jogralesca era uma consequencia da vitalidade esthetica acordada na alma moderna. No Cancioneiro da Vaticana encontram-se a par de reis, de infantes e fidalgos, numerosos jograes; taes são Affonso Gomes jograr de Sarria, Ayres Paes jograr, Diogo Pezelho jograr, Lopo jograr, que se destacam tambem d’entre clerigos e burguezes. A casuistica amorosa vae encontrar nas fórmas jogralescas moldadas sobre o typo da canção popular, extraordinarias bellezas de simplicidade natural e de riquezas tradicionaes. Assim no momento em que o lyrismo moderno ia receber na Italia a sua fórma litteraria, tocava as fontes vivas da tradição poetica occidental.
O apparecimento da poesia dos trovadores e a sua rapida diffusão nas Litteraturas romanicas e germanicas, só se torna claro pelo conhecimento de um fundo commum tradicional, que já está achado. Circumstancias accidentaes, como a commoção social provocada pelas Cruzadas, n’isso influiram tambem, despertando a curiosidade das classes elevadas, que fixaram essa poesia na fórma escripta. Em quanto duraram as expedições da Palestina, (1095 a 1290) a poesia trobadoresca attingiu o seu maximo esplendor; n’este periodo expandia-se a vida burgueza ou propriamente a classe media, que se tornou a base estavel da sociedade moderna. Terminadas as Cruzadas, e tendo por tanto a Realeza de concentrar em si a dictadura pela decadencia necessaria do poder senhorial, envolveu tambem n’essa absorpção muitas garantias locaes. A França do norte abafando o municipalismo do sul, a poesia provençal extinguiu-se, voltou outra vez para o coração do povo, levando-a os jograes por todas as côrtes da Europa. Podem-se determinar trez periodos a esta efflorescencia lyrica:
Tradição e Nacionalidade, em que a poesia é conservada oralmente, nos antigos cantos populares gaulezes, no centro ethnico da Aquitania, com relações intimas com as pastorellas italianas, com as baladas provençaes e com as serranilhas portuguezas. O caracter de nacionalidade chegou a accentuar-se no uso que d’esta poesia fizeram os trovadores, defendendo a liberdade municipal e proclamando a revolta.
A sua diffusão penetrou como corrente de distincção aristocratica em todas as côrtes da Europa, chegando até á Inglaterra e á Allemanha; porém no Meio Dia volvia outra vez para o povo, e pela exploração jogralesca se aproximava por simplificação do primitivo typo tradicional.
Uso e imitação, nos divertimentos litterarios palacianos; os proprios monarchas a reproduziam e a protegiam como uma distracção culta, como um pretexto de galanteria. Pela necessidade de renovar os artificios da metrica trobadoresca, de que se havia codificado numerosas regras, o desejo da novidade levou á imitação de todos os segredos technicos e por fim á renovação inconsciente do typo tradicional, que transparece na fórma litteraria dos Cancioneiros aristocraticos.
Na Italia foi outra a corrente; da casuistica sentimental dos trovadores o genio italiano transitou para um desenvolvimento subjectivo, fecundando-o pela abstracção philosophica; as Litteraturas romanicas pela influencia do dolce stil nuovo fixaram sobre os rudimentos trobadorescos as fórmas definitivas do lyrismo moderno.
b) INFLUENCIA GALLO-FRANKA
(Gestas ou Epopêas medievaes)