Conhecidos os caracteres da evolução historica da Edade media, a separação dos Poderes e a sua transformação, que ainda se exerce na determinação das fórmas compativeis do Poder espiritual e do temporal com a consciencia e liberdade do homem moderno, por um tal processo de dissolução do regimen catholico-feudal se explica a evolução e as vacillações de todas as Litteraturas romanicas. Vejamos agora os themas poeticos com que a França exerceu a hegemonia esthetica sobre essas litteraturas:
a) INFLUENCIA GALLO-ROMANA
(Lyrismo trobadoresco)
No meio da confusão das raças e das invasões dos povos, em que se elaboraram as novas instituições religiosas e politicas que deram á Europa a estabilidade, foram-se creando costumes e as relações de uma pacifica sociabilidade. É então que se quebra esse mutismo, e as novas linguas se exercem no canto, celebrando pela poesia o amor, a galanteria e a confraternidade. A partir do seculo X espalham-se pela Europa esses cantores vagabundos, sahindo da França meridional, do fóco da Provença, levando a todos os povos a boa nova do amor; póde-se dizer que as canções jogralescas vieram desenvolver pela accentuação as linguas romanicas, tornal-as communicativas e escriptas. Tambem nas linguas germanicas esta ideia de que a linguagem começa pelo canto exprime-se em Singuen e saguen, synonimos como o cantar e decir, nos romances hespanhoes. A situação da Provença favorecera esta influencia esthetica impulsiva. Durante o periodo das invasões dos barbaros do norte, permaneceu quieta a Provença, apenas alvoroçada pela passagem dos Visigodos, que se precipitaram sobre a Peninsula, e pelos Burguinhões então já polidos pela permanencia na Italia. Flor bafejada pela amenidade do meio dia da França, recebendo os restos da cultura grega e da paixão arabe, ella foi como o nectario em que se formou o mel da poesia, que encantou a primeira sociabilidade dos povos da Europa, e que determinou as fórmas do moderno lyrismo. Da lingua usada nas canções dos trovadores, dizia Raymond Vidal: «La parladura ... de Lemosin val mais per far vers et cansons et serventes.» Esta região comprehendia um centro de irradiação commum intermediaria, entre a zona oriental que formam o Auvergne e Velay, e a zona occidental de Poitou, de Saintonge e de Guienne.[105] Escreve Fortoul, fazendo notar a importancia d’este fóco de cultura trobadoresca, em que a burguezia do Limousin, do Périgord e de Quercy, rivalisava com a nobreza na composição das canções amorosas: «No Limousin, em quanto o terrivel Bertrand de Born canta as guerras, que elle ateia constantemente, Giraud de Berneil sáe da condição mais infima para fazer as mais bellas canções de amor, e Bernard de Ventadour aprende ao pé do forno de seu pae a lingua que o faz brilhar na côrte dos seus senhores, na Hespanha, na Italia; de um lado os senhores de Uisel reunem-se para compôrem as arias e os versos dos cantos que tornam a sua nobre familia celebre; do outro, os joviaes burguezes de Uzerche, Gaucelm Faydit e Hugues de la Bezelaria, espalham na sua cidade e até á Lombardia a fórma do seu espirito cortez e agradavel. O Périgord, mesmo, que com o gentilhomem Arnaud Daniel, leva ao suprasummo as difficuldades e os artificios da versificação meridional, produz operarios como Elias Cairel, bastante feliz para fazer brilhar até na Grecia o esplendor da poesia que elles aprendiam nas lojas de Sarlat.»
No seculo XI acodem os provençaes á côrte de França por occasião do casamento de Constança com Roberto; cento e cincoenta annos mais tarde, já se acham diffundidos pelo territorio francez o mesmo gosto poetico e galanteria provençalesca; usavam-se esses certames poeticos a que concorriam com as suas trovas e canções para celebrarem o casamento dos princepes, ou o gráo de cavalleria que recebiam. Em Italia, segundo Folgore de San Geminiano era do estylo: «Cantar, danzar alla provenzalesca.»[106] Dante, no Convito, queixa-se do emprego immoderado do provençal: «Questi fanne vile lo parlare italico, e prezioso quello de Provenza.» E tão precioso era este modo de fallar provençal, que no Purgatorio, Dante obedeceu á corrente da época pondo na bocca de Arnaldo Daniello trez tercetos em provençal.
Na Allemanha não era menos conhecida a lingua e a poesia provençal: no poema do Parzival, lê-se que as verdadeiras tradições foram da Provença para a Allemanha.[107] Os trovadores achavam as linguas do norte sem melodia; e Peire Vidal compara-as a ladrar de cães: «E lor parlars sembla lairar de cans.»
Vejamos a irradiação d’este lyrismo para a peninsula hispanica. O governo suave da Provença continuado na mesma familia por mais de duzentos annos, aprimorou a galanteria cortezã, que tanto distingue as canções dos seus trovadores; quando se extinguiu o herdeiro masculino, em 1092, a corôa de Provença passou para o Conde de Barcellona, pelo casamento com a unica herdeira da familia de Borgonha. Os poetas acompanharam a côrte que transpoz os Pyreneos e veiu fixar-se na Hespanha. Um facto semelhante se deu com o casamento dos Condes de Barcellona, que lhes fez pertencer o reino de Aragão. Os reis, que tambem poetisavam em lingua limosina, abriram nas suas côrtes azylo aos poetas provençaes, principalmente depois da cruzada de exterminio contra os Albigenses. O maior elogio que se póde fazer do sentimento e elevação moral dos trovadores é vêl-os abraçarem o partido dos perseguidos. A cruzada contra os Albigenses recebeu um caracter religioso para lhe imprimirem mais ferocidade, mas era a pressão brutal da França feudal e monarchica do norte contra a França meridional municipalista e semi-republicana.[108] Muitos trovadores se refugiaram na Hespanha, no tempo de Pedro II de Aragão, que morreu em 1213, defendendo a causa d’elles na batalha de Moret. Entre esses foragidos citam-se os trovadores Hugues de Saint-Cyr, Azémar le Noir, Pons Barba, Raimond de Miraval e Perdrigon.
É durante a sua educação na Galliza, que o rei Affonso o Sabio estuda a nova poesia provençal, adoptando o dialecto gallego para as suas Cantigas, por que essa linguagem se achava exercitada na expressão dos mais delicados sentimentos. Em volta de Affonso o Sabio reunem-se os trovadores mais distinctos, sendo elle o mais generoso impulsor da propagação do novo lyrismo. Conforme os centros d’onde irradiava essa poesia, assim ella tinha um caracter mais ou menos aristocratico, mais ou menos popular. Os trovadores da Gasconha, Cercamons, Marcabrun e Peire de Valeira, e por tanto predominando o elemento popular, foram conhecidos em Portugal, prevalecendo o seu gosto nas serranilhas. Marcabrun em uma das suas canções pede a Deus que vele pelo rei de Portugal. De todos os trovadores o que dá prova de ter frequentado a côrte portugueza é Peire Vidal. Estas relações cortezãs explicam-se pelos casamentos reaes; D. Sancho I foi casado com D. Dulce, filha de Raymundo Berengar, quarto conde de Provença e rei de Aragão. No Nobiliario do Conde D. Pedro citam-se muitos fidalgos com a indicação, foi trobador, e que trobou bem; pertencem a esse numero dos partidarios de Affonso III, que antes da deposição de D. Sancho II se refugiram na côrte de S. Luiz, como os Baiões, os Cogominhos, os Valladares, os Porto-Carreros. O rei D. Diniz, um dos mais fecundos e talentosos trovadores portuguezes estudou conscienciosamente a arte do gai-saber, e, affirmando a superioridade do seu ideal, escrevia: «Quero eu em maneira de Proençal—fazer agora um cantar de amor.» O grande apreço que tanto na Galliza como em Portugal se ligava á nova poesia «esta arte que mayor se llama» como escreve o Marquez de Santillana, fez com que a sua influencia se exercesse sobre toda a Hespanha: «en tanto grado, que no ha mucho tiempo quatesquier Decidores ò Trovadores destas partes, agora fuesen Castellanos, Andaluçes e de la Extremadura todas sus obras componian en lengua gallega ó portugueza.»[109] Esta poesia começa a florir justamente quando os nossos cavalleiros traziam accesas as almenaras dos castellos roqueiros, e faziam investidas, correrias nas terras dos sarracenos.
Na côrte de D. Sancho I e D. Affonso II os duros guerreiros neo-godos brilhavam com a graça das canções, algumas das quaes se acham no Cancioneiro da Ajuda. Em uma d’essas canções um cavalleiro allude ao grito de guerra na tomada de Santarem por D. Affonso Henriques. Ajuntára o monarcha alguns cavalleiros, indo com altas escadas atacar o castello de Santarem; era ao quarto de alva e as roldas dormitavam; o rei dividiu a sua comitiva em dois troços, um que investia pelo lado do monte Alphão, e outro que atacava pelas bandas da ribeira ou parte baixa (sesserigo). Ao lançar as escadas, o ruido despertou as roldas do somno, tocaram alarme, e a mourisma deu de repente sobre os poucos cavalleiros que confiavam no seu ardil. N’aquelle transe desesperado foi preciso levar tudo á viva força; os poucos portuguezes venceram. D’ahi o grito de guerra conservado na canção:
Ay Sentirigo! ay Sentirigo,