Apesar de toda esta riqueza de elementos, as Litteraturas modernas permaneceram longo tempo estacionarias, por que dependiam da creação de uma linguagem apta a exprimir um novo estado de consciencia e sentimentos apropriados a uma mais ampla sociabilidade, em que tanto cooperára o espirito da confraternidade christã. O phenomeno da creação ou derivação d’esse systema de linguas era em si já uma elaboração esthetica; basta vêr como ellas se tornam mais fecundas pelo desdobramento morphologico e semeiologico dos duplos ou vocabulos divergentes, e caminham pelos seus recursos analyticos das preposições e dos verbos auxiliares e variedades pronominaes para uma maior clareza logica. Por certo que a lingua que primeiro exprimisse toda esta riqueza poetica seria aquella que se universalisaria por vir no momento em que satisfazia uma necessidade da sociabilidade europêa, como aconteceu com o francez.
O desenvolvimento tardio das manifestações litterarias e artisticas do genio moderno é explicado por Comte pela necessidade de um trabalho prévio, e da creação das linguas modernas. Mas esta mesma elaboração é considerada pelo eminente philosopho como um producto das faculdades estheticas: A creação das Litteraturas modernas esteve estacionaria durante «uma lenta e difficil operação preliminar, cuja indispensavel realisação devia preceder, por absoluta necessidade, a expansão directa do genio poetico; comprehende-se que se trata da elaboração fundamental das linguas modernas, nas quaes, em meu entender, deve vêr-se uma primeira intervenção universal das faculdades estheticas.»[98] E mostrando como estas faculdades são as menos inertes na maior parte das intelligencias, verifica o seu exercicio no facto do aperfeiçoamento da lingua vulgar: «Esta propriedade necessaria tornou-se ainda mais evidente quando se exerceu, não na creação espontanea de uma lingua original, mas na transformação radical de uma lingua anterior, era consequencia de uma nova ordem social.» É n’este ponto que o philosopho mostra como n’esta creação das linguas romanicas, já se deu o antagonismo entre a evolução organica da Edade media e o espirito classico e auctoritario da antiguidade: «Apezar da actividade que o genio philosophico e o genio scientifico puderam manifestar na Edade media,—seguramente muito pouco contribuiram um e o outro para a fundação geral das linguas modernas. Apezar das vantagens essenciaes que cada um d’elles ulteriormente tirou da superioridade logica propria dos novos idiomas, o longo uso que ambos fizeram do latim, depois que cessára inteiramente de ser vulgar, confirma bem a repugnancia e a sua inaptidão naturaes para dirigirem a elaboração da linguagem usual. Era então a faculdades menos abstractas, menos geraes e menos eminentes, mas tambem mais intimas, mais populares e mais activas, que devia necessariamente pertencer esta indispensavel operação. Essencialmente destinada á representação universal e energica dos pensamentos e dos affectos inherentes á vida real e commum, nunca o genio esthetico pôde convenientemente fallar uma lingua morta, nem mesmo estrangeira apezar de todas as facilidades excepcionaes obtidas por habitos artificiaes.»[99] A lingua franceza exerceu um extraordinario perstigio nos espiritos: «cor parmi le monde, et est la plus detilable à lire et à oir, que nulle autre,» como affirmava Martin de Carrale, justificando-se de escrever em francez a sua Historia de Veneza; Bruneto Latini, o mestre de Dante, escreve tambem em francez, Marco Polo, Rusticiano de Pisa, Fazio d’egli Uberti, e tantos, contra o que levado pelo espirito nacionalista protestava Benvenuto de Immola.
Sonhando a independencia do territorio que fôra dado em dote a sua mulher D. Thereza, o Conde D. Henrique chamou para Portugal colonias francezas, as quaes radicando-se no solo o coadjuvassem no plano da autonomia territorial. A vinda de cavalleiros francezes ás guerras das Cruzadas, e a sua passagem por Portugal, contribuiram para a disseminação das tradições poeticas do cyclo carlingio, que percorriam a Europa, e das canções lyricas trobadorescas; assim, além da influencia ecclesiastica, se estabelecia a hegemonia franceza nos primordios da cultura portugueza, quer sob o aspecto social como sob o mental. No seu estudo Les Communes françaises en Espagne et en Portugal, escrevem Helfrich et Clermont: «quasi que não ha provincia ou districto em Hespanha, em que não penetrassem francezes, ou costumes francezes.»[100] Atouguia, Lourinhã, Villaverde, Azambuja, Cezimbra foram fundadas por colonias frankas. Reconhecendo a influencia da lingua franceza no gallego e no portuguez, continuam os mesmos auctores: «Mas a verdadeira influencia, influencia duravel e preponderante que a França exerceu na Hespanha, deve ser procurada no espirito das suas leis.—O ponto de partida, o fóco, por assim dizer da propaganda politica que emanava da França, foi a Abbadia de Cluny, uma das mais grandiosas creações do seculo X, e o centro das ideias religiosas de que mais tarde Gregorio VII se tornou o representante.—Em Hespanha os monges de Cluny fizeram supprimir o ritual gothico para o substituirem pelo ritual gallicano. Em vez da escriptura gallicana introduziram a lettra franceza, esforçando-se para que prevalecesse em Castella a legislação da Bourgogne.» Por esta influencia se estabeleceram em Portugal os monges de Cistér, que segundo Victor Le Clerc substituiram o rito isidoriano (mosarabe) pela liturgia gallicana. Esta ordem religiosa, pelo seu caracter austero anti-artistico repellindo systematicamente o bello (a ornamentação era o caracteristico do estylo arabe), teve uma forte preponderancia nos primeiros seculos da monarchia, obstando em certa fórma á manifestação do genio portuguez. As Cartas de Foral têm grandes analogias de redacção e de garantias ou frankias politicas com as das communas francezas. Na reforma judicial do tempo de D. Affonso III, os Corregedores imitam os Missi dominici dos Capitulares de Carlos Magno. Não só bispos francezes regem as sés de Portugal, como os bispos portuguezes D. Geraldo, D. Mauricio, D. Hugo, D. João Peculiar, D. Bernardo, fizeram a sua educação em França. Obedecendo ainda a esta corrente civilisadora, teve o rei D. Diniz por mestre o francez Aymeric d’Ebrard, a quem fez bispo.
Condições particulares favoreciam a França para esta hegemonia europêa; herdeira da cultura grega em Marselha, e da romana em Tolosa, tinha conservado o impulso como continuadora da Civilisação occidental. Pela região da Aquitania, propagava-se ethnicamente o seu influxo á Italia, em Hespanha, em Portugal, além das relações politicas estabelecidas desde Carlos Magno. Os dialectos da França meridional, do Languedoc, da Provença, do Delphinado, do Lyonez, do Auvergne, do Limousin e da Gasconha, facilitavam a communicação da nova poesia lyrica trobadoresca, que veiu exercitar as linguas romanicas litterariamente. Pelo seu elemento franko podia a França exercer sobre as raças germanicas da Allemanha e da Inglaterra egual hegemonia, propagando até lá as suas Gestas épicas e cantos lyricos, e a cultura mental das Universidades. Assim, pelos dialectos da França septemtrional, taes como o Normando, o Picardo, o Flamengo e o Wallon tornava-se facil e natural a communicação com populações que fallassem qualquer dialecto teutonico. Na Inglaterra essa influencia primeiramente exercida pela conquista normanda, subsiste nas leis promulgadas por Guilherme o Bastardo em lingua franceza, que era tambem obrigatoria para as resas e sermões ecclesiasticos, e ainda em 1328 eram os estudantes da Universidade de Oxford obrigados a exprimirem-se em lingua franceza. É esta importante hegemonia o que mais claramente explica o desenvolvimento de todas as Litteraturas romanicas que tiraram d’ella os germens fundamentaes com que elaboraram as suas creações estheticas, na Edade media. Para bem julgar este imponente phenomeno artistico importa conhecer o caracter social ou politico d’essa grande época historica.
Dois poderes preponderaram na reorganisação social da Europa, depois da queda do Imperio: o poder espiritual ou da Egreja catholica e o poder temporal dos chefes militares ou Feudalismo. Em relação ao mundo antigo representam estes dois Poderes um alto progresso, por que se separaram, e nunca mais, apezar das suas mutuas usurpações, conseguiram confundir-se. É este antagonismo intimo que constitue os grandes conflictos symbolisados nas Duas Espadas, ou luctas entre o Sacerdocio e o Imperio. Mas o principal phenomeno social que resultou d’este antagonismo, foi a transformação d’esses mesmos Poderes: avançando para a affirmação da intelligencia humana, a rasão procura pela critica, pela observação e experiencia um novo poder espiritual na sciencia; por outro lado, a liberdade humana firmando-se na actividade pacifica da industria e mutua regularisação dos interesses tornou cada vez menos necessaria a actividade militar e os chefes feudaes foram fatalmente cahir sob a dictadura ou concentração do poder temporal da Monarchia. Foi pois a Monarchia uma transformação coadjuvada pelas classes industriaes, agricolas e mercantis, por que se absorvia em si todos os poderes era como garantia de tornar a lei egual para todos. Comte formulou esta noção tão clara de toda essa Edade tempestuosa: «Sob qualquer aspecto que se examine o regimen proprio da Edade media, vê-se sempre emanar da separação dos dois Poderes, ou da transformação da actividade militar.»[101]
O Feudalismo e a Egreja organisaram-se á imitação um do outro, nas suas hierarchias, na mutua dependencia dos seus membros; n’este esforço de se confundirem, desnaturaram-se explorando a sociedade. A Egreja dominava pelo terror moral, o Feudalismo pela compressão material, ambos pelo obscurantismo. Uma tinha a servidão voluntaria (oblatos), o outro a servidão hereditaria (os da gleba); a humildade evangelica e a fidelidade do homem-ligio levavam á mesma negação da dignidade do homem. O papa comparava-se ao sol, como Gregorio VII, considerando os imperantes como a lua, corpos opacos que só podiam receber a luz ou a investidura soberana de Roma. O papado tornára os reinos da Europa seus feudatarios, cobrando alcavalas em paga das graças espirituaes. Em vez das terriveis pestes, cahiam sobre os estados as tremendas maldições e interdictos da Egreja, que absorvia em si todas as capacidades intellectuaes, tornando inconciliaveis o clericus e o laicus. Tal era a antinomia expressa pelo symbolismo medieval das Duas Cidades. É pois natural que aos primeiros lampejos da rasão, as cousas religiosas decahissem de respeito, sendo parodiadas sarcasticamente pelo povo nas festas grotescas (Missa do Asno, Festa dos Tolos), e pelos cultos nas satyras pungentes e desenvoltas dos Goliardos.
O Feudalismo, apezar de todas as eminentes qualidades da cavalleria e da heroicidade, tornava-se odioso pela intervenção arbitraria da força. Falhando-lhe os motivos da actividade militar pela estabilidade social da Europa sustadas as duas correntes de invasão do norte e do sul, o Feudalismo foi seduzido pela proclamação das guerras religiosas da Cruzada. A Egreja que temia esse rival, pela absorpção das grandes propriedades, lisongeou-lhe o instincto da guerra, soprou-lhe um delirio de fervor religioso lançando-o para a Palestina. É no momento em que o Feudalismo se dissolve, que mais deslumbrante se espalha a sua poesia heroica. Os Barões longe dos seus solares, sujeitos á prescripção adoptada do Direito romano pelos jurisconsultos ao serviço da Realeza, feridos na sua nobreza pelo registo dos Livros de Linhagens, privados dos seus direitos immemoriaes pela revogabilidade das doações regias, ouviam soar o sino da communa, que era como a trompa de Gedeão, que fazia cahir por terra os seus castellos. É o sentimento da revolta que inspira as Canções de Gesta celebrando a lucta dos Barões contra o poder monarchico; Carlos Magno foi a figura em volta da qual se centralisaram as lendas das revoltas dos grandes vassallos. N’esta dissolução do Feudalismo, e descredito do ideal guerreiro, as Gestas heroicas tornaram-se satyricas; na Italia cantava-se de preferencia as derrotas de Carlos Magno, e as infamias de seus filhos; em França decahiam na prosa novellesca, e desenvolviam-se os episodios da fabula complexa do Renard. Comte tira nitidamente as deducções d’esta crise social:
«Se o estado catholico e feudal tivesse podido persistir realmente, é indubitavel, a meus olhos, que a expansão esthetica dos seculos XII e XIII, teria adquirido pela sua eminente homogeneidade, uma importancia e uma profundidade muito superiores a tudo o que pôde existir depois, sobretudo quanto á efficacidade popular, verdadeiro criterio das bellas artes. Pela transição rapida, e muitas vezes violenta, que devia realisar-se no curso d’este grande periodo revolucionario, e para a qual a progressão industrial tão poderosamente concorreu, o genio esthetico ficou falho de direcção geral e de destino social. Entre a antiga sociabilidade moribunda e a nova muito pouco caracterisada ainda, elle não pôde bem nitidamente sentir, nem o que sobretudo devia idealisar, nem sobre que sympathias universaes devia principalmente repousar. Tal é, no fundo, a causa progressiva d’esta especialidade exclusiva, que tem até hoje caracterisado a arte moderna, como a industria e como a sciencia tambem, por falta de uma generalidade realmente preponderante. Bem longe de estar degenerado, o genio esthetico tornou-se com certeza mais extenso, mais variado e mais completo mesmo, como nunca o conseguira na antiguidade; porém, apezar das suas eminentes propriedades intrinsecas, a sua efficacidade devia então ser muito menor, em um meio social que lhe não podia offerecer nem a nitidez, nem a fixidez indispensavel para o seu livre desenvolvimento. Obrigado a reproduzir as emoções religiosas ao passo que a fé se extinguia, e a representar os costumes guerreiros a populações cada vez mais entregues a uma actividade pacifica, a sua situação radicalmente contradictoria devia prejudicar-lhe a realidade fundamental dos seus effeitos exteriores, mas tambem a das proprias impressões interiores, até aos tempos ainda remotos em que a regeneração final da humanidade virá offerecer-lhe um meio mais favoravel ao seu pleno desenvolvimento, em consequencia de uma homogeneidade e de uma estabilidade, que nunca puderam existir no mesmo gráo...»[102]
Contra o poder espiritual da Egreja, a Realeza torna-se protectora de um ensino geral nas Universidades; e contra os arbitrios feudaes estabelece os Ordenamentos e fixa a esphera dos direitos reaes pela restauração da jurisprudencia romana; os Feudos são equiparados á Emphyteuse e ao Usufructo dos romanos. Por outro lado, este começo de renascimento humanista ataca a idealisação épica medieval, á qual tambem se tornavam hostis os moralistas catholicos. É n’esta instabilidade, que caracterisa o fim da Edade media, que as linguas romanicas se acham aptas para as obras litterarias, mas os themas da idealisação religiosa e heroica acham-se insignificativos para o sentimento.
Comte explica como: «o estado social da Edade media constitue sob todos os pontos de vista, o berço necessario da grande evolução esthetica das sociedades modernas.» E observa como esta longa crise de transição historica, pela instabilidade social não deixou chegar á perfeição os themas artisticos idealisados na poesia moderna: «A expansão esthetica não faz suppôr sómente um estado social bem fortemente caracterisado para comportar uma idealisação energica: exige, além d’isso, que qualquer que fôr esse estado seja bastante estavel para permittir espontaneamente, entre o interprete e o espectador, esta intima harmonia prévia, sem a qual a acção das bellas-artes não conseguiria obter habitualmente uma plena efficacidade. Ora estas duas condições fundamentaes, naturalmente reunidas entre os antigos, nunca mais puderam sêl-o depois em um gráo sufficiente, mesmo na Edade media,...»[103] «Assim a fonte essencial d’esta singular hesitação social que caracterisa a arte moderna, e que tanto neutralisou até hoje a universalidade necessaria da sua influencia contínua, depois da sua primeira evolução tão firme, tão original e tão popular na Edade media, deve ser directamente procurada na inevitavel instabilidade do estado social correspondente, suscitando sempre novas transições successivas. Uma profunda e perseverante elaboração esthetica era certamente impossivel entre populações em que cada seculo, e algumas vezes mesmo cada geração modificava mui notavelmente a sociabilidade anterior para que cada geração determinada tivesse já essencialmente cessado antes que o poeta ou o artista podessem n’ella contrahir sufficientemente a intima penetração espontanea indispensavel á acção das bellas artes. É assim, por exemplo, que o espirito das Cruzadas, tão favoravel á mais poderosa poesia, tinha irrevogavelmente desapparecido quando as linguas modernas puderam achar-se assás formadas para permittir-lhe a plena idealisação; ao passo que entre os antigos, cada modo effectivo de sociabilidade tinha sido de tal modo duravel, que o genio esthetico podia tornar a sentir e tornar a achar, depois de muitos seculos, paixões e affectos populares essencialmente identicos áquelles de que queria representar o imperio anterior.»[104]