[92] Gramm., p. 85.

[93] Ibid., p. 81.

[94] Dialog., p. 229.—Como comprovando esta affirmação escrevia Radau, referindo-se a Malaca, ao fim de trez seculos de decadencia do nosso poder: «O idioma que ahi se falla hoje ao lado do inglez é uma especie de phenomeno philologico: é o portuguez despojado das suas terminações, e por assim dizer, reduzido a raizes. Os verbos não têm tempos nem modos, nem numeros, nem pessoas; os adjectivos perderam o feminino e o plural. Eu vai, significa eu vou, eu tenho ido, eu irei, segundo as circumstancias. Algumas palavras do malaio completam esta lingua que representa um curioso exemplo de retrocesso ao estado primitivo.» (Un Naturaliste dans l’Archipel Malais, Rev. des Deux Mondes, vol. 83, p. 679.)

[95] Obras, t. I, p. 64.

[96] Europa na Edade media, t. I, p. 347.

II
Elementos dynamicos da Litteratura

As instituições sociaes no seu funccionamento normal, transformando-se e acompanhando o progresso humano nas varias cathegorias da evolução economica, politica e moral, e do seu desenvolvimento esthetico, scientifico e philosophico, são como uma energia ou um organismo em estado dynamico. As Litteraturas como expressão da affectividade, reflectem todos os impulsos d’estes varios factores do progresso social, e modificam-se continuamente obedecendo a esse dynamismo. Costumes estaveis e opiniões conscientes criam uma sociabilidade que se alarga pelo sentimento de patria; sentimentos collectivos é que determinam pela necessidade da sua expressão a elaboração esthetica de uma litteratura e de uma arte nacional. A Edade media é o grande campo historico em que as raças barbaras da Europa, depois da ruina do Imperio romano, foram espontaneamente estabelecendo as suas bases de ordem, e organisando-se em novas nacionalidades, que se tornaram por um concurso successivo instrumentos de progresso, como continuadoras da Civilisação occidental. Essas novas nacionalidades foram remodelando os antigos poderes temporal e espiritual no Feudalismo e na Egreja; reconstituindo a familia pela elevação moral da mulher; nobilitando o trabalho pela emancipação das classes servas no proletariado que se tornou o terceiro-estado; creando as linguas romanicas, e uma arte original, sobretudo a architectura e a poesia, para exprimirem este espantoso concurso de sociabilidade. As nacionalidades modernas ao cooperarem n’este movimento, exerceram uma acção hegemonica umas sobre as outras, as mais adiantadas, como a França, sobre as mais rudimentares ou mais remotas. As Litteraturas meridionaes, franceza, italiana, hespanhola e portugueza foram a consequencia d’esta vasta organisação do Occidente, actuando sobre o desenvolvimento das linguas romanicas, e tornando-as aptas para exprimirem poeticamente os sentimentos d’esta mais ampla sociabilidade, e logicamente os pensamentos de uma mais profunda capacidade intellectual. Uma mesma noção, como observou Littré, rege a historia politica e a historia litteraria das nações occidentaes; é impossivel conhecer uma sem a outra. N’este longo periodo de transição entre o mundo antigo e a edade moderna, a Edade media apparece como uma éra de transição; n’ella se criam as condições staticas do futuro progresso humano. É na Edade media que existem todos os germens tradicionaes e estheticos, que receberam ulteriores fórmas conscientes de Arte e de Litteraturas; mas esse mesmo caracter de transição, tirou á estabilidade das instituições, das opiniões e dos interesses sociaes uma continuidade necessaria para serem idealisados lentamente e generalisarem-se como thema de obras bellas. Comte notou admiravelmente esta caracteristica da Edade media, que veiu a influir na vacilação das Litteraturas modernas; bellos germens para uma larga e fecunda elaboração esthetica, e transformações rapidas, ou crises revolucionarias na sociedade europêa alterando as sympathias pelo passado, e fazendo cahir na indifferença os themas da idealisação. O que é o caracter satyrico, predominante nas Litteraturas romanicas, como observou J. J. Ampère, senão a consequencia do desprezo dos velhos themas religiosos e heroicos, quando os dois Poderes espiritual e temporal entraram em uma dissolução no seculo XII? O que é o prurido da imitação classica das Litteraturas greco-romanas, da Renascença humanista até ao pseudo classicismo francez, senão a desorientação d’essa instabilidade social, que procura novas bases de ordem? É d’esta instabilidade que resultou o antagonismo que Frederico Schlegel definiu nas litteraturas modernas, entre os seus germens medievaes espontaneos e a auctoridade dos modelos classicos impostos pela imitação erudita. Comte penetrou a essencia do problema, deduzindo-o do phenomeno da dissolução do regimen catholico-feudal com que termina a Edade media. A evolução esthetica medieval inspirára-se de todos os elementos sociaes existentes: do militar ou feudal, na idealisação das epopêas ou Gestas heroicas; do theologico ou sacerdotal, na hymnologia, na arte architectonica, na musica e nas riquissimas lendas populares; do industrial, na coordenação dos cantos lyricos, das Festas civicas e dramaticas; e por ultimo d’esse estado mental do positividade ou de criterio de bom senso, que reage contra os preconceitos e avança para a comprehensão scientifica e philosophica, que tanto transparece nas satyras e nos contos. Alterados estes elementos sociaes, toda essa riqueza esthetica da Edade media ficou prejudicada, justamente quando o novo grupo das Linguas romanicas estava apto para dar-lhes expressão na elaboração das Litteraturas modernas occidentaes. Observemos pois o processo, em que as Litteraturas acompanham a intensa crise social e mental d’esta longa phase revolucionaria que vae do seculo XII até ao seculo XIX, reflectindo os seus principaes movimentos.

§ 1.—A Edade media

(HEGEMONIA DA FRANÇA)

A Edade media é a origem de todas as fórmas da evolução esthetica moderna; n’essa grande época de elaboração fecunda, as manifestações dos sentimentos pessoaes, domesticos e sociaes, que correspondem ao lyrismo, ao drama e á epopêa, acham na transformação da vida collectiva estimulos para se desenvolverem estes caracteres do individualismo humano. Comte esboça com nitidez esta evolução esthetica, que se alarga idealisando as emoções de cada um dos elementos sociaes que se debatem, o feudal ou militar, o theologico ou sacerdotal, o industrial ou proletario, e o positivo ou esse estado mental tendendo a julgar pela observação: «Sendo as faculdades estheticas por sua natureza, essencialmente destinadas á ideal representação sympathica dos sentimentos que caracterisam a natureza humana, pessoal, domestica ou social, o seu desabrochamento especial, seja qual fôr o ascendente que se lhe attribua, não bastava para definir na realidade a civilisação correspondente.» E continúa deduzindo da Edade media as condições para a grande expansão esthetica moderna: «um estado social tão fortemente pronunciado como o da Edade media—verdadeira fonte necessaria da evolução esthetica das sociedades modernas.—Os costumes feudaes tinham desde logo impresso aos sentimentos de independencia pessoal uma energia habitual até então desconhecida; ao mesmo tempo a vida domestica fôra sobretudo commumente embellezada e alargada, muito além do que fôra possivel aos antigos, principalmente em virtude das felizes mudanças effectuadas na condição da mulher; finalmente, a actividade collectiva, quando ella pôde então ser convenientemente exercida, deveria com certeza constituir uma fonte não menos poderosa de inspirações poeticas e artisticas, segundo a nova convergencia moral que devia apresentar o grande systema das guerras defensivas peculiar a esta memoravel phase da humanidade.»[97]