Vê-se que a fórma lyrica bretã do Lai, que encantava a Europa, tinha tambem de reflectir-se em Portugal; o trovador Gonçalo Eannes do Vinhal allude á imitação constante de cantares:

senon aquestes de Cornualha,

mays estes seguidos ben sem falha,

e nom vi trobador per tantos logares.

(Canç. 1007.)

Em uma canção de Fernão Rodrigues Redondo, (n.o 1147) refere tambem esta fórma: «Muy ledo seend’hu cantara seus lays...» O lay tornou-se narrativo, vindo a desenvolver-se nos longos e interessantes poemas de aventuras e amores. No Cancioneiro Calocci-Brancuti foram colligidos cinco Lais, dos que estavam mais em voga na côrte de D. Diniz; são o Lai de Elis o Baço, trez de Don Tristan, e o Lai das Quatro Donzellas. No Poema de Alfonso Onzeno, do seculo XIV, falla-se em: «la farpa de Don Tristan

O enthuziasmo pelos cantos lyricos provocou o seu desenvolvimento em poemas narrativos da Bretanha; assim, figuras quasi sem realidade historica, como o rei Arthur, servem de thema ás ficções da Tavola Redonda, e ás reminiscencias das luctas da nacionalidade celtica contra os Romanos e Saxões; e Merlim, ultimo vestigio da resistencia do druidismo contra o christianismo, não achando mais interesse nas prophecias, torna-se o amante da fada Viviana; os amores de Tristão e de Yseult, de Flores e Brancaflor fascinam todos os povos da Europa, e para satisfazer esse interesse, desenvolvem-se em extensas novellas. É na Bretanha continental que estes assumptos são elaborados no seculo XII, e propagados pelos Normandos: «Cousa estranha! foram os Normandos, isto é, de todos os povos o menos sympathico aos Bretãos, que espalharam a fama das fabulas bretãs. Espirituoso e imitador, o Normando tornou-se por toda a parte o representante eminente da nação á qual anteriormente se impuzera pela força. Francez em França, inglez em Inglaterra, italiano na Italia, russo em Novegorod, o normando esqueceu a sua propria lingua para fallar a lingua do povo que elle tinha vencido e tornar-se o interprete do seu genio. O caracter vivamente accentuado dos romances gaulezes não podia deixar de ferir homens tão promptos a apanhar e assimilar as ideias do estrangeiro. A primeira revelação das fabulas bretãs, a Chronica latina de Geoffroy de Monmouth, appareceu por 1137, sob os auspicios de Robert de Glocester, filho natural de Henrique I. Por estas mesmas narrativas se apaixonou Henrique II, e a seu pedido Robert Wace escreveu em francez, em 1155, a primeira historia de Arthur, e abriu a marcha a que se arrojou uma multidão de poetas ou de imitadores francezes, provençaes, italianos, hespanhóes, inglezes, scandinavos, gregos, georgianos, etc.»[131]

Os elementos d’estes poemas são vagos dados historicos, que pela sua obscuridade foram desenvolvidos em lendas, que se ampliaram depois em phantasias poeticas; esses dados historicos resumem-se em dois factos, um politico, que se refere ás luctas com que o rei Arthur sustentou a liberdade nacional da Bretanha contra a invasão dos Saxões; o outro é religioso, consagrando a resistencia com que a Bretanha se considerava christã pela doutrinação evangelica de Joseph ab Arimathia, e por tanto independente da Egreja de Roma á qual se tinham convertido os Saxões. Tal é o dado essencial dos poemas do Santo Graal e da Cavalleria celeste, que deriva d’essa autonomia das Egrejas nacionaes da Francia meridional e da Hespanha, que se consideravam proto-cathedricas. Foram os Normandos que se apropriaram d’estes germens épicos da Bretanha insular e lhe deram o brilhantismo com que seduziram o mundo; e por isso mesmo que essas tradições não eram suas, mais as diluiram no vago, no maravilhoso, fazendo o syncretismo de todas as ficções provenientes de varios povos pelo encontro das Cruzadas, pelas relações com os Arabes, pela leitura da Biblia e dos escriptos dos rabbinos convertidos e já pela erudição da Antiguidade classica.[132] Os Normandos, occupando a Inglaterra, pareciam aos Bretãos como que os seus vingadores sobre os seus antigos dominadores Saxões: «os Bretãos não estiveram longe, se dermos credito a algumas indicações contemporaneas, de vêrem no vencedor de Harold um libertador, quasi uma incarnação do rei Arthur. Os companheiros de Guillaume podiam então acceitar, como cantos de sua propria gloria, as tradições poeticas creadas pelo odio ao Saxão que elles acabavam de vencer pelas armas, mas que não estavam ainda subjugados nem socialmente, nem politica, nem religiosamente. Qualquer que fosse a sympathia que os novos conquistadores pudessem sentir pela poesia das populações indigenas, qualquer que fosse a relação que taes lendas pudessem ter com o seu proprio genio, elles eram sempre estrangeiros, estrangeiros orgulhosos, e arrogando-se o direito de tratarem como senhores a litteratura bretã. A lingua empregada n’esta litteratura não lhes era familiar, a significação d’estas tradições era para elles obscura, e não comprehendiam bem o alcance philosophico e patriotico; não penetravam todo o conjuncto dos cantos dos bardos, e o vago que era inherente a estes cantos tornava-os mais obscuros, e para elles os fazia ainda mais ideaes.»[133] Era esta situação que dava aos troveiros normandos a liberdade de crearem sobre vagos nomes de heroes e de symbolos nacionaes essa riqueza phantastica dos poemas da Tavola Redonda e do Santo Graal, confundindo com figuras historicas fadas, gigantes, anões e adivinhos, animaes monstruosos, dragões, bebidas magicas e philtros amorosos, encantamentos, e poderes talismanicos das espadas invenciveis. Compondo especialmente para as côrtes, exaltavam a galanteria e tornavam-n’a o culto da mulher, aproveitando assim a tendencia iniciada pela idealisação dos trovadores. O symbolismo da Cavalleria, dos passos de armas, dos torneios, dos votos denodados, lisongeava a paixão dos Barões feudaes, que iam decahindo diante da crescente dictadura monarchica. E como as Cruzadas acabavam, a imaginação dos nobres precisava de uma outra cruzada, a da Cavalleria celeste em procura do Santo Graal, vindo assim a confundirem-se os dois cyclos poeticos, mais mysticos nos poemas dos minnesingers allemães, mais guerreiros e amorosos entre os troveiros francezes. Essa fecundissima actividade poetica que veiu sobrepôr-se á imitação das Canções dos trovadores e á attenção pelas Gestas frankas, espalhava por toda a parte os romances da Tavola Redonda, em prosa: o Santo Graal e Demanda do Santo Graal, o Tristão, Lancelot, Merlin, Morte de Arthur, Giron le Courtois, Palamedes, Meliadus; e em verso os romances do Perceval le Gallois, La Charrette, Chevalier au Lion, Erec et Enide, Cliges, Loucura de Tristão, Frejus, Jaufre, Atre périleux, Claris et Laris, Chevalier à l’Epée e La Dame à la licorne.

Todas estas ficções lidas e escutadas nas côrtes tendiam a confundir-se na imaginação produzindo situações romanescas, que vieram depois a constituir uma nova fórma de idealisação—a Novella de Cavalleria, de que o typo fundamental é o Amadis de Gaula. Os nomes dos personagens d’estes poemas foram adoptados na sociedade civil em Portugal, e é frequente encontrarem-se nos Nobiliarios as Viviana, Iseu, Ausea ou Ausenda (de Yseult), as Ginebra (de Gwenivar), as Briolanja (Brengienne), os Arthur, Percival, Lisuarte, Lançarote, Tristão, desde o seculo XIV até ao fim do seculo XV. Que prova mais evidente do interesse que produziram em Portugal os poemas da Tavola Redonda.

Esta nova corrente litteraria e erudita veiu interromper a elaboração e a propagação das Gestas frankas: em 1155 estavam as Gestas no seu esplendor e fecundidade, quando appareceu o Roman de Brut, de Robert Wace, d’onde diffluiram depois todos os romances da Tavola Redonda. A Bretanha insular e a Armorica provindo de uma mesma origem, collaboraram diversamente n’estes poemas que tiveram por centro o rei Arthur; as tradições bardicas e mesmo christianisadas conservaram-se nas populações insulares, mas só foram desenvolvidas litterariamente pelos troveiros normandos ou continentaes. Foi assim que a Inglaterra recebeu a sua materia poetica elaborada artisticamente pelo genio gallo-bretão. Paul Meyer fundamentou este facto: «que o francez tendo-se implantado em Inglaterra depois da conquista, a litteratura das classes elevadas foi, durante mais de dois seculos, inteiramente franceza, não só pela origem, como pela lingua.»[134]