O Roman de Brut, de Robert Wace, acha-se aproveitado como documento historico pelo Conde Dom Pedro no seu Nobiliario, fazendo a genealogia e contando o nascimento do rei Arthur:
«E hum dia teue corte (o rei Uterpandragon) e forom hi todos seus ricos homeens com sas molheres. E veo hi hum Conde de Cornoalha e trouve hi sua molher que avia nome Ygerna, e veo muy bem afeitada e muy ricamente aparelhada, e ella era a mais fermosa molher de toda a terra. E quando vieerom aa mesa hu se assentou elrrey a comer oolhoua elrrey e nom pode mais comer, tanto se pagou d’ella, e nom fazia all senon oolhala dos olhos. E pensou em seu coraçom que se com ella nom jouvesse que morria. Este Conde seu marido soubeoo e levantou-se da mesa com sa molher e foysse para huum seu castello que avia nome Tinteol. E elrrey foyo cercar com toda sua oste, e emviou por Merlin e veo a elle por seu comsselho e ouve elrrey por molher esta dona, e ouve della huum filho que ouve nome Artur o que disserom Artur de Bretanha, onde ouvistes fallar que foy muy boo.»—«Morreu Uterpandragom e rreynou seu filho Artur de Bretanha, e foy boo rey e leal, e conquereu todollos seus emmiigos e passou por muytas aventuras e fez muytas bondades que todollos tempos do mundo fallarom delle. Este rrey Artur fez huum dia em Chergeliom (Caerleon) sa cidade cortes. E estas cortes forom muy boas e muy altas. A estas cortes veerom doze cavalleiros messageiros que lhe enuiaua Luçius Liber que era emperador de Roma que sse fezesse seu vassallo rey Artur e que teuesse aquella terra de sua mãao. E se esto não fezesse que lhe mandaria tolher a terra por força e que faria justiça de seu corpo. Quando esto ouviu o rrey Artur foy muito irado e mandou chamar toda sa gente que armas podiam levar. E quando foy a Sam Miguel em monte Gargano combateosse com o gigante que era argulhoso e vençeo e matou; o Luçius Liber quando soube que rey Artur hia sobre elle chamou sa oste e toda sa gente e sayolhe ao caminho. E lidarom ambos e vençeo elrrey Artur foy arrancando ho emperador. E elrrey Artur quando moveu da Bretanha por hir a esta guerra leixou a sa terra a huum seu sobrinho que havia nome Mordech.»—«Este Mordech que avia a terra em guarda do rrey Artur e a molher quando elrrey foy fóra da terra, alçousse com ella e quislhe jazer com a molher. E elrrey quando o soube tornousse com sa oste o veo sobre Mordech. E Mordech quando o soube filhou toda sa companha e sayo a ella aa batalha. E elles tiinham as aazes paradas para lidar no monte Cambelet, e acordousse Mordech que avia feito grande traiçom e se entrasse na batalha seria vençido. E enviou a elrrey que saysse a departe e falaria com elle, e elrrey assy o fez. E elles que estavam assy em esta falla sayo huma gram serpente do freo a elrrey Artur, e quando a vyo meteo mãao aa espada e começou a encalçalla e Mordech outrossi. E as gentes que estavam longe viram que hia huum apos ho outro, e foramsse ferir humas aazes com as outras e foy grande batalha, e morreu Galuam (Gauvain) o filho do rrey Artur, e huma espadada que trazia sobressada, que lhe dera Lançarote do Lago quando entrara em reto ante a cidade de Ganes. Aqui morreu Mordech e todollos boos caualleiros de huma parte e de outra. Elrrey Artur teue o campo e foy mal ferido de trez lançadas e de huma espadada que lhe deu Mordech, e fezesse levar a Islaualon (ilha de Avalon) por saar. D’aqui em diante nom fallemos d’el se he vivo se he morto, nem Merlin nom disse del mais, nem eu nom sey ende mais. Os bretões dizem que ainda he vivo.»[135] Vê-se por este trecho, que o Conde D. Pedro estava ao facto da litteratura da Tavola Redonda seguindo o Roman de Brut, de Robert Wace, e referindo-se ás outras composições dos troveiros normandos, Merlin e Lançarote do Lago, que ainda no seculo XV citava o chronista Azurara. Estava esta litteratura artificiosa em harmonia com os habitos da côrte do rei Dom Diniz, e facilmente se apoderou da predilecção dos trovadores portuguezes; Estevam da Guarda, favorito de Dom Affonso III, falla em uma canção dos amores de Merlin com a fada Viviana:
Como aveo a Merlin de morrer
per seu gram saber, que el foy mostrar
a tal molher, que o soub’enganar...
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E o que lhe é muyto grave de teer
por aquelo que lh’el foy mostrar,
en estar com quem sabe que o pod’ensarrar
en tal logar hu convem d’atender