Scientifico e philosophico, em que cooperam a Italia, a Inglaterra e a França, pela acção de sabios experimentalistas como Galileo, e espiritos syntheticos como Bacon e Descartes.

A Italia creava a philologia, renovando os perdidos estudos dos Alexandrinos, e levando a luz da critica e do gosto aos trabalhos confinados dos eruditos byzantinos. A paixão pela nova sciencia occupava todos os espiritos, desde a cathedra pontifical até ao humilde typographo. Era uma revolução em que a humanidade tomava conhecimento de si mesma; toda a Italia era uma eschola, e de todos os paizes convergiam ali os espiritos ávidos de luz, destacando-se como novos pedagogos Victorino de Feltre e Angelo Policiano.

A corrente humanistica do seculo XV, sob o influxo da Italia reflectiu-se muito cedo em Portugal; vêmol-o pela preoccupação de traduzir-se em latim as chronicas portuguezas, como pelo empenho que levava a realeza e a aristocracia a enviarem estudantes para as escholas italianas. Azurara, que escrevia no reinado de D. Affonso V, falla na sua Chronica da Conquista de Guiné, como reconhecendo os caracteres dos elementos da Republica occidental, «da grandeza dos Allemães, e da gentileza da França, e da fortaleza da Inglaterra, e da sabedoria da Italia.» No primeiro quartel do seculo XVI, Portugal, pela extrema actividade das navegações e colonisações na India e Brazil, não acompanhou a marcha da Renascença; por este atrazo, conta André de Resende que viajou pela Italia e Flandres, que n’esses paizes Portugal era pouco considerado: «quibus Lusitanum nomen gratiosum non est.» Na Oração recitada em 1534 na Universidade de Lisboa, o sabio humanista chama a attenção das intelligencias para a direcção mental da Renascença, apresentando o exemplo da Italia, da Allemanha, da França, da Inglaterra e Polonia.[168] Em Portugal estava-se um pouco afastado d’este movimento litterario, mas o nome portuguez resoava gloriosamente na Europa dominando nas principaes escholas. Os Gouvêas, como pedagogos quer em Paris ou em Bordeus, tinham por discipulos homens como Rabelais e Calvino, Montaigne e Ignacio de Loyola; e Erasmo contava entre os seus principaes amigos a Damião de Góes. Em breve destacaram-se da activa phalange dos humanistas do seculo XVI, na Europa, os portuguezes André, Antonio, Diogo e Marçal de Gouvêa (uma dynastia de pedagogos), Achilles Estaço, Ayres Barbosa, André de Resende, Aleixo de Sequeira, Diogo de Teive, Damião de Góes, Francisco de Fontes, Antonio Luiz, D. Francisco de Mello, D. Fructuoso de Sam João, Jeronymo Cardoso, Jorge Coelho, Henrique Caiado.

O humanismo italiano decaiu depois da tomada de Florença, appresentando a França o esplendor dos estudos philologicos, pela acção que os jurisconsultos como Cujacio, Hotman e Pithou exerceram pela analyse dos textos do direito romano, tratando de recompôr a vida social através da interpretação das leis. Era a applicação do methodo juridico, exacto e severo, ás obras da litteratura para revelarem o meio social. Como na Italia, o humanismo francez decahiu por causa das guerras religiosas, e pelo empirismo secco e improgressivo do ensino jesuitico. Esta situação do Humanismo, que se tornára critico exercendo-se sobre os Livros biblicos, cooperou n’esse outro phenomeno social da regeneração do christianismo tentada sob o titulo de Reforma. Os humanistas, principalmente os da eschola hollandeza, eram chamados erasmistas, para significar a sympathia que sentiam pela revolução religiosa, tornando-os responsaveis das finas e livres ironias de Erasmo. Assim como Ayres Barbosa e André de Resende representam o humanismo italiano em Portugal, e Antonio de Gouvêa e Diogo de Teive representam o Humanismo francez, o nosso grande chronista Damião de Góes é o representante d’esse outro humanismo, que desde Erasmo a Heinsius e Grotius, pela vida prática de uma san democracia se identifica completamente com a comprehensão historica da civilisação antiga.

A ideia e aspiração de uma reforma na Egreja, que se manifestou na Allemanha pela simples aspiração a uma remodelação da hierarchia sacerdotal, apparece no seculo XVI agitando muitos espiritos dentro da orthodoxia: e assim um rei catholico e outro fidelissimo intervêm pedindo ao papa que tome essa iniciativa. É frequente encontrar-se nos escriptores do principio do seculo XVI uma nota satyrica contra a Egreja e o theologismo que se agarrava ás argucias do scholasticismo medieval. E assim como Luciano, na dissolução do polytheismo hellenico satyrisava os deuses, em França Rabelais dissolve os velhos preconceitos do regimen catholico-feudal pelos sarcasmos do Pantagruel e de Gargantua, e o cavalleiro de Hutten na Epistolae Obscurorum Virorum, abala o carcomido throno da escholastica e da esteril theologia que atrophiavam a rasão humana.

Em Portugal é Gil Vicente o escriptor que se inspira com toda a decisão no espirito critico d’esta primeira phase da Reforma. É sublime esta grande alma, rebaixando-se á situação de actor (auctor et actor) para dizer diante da realeza quanto era necessario actuar sobre a hierarchia religiosa moralisando-a. São de uma audacia extrema os seus versos contra Roma. Os eruditos da Renascença em Portugal eram contrarios a Gil Vicente; mas ninguem como elle representou nos seus Autos e Farças a vida nacional, e se inspirou mais ingenuamente d’essa espontaneidade popular para exprimir a aspiração da sua época—a reforma da Egreja, iniciada por ella propria.

Um outro humanista, que citava Gil Vicente como auctoridade philologica, o grammatico Fernão de Oliveira, tambem seguiu as ideias da Reforma, porém na phase mais adiantada da transformação da disciplina. Os estudos criticos dos exemplares da litteratura antiga abriam aos eruditos do seculo XVI um horisonte mais vasto do que a rotina das escholas monachaes com a sua Arte velha de Pastrana ou de Alexandre Villa Dei. Os habitos da exploração dos textos desenvolvia o espirito de livre-exame; a intelligencia avesada a interpretar palimpsestos, a restituir a lição dos auctores classicos, a restabelecer os textos truncados, a compenetrar-se do sentimento da antiguidade, não podia abnegar da sua supremacia, e applicára o mesmo processo á Biblia e aos Evangelhos. Foram os humanistas e os philologos que mais concorreram para a obra da Reforma; por isso os Jesuitas, reagindo contra o Protestantismo, tornaram-se essencialmente pedagogos apoderando-se do humanismo. Em Portugal vieram contraminar a obra do renascimento litterario superiormente dirigida por André de Gouvêa e por Diogo de Teive. Antes de ter cahido na illaqueação jesuitica, D. João III tentára attrahir para a reforma da Universidade de Coimbra a Erasmo. Damião de Góes é o que representa em Portugal a corrente da Reforma, não pela manifestação das ideias, por que elle confessa-se sempre orthodoxo, mas pelo seu martyrio, por ser amigo pessoal de Erasmo, por ter tratado com Luthero, quando esteve na Allemanha, e com Melanchton. Em uma confissão no Santo Officio declara: «Depois que vim a Portugal ... El Rei ... e os Infantes seus irmãos, e outros senhores do reino, me perguntaram com muito gosto e mui particularmente pelo discurso de minhas peregrinações, fallando-me em Luthero e nas cousas da Allemanha ... e por El Rei saber que vira eu já Erasmo Rotherodamo e que eramos amigos, me perguntou algumas vezes se o poderia eu fazer vir a este regno pera se d’elle servir em Coimbra.» Por intervenção de André de Resende é que viera tambem para Portugal o celebre humanista Nicoláo Clenardo.

Uma certa sympathia pessoal e litteraria existia entre Damião de Góes e Gil Vicente; fallando em humanidades com Erasmo inter pocula, teve occasião de lhe inspirar curiosidade pela obra dramatica de Gil Vicente, que elle vira representar na sua mocidade na côrte de D. Manoel. Na relação das festas feitas em Bruxellas pelo embaixador D. Pedro de Mascarenhas pelo nascimento do princepe D. Manoel, em 1532, vem o nome de Damião de Góes como um dos que assistiu á representação do Auto da Lusitania, escripto n’esse anno por Gil Vicente, e repetido n’aquella côrte.

Uma das grandes influencias da Reforma, que a ligam ao movimento do humanismo da Renascença foi a summa importancia que se deu ao estudo do hebreu e do grego; as polemicas religiosas, as traducções da Biblia em vulgar, a leitura dos padres da egreja para a controversia, exigiam conhecimentos d’essas duas linguas, que estimulavam o criterio philologico. Melanchton recommendava aos seus discipulos Homero e S. Paulo; é tambem um sectario da Reforma, Fernão de Oliveira, que em 1537 publica a primeira Grammatica portugueza, plagiada por João de Barros para auxiliar a catechese de uns princepes indianos que vieram a Portugal. André de Resende recommendava aos alumnos da Universidade de Lisboa a alliança do grego com o latim; na reforma da Universidade em 1547, vieram de Paris para mestres de grego o Dr. Fabricio e Buchanan, para hebraico Rosetto. Pouco depois tiveram de fugir de Portugal, ao terror inquisitorial que os perseguia pela mão occulta dos jesuitas, para se apoderar da disciplina humanista. Em Jorge Ferreira de Vasconcellos, Dr. Antonio Ferreira, Sá de Miranda e Garcia de Resende, acham-se referencias ao nome de Luthero, e á injuria terrivel da accusação de lutherano. Na epopêa de Camões, em que está implicito todo o espirito da Renascença, ha uma nota de aversão contra o movimento da Reforma:

Vêdel-os Allemães, soberbo gado