A França precedeu a Italia na iniciativa e influencia do genio esthetico na Edade media, como o proclamou Dante com toda a superioridade do seu espirito; Comte, consignando o facto, explica-o: «ora esta incontestavel diversidade historica parece-me dever ser sobretudo attribuida á menor consistencia da ordem feudal na Italia, apezar da acção mais especialmente favoravel que o catholicismo ali devia exercer sobre o desenvolvimento inicial das bellas-artes.»[161] Poderia a Egreja provocar o desenvolvimento da architectura e artes ornamentaes, mas bastava sustentar o principio de que a sociabilidade polytheica era inferior á christã, para desviar os espiritos da admiração das obras da antiguidade. A queda do regimen feudal envolvendo a do regimen catholico alterou a estabilidade da Edade media, e deixou as capacidades estheticas sem elementos sérios de idealisação; tal foi a causa de se procurar na civilisação polytheica greco-romana, já o typo ideal para a imitação artistica, já as fórmas sociaes para o estabelecimento de um regimen politico, como se vê no esforço laborioso dos Humanistas e dos Jurisconsultos. Comte propõe com a maxima clareza a causa da Renascença: «Se o estado catholico e feudal tivesse podido persistir realmente, não é duvidoso, a meu vêr, que a expansão esthetica dos seculos XII e XIII teria adquirido, pela sua eminente homogeneidade, uma importancia e uma profundidade muito superiores a tudo o que tivesse podido existir depois, sobretudo quanto á efficacidade popular, verdadeiro criterio das bellas-artes. Pela transição rapida, e muitas vezes violenta, que com frequencia tinha de effectuar-se no decurso d’este grande periodo revolucionario, e ao qual a progressão industrial tão poderosamente contribuiu, o genio esthetico teve necessariamente falta de direcção geral e de destino social. Entre a antiga sociabilidade expirante, e a nova pouco caracterisada ainda, não pôde bem nitidamente sentir o que devia sobretudo idealisar, nem sobre que sympathias universaes elle devia principalmente repousar.»[162] É d’esta instabilidade social que deduz Comte a «alteração notavel, vãmente qualificada de regeneração das Bellas-Artes, e que sob muitos aspectos, constituia mais de que tudo uma tendencia retrograda, inspirando uma admiração muito servil e muito exclusiva pelas obras primas da antiguidade relativas a um systema inteiramente differente de sociabilidade.»[163]
Na grande crise revolucionaria, em que á vida guerreira do Feudalismo se contrapõe a actividade pacifica do proletariado e da elevação da vida domestica, a expansão industrial vem espontaneamente estimular as capacidades estheticas. E como a Italia era entre os orgãos da Republica occidental, a que pela sua separação do feudalismo e regimen municipalista mais avançava para a liberdade civil da burguezia, achou muito cedo novos elementos de idealisação, quer na autonomia critica, como em Dante com a Divina Comedia, quer no sentimento do amor como na Vita Nuova e em Petrarcha nos Sonetos e Canções, quer nos quadros da vida domestica, como Boccacio conseguiu representar nos Contos e Novellas, rudimentos essenciaes que precederam a caracteristica creação moderna do Romance. Mas a instabilidade não era simplesmente social; era essencialmente mental, e foi sob este aspecto que se manifestou o espirito critico contra a Egreja, e a necessidade de construir uma nova synthese especulativa. A antiguidade classica apresentava profundos philosophos, para serem consultados na formação de uma tal synthese, e incomparaveis poetas e artistas, para fornecerem typos estheticos para a imitação. Assim a Italia que avançava para o estabelecimento das fórmas definitivas da litteratura moderna, como se vê pelo lyrismo petrarchista e pelas narrativas novellescas, ao entrar no seculo XV, e mesmo no esplendor do seculo XVI, não tornou a appresentar uma pleiada como Dante, Petrarcha e Boccacio. A imitação da antiguidade classica tornou-se uma necessidade, uma como disciplina do gosto, na instabilidade das emoções abaladas pelas alterações do meio social. Observa-o Comte: «Uma apreciação mal aprofundada, conduz mesmo, ao que me parece, que a imitação mais ou menos servil da arte antiga, deveu desde logo, por uma reacção necessaria, tornar-se para a arte moderna um meio facticio de supprir provisoriamente, ainda que de uma maneira imperfeitissima, a esta lacuna fundamental, que o progresso da transição revolucionaria devia tornar cada vez mais funesta á marcha das bellas-artes... Não podendo achar em volta de si uma sociabilidade bem caracterisada e assás fixa, a arte moderna imbuiu-se naturalmente da sociabilidade antiga, tanto quanto podia permittil-o uma ideal contemplação, guiada pelo conjuncto de monumentos de todos os generos, etc.»[164]
O abandono ou desprezo pelas obras classicas greco-romanas durante a Edade media, facilitára em certa fórma a espontaneidade e originalidade do genio esthetico moderno; mas um tal abandono era a consequencia do desdem com que esse passado e edade polytheica eram considerados pelo catholicismo em relação ã nova sociabilidade europêa:
«Convém notar, que uma tal tendencia era, na Edade media, intimamente ligada ao preconceito universal, tão justamente estabelecido pelo catholicismo, sobre a preeminencia fundamental do novo estado social comparado ao antigo.»[165] A época da Renascença caracterisa-se por uma profunda admiração pelas obras e até pela constituição social d’esse passado polytheico; como se deu uma alteração tão profunda no gosto e no criterio, apparecendo a Edade media como barbara, como uma edade de trevas? Desde que a Egreja deixou de acompanhar o progresso da sociedade europêa, e o Poder espiritual se materialisou nas fórmas de uma soberania terrena, estabeleceu-se uma reacção nos espiritos, levando os que eram crentes para a preoccupação de uma Reforma, dentro da propria orthodoxia da Egreja, e os que se emancipavam da credulidade, a acharem no estado de consciencia do mundo antigo greco-romano manifestações mais bellas em quanto á situação moral e social. A revivescencia das obras primas da antiguidade obedecia a um certo espirito revolucionario, já contra a Egreja, e mesmo contra as Monarchias, como se observa no Humanismo francez e no hollandez. Comte notou um d’estes aspectos revolucionarios: «Esta relação natural, mesmo ulteriormente contribuiu, em sentido inverso, para a resurreição da litteratura antiga, na qual tantos espiritos cultivados procuravam, máo grado seu, uma especie de protesto indirecto contra o espirito catholico, desde que elle deixou de ser sufficientemente progressivo.»
Causas especiaes actuavam na Italia para que ella se apaixonasse pelo esplendor da civilisação antiga, exercendo a sua hegemonia litteraria e artistica desde o seculo XV. Não foram os eruditos exilados de Byzancio que trouxeram á Italia o conhecimento dos monumentos da antiguidade classica; essa tradição não perdera ali a continuidade. Dante tomando Virgilio como mestre e guia (tu duca, tu maestro) e proclamando Homero poeta soverano, define com mais clareza do que qualquer prova historica essa relação entre as duas edades. A cultura da Jurisprudencia romana, fazendo convergir ás Escholas de Italia todos os estudiosos da Europa, preparava para essa cultura humanista, que servia de alivio suave aos espiritos no meio da instabilidade politica de uma sociedade, que aspirava debalde á vida nacional no meio das absorpções e traições dos Papas, da pressão semi-barbara dos Imperadores germanicos, e da indifferença de uma burguezia preoccupada exclusivamente do goso egoista das riquezas do seu trafico. O mundo ideal da Arte era um refugio para as almas mais puras; não podendo estabelecer uma relação com o meio social, fugiram da realidade, procurando nas litteraturas antigas as normas que mais encantavam, e cultivando a expressão esthetica (a arte pela arte) pelo instincto vago da perfeição e não pelo seu destino social. Philarète Chasles accentúa esta situação: «Na Italia, ao contrario do que succedia no norte, as molas da sociedade politica estavam gastas; a galanteria dos costumes, o brilho das artes, o encanto do estudo consolava o paiz d’esta divisão intestina que lhe não permittia ter esperança em uma grande vida nacional. Por confissão dos pensadores e dos escriptores philosophos da Italia, Machiavelli, Bentivoglio e Tasso, a época do seu esplendor intellectual é simultanea com a da decadencia moral. O genio das artes, da belleza do estylo e da fórma attingiram uma perfeição admiravel, sem que a sociedade se elevasse.»—«Tinham surgido á luz Dante, Petrarcha, Boccacio; as republicas tinham cumprido o seu ruidoso destino; a fé politica e religiosa tinham desapparecido; tudo se dissolvia na ardente voluptuosidade dos costumes, no luxo das festas principescas e no culto physico das paixões, da belleza e das artes.»[166] Reflectia-se este estado social nas manifestações dos espiritos, em que a inspiração era um phenomeno psychico de tensão encephalgica, de erectismo nervoso. O genio sobresaía no meio das luctas, n’essa atmosphera de revolução em que respiram os grandes homens. No conflicto constante dos dois poderes o Sacerdocio e o Imperio, a Italia géra os organismos mais extraordinarios da humanidade, como Dante e Francisco de Assis, Miguel Angelo e Machievelli, Petrarcha e Raphael. As impressões vivas dão mais intensidade á existencia; vive-se muito em breves momentos. As melhores épocas da arte italiana coincidem com o veneno dos Borgias; o desterro abre a Dante a selva oscura da sua trilogia épica; a balia de Florença embala o nascimento de Miguel Angelo; a tortura policial ou inquisitorial dá a revelação das leis sociologicas a Machiavelli, e confirma em Galileo a ideia do movimento da terra; a perseguição leva Campanella a conceber a utopia da Cidade do Sol, e a Palestrina a concepção da musica religiosa. Cimarosa, o sonhador divino do Matrimonio secreto, cria um mundo novo de harmonia sob a pressão do despotismo austriaco que lhe deu a morte. A situação historica da Italia, na sua longa aspiração de nacionalidade, explica-nos o caracter e successão dos seus grandes homens. Era-lhe sympathica a sociedade antiga, sob o aspecto da liberdade. Em épocas em que as garantias politicas se acham distribuidas em um justo equilibrio, em que a esphera da acção individual está descripta nos codigos, quando o interesse e o egoismo generalisam virtudes negativas e impõem uma moral chata de um concreto bom senso, o homem de genio acha-se asphyxiado, ridiculo, e para resistir procura confundir-se com a multidão e mascarar-se com o vulgarismo das mediocridades. Pelo contrario, as sociedades antigas favoreciam mais a livre manifestação do bello; na vida do Ágora, do Forum, faziam que o homem se possuisse do respeito do si mesmo; fallava como um deus, não conhecia o ridiculo, determinando-se pelas proprias impressões sem contraste entre si os outros concidadãos. A cada passo tinha de recorrer á revolta, para supplantar as tyrannias; nas festas civicas competia com os mais esbeltos, com os mais ligeiros e os mais fortes. A individualidade italiana lisongeava-se na idealisação da sociedade antiga, e nas suas crises sentia identificar-se n’esse mundo não pela erudição mas pela realidade. A Renascença não era para a Italia uma reconstrucção archeologica, nem uma imitação banal; os eruditos da Egreja e da Curia chegavam á illusão de se crêrem na sociabilidade greco-romana, e de quasi tentarem a substituição do catholicismo, que atravessava a crise de uma reforma, pela alegria exterior e fraternal dos cultos polytheicos. Pela acção dos seus genios individuaes na fórma deslumbrante da arte e poesia, a Italia exerceu uma plena hegemonia em toda a Europa; mas essas manifestações de superioridade não a elevaram, por que a cultura esthetica era exclusiva, absorvente, e independente da disciplina intellectual e de toda a acção prática ou destinação social. É por isso que esse influxo da Renascença se torna entre as outras nações um artificio rhetorico, que se prolonga até ao seculo XVIII, sob as fórmas do Culteranismo e do Arcadismo pseudo-classicos.
D’esta preponderancia do ideal classico na Renascença, escreve Comte com notavel segurança: «Concebe-se facilmente com effeito, que a um systema de composição tão facticio, era preciso egualmente preparar, durante algumas gerações, um publico que o não fosse menos; por que, perdendo a sua originalidade da Edade media, a arte perdia egualmente, e inevitavelmente, a ingenua popularidade que era a recompensa espontanea, e que não se tornou a achar em um tal gráo, mesmo nos casos mais favoraveis. Ainda que a sua natureza geral a destina sobretudo ás multidões, a arte moderna era então forçada, por uma excepção inevitavel, de se dirigir especialmente a ouvintes privilegiados, que uma laboriosa educação tivesse préviamente collocado assim, ainda que em um menor gráo, nas condições estheticas analogas á dos proprios artistas, e sem os quaes não poderia existir, entre o estado passivo de uns e o activo de outros, esta harmonia indispensavel a toda a acção das bellas-artes. Na ordem plenamente normal, uma tal harmonia estabelece-se geralmente sem esforço, de uma maneira muito mais intima, segundo a preponderancia commum do meio social que penetra constantemente e ao mesmo tempo o interprete e o espectador; mas sob esta anomalia provisoria, devia pelo contrario exigir uma longa e difficil preparação.»[167] Comte referia-se ao phenomeno, que tanto actuou na decadencia das litteraturas romanicas pela separação entre os escriptores e o povo, e á laboriosa educação classica europêa, que tornou possivel destacar da imitação antiga algumas obras primas.
a) O HUMANISMO QUINHENTISTA
O phenomeno tão complexo da Renascença, na Europa, abrange segundo o auctor da Historia do Materialismo, dois seculos de actividade, desde o meado do seculo XV até aos fins do seculo XVII. Segundo Comte, que analysou assombrosamente a marcha da sociedade moderna partindo da dissolução do regimen catholico-feudal, esta longa phase da Renascença caracterisa-se por uma revolução mais mental do que social. A Renascença apresenta-se com dois aspectos, um litterario, que leva á imitação das obras primas da antiguidade com desprezo systematico da Edade media, separando a idealisação esthetica dos interesses da sociedade moderna; o outro é scientifico, retomando os conhecimentos que a Grecia nos legou sobre Mathematica e Astronomia, caminhando assim a intelligencia europêa para a creação das sciencias experimentaes, para a elaboração da Physica, e particularmente para a formação de uma nova synthese philosophica. Vê-se que d’estes aspectos um é inorganico, renovando o ideal polytheico, e o outro é impulsivo, restabelecendo a hierarchia theorica dos conhecimentos humanos, partindo da renovação da Mathematica e da Astronomia para a Physica e Chimica. Assim póde-se determinar na successão da Renascença na Europa, os seguintes periodos:
Philologico e artistico, em que prevalece a Italia como impulsora do estudo das litteraturas da antiguidade classica, ou propriamente o Humanismo:
Theologico e critico, resultante do estudo philologico dos livros sagrados, e pelo seu exame conduzindo ás ideias da Reforma religiosa, sendo a Allemanha a impulsora d’este movimento insurreccional dos espiritos: