Pois que direi d’aquelles, que em delicias
Que o vil ocio no mundo traz comsigo,
Gastam as vidas, logram as divicias
Esquecidos do seu valor antigo?...
Comtigo Italia fallo, já submersa
Em vicios mil, e de ti mesmo adversa.
(Lus., VII, 4, 5, 6, 8.)
Camões sentia aqui a solidariedade d’estes elementos da Republica occidental, que quebravam a sua unidade catholica; mas as reacções provocadas pelo Concilio de Trento para restabelecel-a, levaram á depressão intellectual suscitando a fórma social da revolução moderna, desde a monstruosa revogação do Edito de Nantes. Já quando em 24 de Agosto de 1572 chegou a Portugal a noticia da matança da noite de Saint-Barthelemy, celebrou-se esse crime da religião com repiques de sinos e luminarias, e um Te-Deum cantado na egreja de S. Domingos, com sermão do mystico Frei Luiz de Granada. Já nos estudos imperava o espirito que ditára a D. João III, que os estudantes da Universidade fossem «mais catholicos e menos latinos.» Pelo sacrificio á unidade catholica, em 1580, a aristocracia e o povo portuguez sacrificaram a propria nacionalidade. Nos paizes catholicos os Jesuitas mataram o Humanismo pelos seus cursos de Artes, e preparam essas gerações que na litteratura desconheceram o sentimento preferindo á verdade natural o conceito affectado e a figura de rhetorica.
O duplo elemento classico e medieval das Litteraturas romanicas, manifesta-se pela influencia que na portugueza exerceram as litteraturas italiana e castelhana.
I. Antagonismo dos dois elementos classico e medieval.—Em todas as manifestações estheticas do genio moderno, na architectura e na pintura, na poesia como na arte ornamental, appresenta sempre a Renascença uma duplicidade nos meios da expressão do bello: umas vezes o artista conserva-se alheio ao movimento da Renascença idealisando a vida medieval (Gil Vicente), outras vezes desprezando tudo quanto possa recordar o obscurantismo d’essa edade (Dr. Antonio Ferreira e Sá de Miranda) e tambem fazendo o syncretismo dos dois espiritos, como vêmos em Camões confundindo nos Lusiadas as divindades do polytheismo como symbolos poeticos da indole dos symbolos christãos.