Van Bemmel, no seu livro De la Langue et de la Poésie provençales, caracterisa essa duplicidade das Litteraturas da Edade media:

«A actividade intellectual, na Edade media, formava dois mundos inteiramente differentes, tendo cada um seu povo, sua lingua e sua litteratura. De um lado era o elemento novo, espontaneo, essencialmente popular, cheio de vida e de futuro; do outro, o elemento conservador, não tendo mais do que uma existencia facticia, fóra do movimento social, inabalavel e sempre o mesmo ao lado da marcha rapida das ideias. De um lado estava a poesia e a lingua que se chamava vulgar ou romana, espalhadas entre o povo; do outro lado a sciencia e as linguas latina e grega, habitando os claustros, as escholas e as Universidades. E por longo tempo estas duas sociedades tão dissimilhantes viveram uma ao lado da outra, sem se conhecerem, sem se verem.» (p. 6.)

Basta observar o antagonismo entre a civilisação e o poder imperial de Roma, e as raças barbaras da Europa, que vieram a prevalecer na reorganisação social moderna depois das invasões das tribus barbaras da Germania, para se notar que estes dois elementos não podendo unificar-se tinham de alternar-se na sua influencia. Entre a civilisação da Antiguidade classica e o mundo medieval, apparece a religião universalista do Christianismo; no periodo proselytico da sua constituição e da lucta apoiou-se a nova religião nas classes servas, na plebe, adaptando-se ao elemento popular; quando ligada ao poder politico se fortificou pela hierarchia, ou Egreja, a nova religião tentou apoderar-se da missão da unidade de Roma, e tornar-se cultora e depositaria da litteratura latina. O antagonismo entre o clericus e o laicus reflecte-se em toda a vida mental da Edade media. Escreve Gaston Paris, sobre este antagonismo: «A Egreja conservou officialmente a lingua do imperio romano, ao qual se tinha associado intimamente com Constantino; em quanto, na época das suas luctas ella tinha favorecido o desenvolvimento da lingua e da poesia populares, a partir do periodo barbaro, procurou conservar a unidade romana, sequer pelo menos na ordem espiritual, acima de todas as variantes nacionaes. A tentativa de renascença feita por Carlos Magno apoiou-se então essencialmente na Egreja, e desde ahi até aos tempos modernos, a lingua da Egreja foi a da sciencia e a da litteratura elevada. Este estado de cousas creou entre o clerigo e o leigo uma separação profunda que domina toda a historia das litteraturas da Edade media. A poesia popular desenvolveu-se com uma grande espontaneidade e uma liberdade completa; mas ficou privada, pela abstenção dos espiritos superiores e mais cultivados, da perfeição da fórma e da seriedade de fundo, que sem duvida com o seu concurso teria podido attingir. Por outro lado, os clercs fechados nas suas fórmulas tradicionaes e herdeiros muito fieis, dispenderam durante seculos esterilmente uma actividade intellectual consideravel.»[169]

«Na Renascença o clericus e o erudito confundem-se em um mesmo typo, o humanista, que detesta a rudeza medieval e só visa a attingir a perfeição da fórma pela imitação da belleza classica. Póde-se seguir esta predilecção exclusiva através de todas as fórmas geraes da Arte. Na Architectura, á efflorescencia gotica, desenvolvida pelos sentimentos da sociedade catholico-feudal, oppõe-se a reproducção das ordens gregas, propagando esse estylo Bramante, Raphael, Peruzzi, Geminiano de San Gallo. O estylo classico foi propagado em Portugal por Sansovino, de Florença. O conflicto entre os dois estylos, deu logar a uma manifestação architectonica encantadora o gotico florido, chamado manoelino, no qual como nos generos que o antecederam existe, como observou o artista Roquemont alguma cousa de privativo, que pertence unicamente a Portugal.»[170] No Auto da Ave Maria, de Antonio Prestes, escripto por 1529, esboça-se a lucta do estylo classico e do gotico:

MESTRE: E a que vem a esta terra?

DIABO: Mostrar mi saber, mis manos;

suena allá que Luzitanos

su gusto aora se encierra

en edificios romanos.

CAVALL: Eu sou dos que estão postos