De que o Petrarcha fez tão rico ordume:

Eu digo os Proençaes, que inda se sente

O som dos brandos versos que entoaram

As suas musas brandas, brandamente.[172]

Parece que tambem allude aqui ao gosto allegorico, que apparece no Cancioneiro de Resende, recebido da communicação com o lyrismo aragonez. Abrindo os livros das poesias de Sá de Miranda, de Bernardes, de Camões, depara-se logo com dois estylos, no systema de metrificação em octonarios e em endecasyllabos, e na galanteria palaciana differente da expressão de emoções intimas subjectivas. Em um dos generos a estrophe é a quintilha, a decima, as voltas e esparsas que se empregam; no outro é a quadra, o terceto, a sextilha, a outava, com a variação de hemistichios. Ha poetas que nunca metrificaram em endecasyllabos, caracteristico do gosto italiano, como Christovam Falcão, e outros que detestaram o gosto de Cancioneiro, ou castelhano de redondilha, como o Dr. Antonio Ferreira. Houve effectivamente uma alteração do gosto no lyrismo, e uma lucta de implantação, que se observa na historia litteraria de Hespanha e de Portugal, deduzida das proprias composições dos poetas.

A poesia castelhana ficára no mesmo estado em que a deixára João de Mena, sendo estafada nos cancioneiros palacianos; por 1526, Andrea Navagero, embaixador veneziano em Hespanha, fez sentir a Boscan o atrazo d’essa poesia, revelando-lhe as bellezas do lyrismo italiano, do dolce stil nuovo. Por este tempo viaja Sá de Miranda na Italia (Roma, Veneza e Milão) e pelas suas relações litterarias com Ruscellai e Lactancio Tolomei tomou conhecimento das composições dos grandes lyricos italianos; logo no seu regresso a Portugal tentou implantar o novo gosto. Seguiram-no D. Manoel de Portugal, Diogo Bernardes, Pero de Andrade Caminha, o Dr. Antonio Ferreira, Francisco de Sá de Menezes, Frei Agostinho da Cruz. Na ecloga Aleixo, referindo-se á situação de Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda dá a entender que o encantador bucolico tambem tentára o endecasyllabo italiano. A este tempo Garcilasso alliára-se com Boscan contra Castillejos e os mais poetas que sustentavam a preponderancia da poetica da medida velha; Sá de Miranda tambem se queixa de uns pontosos, que reprovavam a sua generosa tentativa. A lucta azedava-se de parte a parte, por que não viam no lyrismo italiano mais do que o uso dos versos grandes, sem comprehenderem a expressão do sentimento philosophico do platonismo, que elevava esse lyrismo. Mas o resultado das questões de eschola entre metreficadores de redondilhas ou de endecasyllabos foi bom: leram-se os mais perfeitos modelos da excelsa poesia italiana, e começou-se a dar preferencia á lingua nacional, que d’antes era abandonada versejando-se em castelhano ou em latim. Ferreira escrevia de si com orgulho: «Ah, Ferreira, dirão, da lingua amigo.» Da mesma imitação italiana tira a auctoridade, referindo-se á Hespanha e á Pléiade franceza:

Garcilasso e Boscão, que graça e spritos

Destes á vossa lingua, que princeza

Parece, já de todas na arte e ditos!

E quem livrou assy a lingua franceza