busca leys de gentileza
no lindo estylo romano.
(Canc. ger.)
É nas fórmas da Poesia que mais nos interessa observar esta corrente do classicismo pela imitação da litteratura italiana.
O genio sensual da Renascença fizera do estudo litterario um passatempo epicurista; o culto dos exemplares gregos era objecto de um fanatismo e de vaidade pessoal; os Cardeaes entregavam-se a este culto de predilecção, a ponto de resarem odes gregas em vez dos canones da missa, como fazia o cardeal Bembo, ou de representarem comedias classicas como o cardeal Bibiena. Á imitação da academia alexandrina, os eruditos italianos, com o vinculo do mesmo amor pela Antiguidade, reuniam-se em palacios esplendidos, ora em jardins magnificos, terminando regularmente as palestras litterarias com musicas e opiparos banquetes. Este empenho da arte pela arte levou á fundação de innumeras Academias italianas no seculo XVI, com os titulos heteroclitos de Intronati, (1525) Infiammati, (1540) Innominati, (1549) Insensati, (1560) Animosi, (1576) Illuminati, (1598) etc.
A influencia italiana estendeu-se a Portugal tambem em relação ao estabelecimento de Academias. Na côrte de D. João III, a Infanta D. Maria, a ultima filha do rei D. Manoel, fundou uma Academia de mulheres, a que pertenceram Luiza Sigêa e Angela Sigêa, Joanna Vaz, e Paula Vicente filha do fundador do theatro nacional. Era estylo comparar as damas formosas e cultas á celebre Victoria Colonna. João de Barros descreve a Infanta aproveitando o tempo que lhe restava das suas resas em aprender latim. Nos versos feitos por André de Resende á morte de Luiza Sigêa, vêmol-a retratada como uma assombrosa polyglota, versada no latim, grego, hebraico, chaldeo, e correspondendo-se com o Papa Paulo III, a quem dedicou o seu poema Cintra. No livro das Moradias da Casa da Rainha D. Catherina, Anna Vaz apparece com o ordenado de 6$000 réis com verba de latinas, provavelmente mestra das outras damas. Falla dos seus conhecimentos de letras humanas o Dr. João de Barros no Espelho de Casados. No citado livro das Moradias, Paula Vicente, tambem auctora de uma grammatica e collaboradora nos Autos de seu pae, apparece com o assentamento de tangedora. D’entre a pleiada academica distinguia-se então D. Leonor de Noronha, que traduzira do latim as Eneadas de Marco Antonio Sabellico. Vê-se como a moda da erudição abafava a natural sympathia feminina pela Edade media.
a) O LYRISMO PETRARCHISTA
A influencia da poesia trobadoresca irradiou da Sicilia para a Italia continental, empregando-se o dialecto toscano, fallado em Florença e preferido para a linguagem escripta, para propagar as canções amorosas, em que se manifestaram as mais delicadas e ideaes emoções dos Fieis do Amor. Dante falla com encanto d’esse «dolce stil nuovo ch’io odo,»[171] e no De vulgare Eloquio, diz que as composições poeticas em linguagem vulgar se consideram de gosto siciliano. D’esta corrente poetica nasceram as fórmas definitivas do lyrismo moderno, levadas á perfeição por Petrarcha. Em Portugal foram conhecidos os principaes trovadores chamados sicilianos, Bonifazio Calvo, de Genova, e Sordello, de Mantua, mas a sua influencia decahiu com a eschola provençalesca desde o tempo de D. Affonso IV. A Hespanha começou a renovação do seu lyrismo desde Micer Francisco Imperial e chegou ao esplendor da eschola de Sevilha; em Portugal essa influencia manifesta só se determina depois da viagem de Sá de Miranda á Italia em 1521, quando tambem se operava egual transformação do gosto em Hespanha por Boscan, Cetina e Garcilasso. Sá de Miranda, que teve uma clara comprehensão do dolce stil nuovo, conhecia-lhe a sua origem litteraria, e mostra a relação entre os rudimentos poeticos dos trovadores provençaes e o bello lyrismo italiano:
Entrando o tempo mais, entrou mais lume,
Suspirou-se melhor, veiu outra gente,