O Portuguez Imperio que assim toma

Senhorio por mar de toda a gente,

Tanto barbaro ensina, vence e doma,

Por que assi ficará tão baixamente

Sem Musas, sem sprito, que cantando

O vá do Tejo seu ao Oriente?

O vaticinio de Ferreira, desejando que o filho do princepe D. João protegesse o futuro épico, foi realisado por Camões. Mas nem João de Barros, nem Antonio Ferreira chegaram a vêr os Lusiadas; o chronista expirou quando Camões chegou a Lisboa, e n’esse mesmo anno Ferreira succumbia á Peste grande. Na gigante epopêa de Camões apparecem os dois espiritos antagonicos, conciliados pela intuição do seu genio esthetico: a mythologia, posta em moda pela Renascença, e as lendas do Christianismo medieval cooperam na mesma estructura. Qualquer d’estes preconceitos de eschola ou de crença era bastante para lhe imprimir o sello da mediocridade, se as impressões directas da viagem da India, e as saudades da Patria ditosa sua amada, o não temperassem com a verdadeira emoção poetica. Assim através das correntes contradictorias da erudição humanista, como bacharel latino, e da crença catholica que se transformava no Jesuitismo, Camões teve o dom de realisar nos Lusiadas a epopêa nacional simultaneamente europêa e moderna.

c) A COMEDIA E A TRAGEDIA CLASSICAS

A imitação do theatro classico na Renascença atacou a obra organica da fundação do Theatro nacional, inaugurado por Gil Vicente sobre modelos tradicionaes e populares. Já no seculo XV apparecem citadas por Azurara varias tragedias de Seneca, que existiriam por certo na Livraria de D. Affonso V. Em 1534 mestre André de Resende citava as comedias de Menandro e as tragedias de Euripides pelos textos gregos. Imitámos, porém, os modelos da antiguidade com os olhos fitos na Italia, como aconteceu com as outras litteraturas romanicas. Nas principaes côrtes da Europa, e nas Universidades, entregavam-se aos divertimentos dramaticos; os cardeaes e grandes senhores pisavam os palcos, como Bibiena, e o sacerdote Torres de Naharro abrilhantava com as suas comedias lubricas as noites de Leão X. D. Manoel queria hombrear com a pompa da côrte pontifical, e tambem celebra as festas do paço com um Auto ou Farça; á maneira italiana tivemos muito cedo o theatro particular nas casas nobres. Manoel Machado de Azevedo quando deixou a côrte e regressou á sua quinta de Entre Homem e Cavado, celebrou o nascimento de seu primeiro filho com divertimentos dramaticos, para honrar os princepes que foram de Lisboa á festa do baptisado. Por 1528 leu Jorge Ferreira de Vasconcellos nos serões do paço a Comedia Eufrosina, antepondo a prosa ao verso, segundo o gosto italiano. Reagia-se contra o theatro nacional ou medieval, como se descobre pela rubrica da farça de Inez Pereira, em que Gil Vicente reage contra os humanistas (homens de bom saber). Gil Vicente não foi vencido, mas a corrente erudita continuou a lisongear um publico restricto de eruditos, que desprezavam os Autos hieraticos.

Sá de Miranda que tinha iniciado o novo estylo italiano na poesia lyrica, tambem ensaiou a mesma reforma na poesia dramatica; no prologo da sua primeira comedia, representa a tradição da Arte classica theatral contando as suas peregrinações desde a antiguidade hellenica até ao seculo XVI, queixando-se de que os barbaros lhe tivessem pervertido o nome de Comedia em Auto, e a obrigassem a deixar a prosa para fallar em verso. A allusão feria directamente Gil Vicente, que pelo seu lado parece visal-o no Francisco filho do Clerigo da Beira (segundo Camillo, o conego Gonçalo Mendes de Sá.) A feição italiana da Comedia é inferior á ingenuidade do Auto medieval: n’este ha o typo popular, com as suas superstições, locuções, costumes, interesses, emfim todo elle é um documento ethnico e historico; na comedia imitada do italiano a acção nem mesmo se passa em Portugal, é em Palermo, com costumes sensuaes de cortezãs, com intrigas não comprehendidas, sem realidade. O cardeal D. Henrique mandava representar as Comedias de Sá de Miranda; foram imitadas nos divertimentos da Universidade, nos Collegios, e, quando prevaleceu o humanismo jesuitico, volveu a fórma da comedia ao texto latino.