Nos divertimentos da vida escholar escreveu Antonio Ferreira as comedias de Cioso e Bristo nos moldes italianos; entre os cinceiraes de Coimbra nasceu a comedia Eufrosina, como declara Jorge Ferreira de Vasconcellos; a comedia dos Amphytriões escreveu-a Camões á imitação de Plauto, quando seguia o curso de Artes. Os divertimentos dramaticos adquiriram um maior desenvolvimento quando veiu para Coimbra o Collegio de Mestre André, ou o Collegio real, de que os jesuitas se apoderaram.
A renascença da tragedia não foi devida á imitação directa dos tragicos gregos, mas ao perstigio de um poeta da decadencia latina, Seneca, imitado por Albertino Mussato, por Angelo Poliziano, Trissino, Rucellai, Alamani, Cintio e Dolce. Em Portugal, já no seculo XV eram conhecidas as tragedias de Seneca; mas na Universidade de Lisboa nos principios do seculo XVI liam-se as tragedias de Sophocles e de Euripides, e o Dr. Antonio Ferreira conhecedor da lingua grega, ao escrever a tragedia Castro, seguiu os modelos gregos. Antes de Ferreira, em 1555, Ayres Victoria imprimia uma traducção do Agamemnon de Sophocles. O merecimento da Castro de Ferreira não está sómente no lyrismo dos córos, accentua-se no senso artistico com que soube fixar um assumpto nacional, sendo o primeiro que na Europa iniciou a tragedia fundada sobre um facto historico da civilisação moderna; por que a Sophonisba de Trissino representada em 1520, embora em lingua vulgar, não lhe derroga a prioridade, por falta de nacionalismo. Ferreira morreu em 1569 deixando manuscripta a sua tragedia, que appareceu imitada na Nise lastimosa de Jeronymo Bermudez, em Madrid em 1577, assumpto que desenvolveu na Nise laureada, em que se dramatisa a vingança da que «depois de morta foi rainha.» Depois de Ferreira nunca mais os poetas abandonaram o thema tragico de Ignez de Castro, ao qual imprimiram a galanteria de capa e espada do seculo XVII, o imbroglio do seculo XVIII, e mesmo o sentimentalismo romantico do nosso seculo. A tragedia classica não progrediu; pela cultura humanista decaíu na fórma allegorica das Tragicomedias dos jesuitas.
A Comedia popular, como Gil Vicente a creára continuou a ser apreciada na côrte, como vêmos pela declaração de Luiz Vicente, dizendo que Dom Sebastião se recreiava com os autos de seu pae na meninice. E por que constituia eschola, o Auto foi atacado com prohibições severas nos Indices Expurgatorios. No meio d’estas duas correntes classica e medieval, Camões pela sua intuição de artista concilia os dois espiritos; elle adopta a fórma popular do Auto para dramatisar assumptos da mythologia e da tradição hellenica.
II. Sympathia pela Edade media na Eschola da medida velha.—Caracterisando a revolução occidental, Comte precisa-lhe os aspectos essenciaes por onde ella se manifestou: «a transição moderna abrangeu simultaneamente a intelligencia e a actividade, mas deixando de parte sempre o sentimento.»[174] E como a dissolução do regimen catholico-feudal comprehendeu o systema das ideias dominantes da synthese theologica que perderam a credulidade dos espiritos, e a fórma da sociabilidade, cuja hierarchia aristocratica se quebrou com o advento do proletariado, essa profunda crise, que constitue a historia moderna, foi conjunctamente social e mental. Nos jurisconsultos vêem-se estes dois aspectos, quando pela erudição fazem reviver as leis romanas em favor da dictadura monarchica; servem a mesma causa os humanistas coadjuvando a emancipação mental com a vulgarisação dos philosophos gregos, cuja metaphysica oppõem á theologia catholica. Póde-se bem explicar toda a Renascença dos fins do seculo XV a principios do seculo XVII como uma profunda revolução mental; com a Revolução de Inglaterra é que a grande crise europêa toma o intuito social. N’esta instabilidade de critica e de acção não havia logar para as emoções affectivas; queria-se subtileza para a argumentação e audacia para o combate. O sentimento fôra inevitavelmente abandonado, tornando-se por isso mais violentos os conflictos; o que amar, quando tudo era agitado e incerto? A poesia teve de inspirar-se na admiração da antiguidade morta; alguns espiritos femininos foram com a forte corrente da erudição, mas a mulher alheia ao perstigio classico, sentia a saudade do passado, e, como diz Comte: «aspirava espontaneamente á Edade media.» De animo submisso, era n’essa edade extincta que a alma repousava na crença, que se exaltava na galanteria trobadoresca e na generosidade da cavalleria; a mulher mantinha o sentimento da Edade media. Foi sobre essa tendencia que se estribaram sempre todas as reacções catholicas. Quando as Litteraturas romanicas caíam na imitação fria das obras primas greco-romanas, foi a predilecção feminina pela poesia dos Cancioneiros e pelas Novellas cavalheirescas, que fortificou a reacção contra o gosto e auctoridade dos eruditos.
a) OS POETAS DA MEDIDA VELHA
Na Arte de Galanteria notou D. Francisco de Portugal, que as damas não sympathisavam com os versos endecasyllabos por serem longos e não exprimirem conceitos tão delicados como as redondilhas. E Camões em uma das suas Cartas falla das damas que mostravam frieza ouvindo um pensamento de Petrarcha. Evidentemente o lyrismo italiano encontrou certa antipathia, que foi explorada em Portugal e Hespanha pelos poetas que continuaram com intuito de reacção a metrificar no verso octonario. Esta persistencia nada mais é do que o prolongamento da influencia da poesia castelhana, que desde as relações do Infante D. Pedro com João de Mena, se exercera nas côrtes de D. Affonso V, D. João II e D. Manoel. Ideia e fórma são imitadas dos versos de João de Mena, Jorge Manrique, Stuniga, como era moda nas côrtes de D. Juan II e Enrique IV. Os casamentos com princezas de Castella tornaram a lingua castelhana usual na côrte portugueza, n’ella escrevendo os seus motes, voltas e coplas. No Cancioneiro geral, de Garcia de Resende, vinte nove poetas palacianos escrevem em castelhano, facto já observado por Pidal; Jorge Ferreira chegou a queixar-se do despotismo que as trovas castelhanas exerciam no nosso ouvido, e Damião de Góes tambem consigna o facto da grande importancia que tinham na côrte os chocarreiros de Castella. Era este lyrismo a ultima transformação do gosto ou estylo trobadoresco, e como um producto archaico, os fidalgos e os princepes são os que sobresáem como poetas, nos serões do paço. Foram poetas o rei D. Duarte, o Infante D. Pedro, seu filho o Condestavel de Portugal, e D. Philippa; mesmo o terrivel D. João II considerava o talento poetico uma excellente manha, e animava a habilidade poetica de Garcia de Resende. Tambem o infante D. Luiz era poeta, e de seu irmão o infante D. Duarte escrevia André de Resende: «Fazia trovas sentenciosas, e guardava todas as leis e arte de bem trovar.» A musica, tão cultivada pela aristocracia, como vêmos em D. João de Menezes, Sá de Miranda, Manoel Machado de Azevedo e outros, coadjuvava a sympathia pelos versos curtos de redondilha menor e maior, emquanto que os endecasyllabos só podiam ser recitados. A persistencia da medida velha manifestava-se pela paixão dos colleccionadores de Cancioneiros; d’este costume falla Jorge Ferreira de Vasconcellos, na comedia Ulyssipo: «Fazem por si mundo em segredo, vivem como morcegos, tem Cancioneiro de boa letra e má nota e mostram-no em particular a quantos lh’o querem ouvir.» (Fl. 213, V.) De varios d’estes Cancioneiros formou Garcia de Resende o Cancioneiro geral, publicado em 1516, á imitação do Cancionero general de Hernando del Castillo, começado em 1491 e impresso em 1511. Em 1514 fôra Resende a Roma como secretario da embaixada a Leão X, e por tanto não fez mais do que confiar ao prelo sem ordem os materiaes que lhe entregaram, por entender que a poesia: «nas côrtes dos grandes prinçepes he muy neçessaria na jentileza, amores, justas e mômos, e tambem para os que máos trajos e envenções fazem, per trovas sam castigados, e lhe dam suas emendas...» Na Aulegraphia revela Jorge Ferreira o antagonismo das duas poeticas: «hey muito grande dó de uns juizes poldros, e tão curtos da vista, que acceitam toda novidade sem pezo, a olhos, e assi me parece de vós, senhor, que por andar com som do moderno sereis todo um Soneto, e condemnaes logo o outro verso, sem mais respeito nem consideração.» (Fl. 165, v.) E D. Francisco de Portugal, na Arte de Galanteria, tambem allude ao antagonismo das duas poeticas: «las otras modas de versos hizieranse para leydos, e estos para sentidos...» E explica claramente a influencia hespanhola em Portugal: «las coplas castellanas son las mas proprias para palacio...»
Os versos de redondilha deram expressão ás mais sentidas emoções amorosas, como no Crisfal de Christovam Falcão e nas Eclogas de Bernardim Ribeiro. N’este genero de redondilha chegou Gil Vicente a renovar os typos tradicionaes das serranilhas, e Camões na galanteria do paço tornou-se inimitavel na graça com que reanimou toda a poetica dos velhos cancioneiros. O proprio inaugurador da poetica italiana era admirado e imitado no seculo XVII mais pelas suas bellas Eclogas e Cartas em redondilhas. As duas escholas, como notou Sá de Miranda estabelecendo a relação entre os provençaes e os italianos, não eram incompativeis, provinham da mesma origem.
b) ROMANCES E NOVELLAS DE CAVALLERIA
A instabilidade social na grande transição para a edade moderna, fez com que a creação épica dos Romanceiros da peninsula hispanica estacionasse em simples rudimentos narrativos. Facilmente foram dissolvidos na prosa das chronicas, como testemunhos historicos, e no seculo XV consideravam-se infimos e despreziveis os que com romances se recreavam. Esses infimos constituiam o proletariado, incorporado na sociedade moderna, e por isso não admira que os Romances começassem a ser colligidos no seculo XV em folhas volantes, máo grado o desdem dos cultistas litterarios e admiradores da antiguidade. Explorando esta corrente de sympathia popular, a fórma de Romance foi adoptada pelos escriptores cultos para n’ella metrificarem a prosa das chronicas nacionaes. Puzeram em romance a historia de Hespanha, Sepulveda, Juan de la Cueva e Lasso de la Vega; o mesmo trabalho se effectuou em Portugal, quando Gil Vicente, Jorge Ferreira, Balthazar Dias transformaram o romance anonymo, que se tornou subjectivo e um pretexto para a composição musical.
A lingua castelhana usada como expressão aristocratica na côrte portugueza, era empregada de preferencia nos romances. André de Resende, na Vida do Infante D. Duarte, conta: «Veiu ter a esta cidade de Lisboa um mancebo castelhano chamado Ortiz, que graciosamente tangia e cantava chistes; filhou-o o Infante, e folgava de o ouvir.» (Cap. 11.) Tambem Jorge Ferreira allude aos romances póstos em musica: «Eu não vos nego que sabeis muito bem harpar um Conde Claros, que elles logo dizem que não ha tal musica.» O gosto feminino, suscitado pela musica tambem provocava a fórma litteraria dada ao romance, como o affirma Diego de San Pedro na Carcel de Amor, fallando das excellencias da mulher: «Por quien se cantan los lindos romances.» Os romances foram glosados, desenvolvendo-se lyricamente; na comedia Eufrosina, allude Jorge Ferreira a este gosto dominante: «Bem estaveis agora para glosar Recuerde el alma dormida, etc.» E na comedia Ulyssipo: «Este meio é de uns porretas que grosam Retrahida está a Infante, e Para que pariste, madre?» É frequentissimo o encontrar-se em todos os escriptores quinhentistas referencias aos romances populares que mais espalhados andavam na tradição, e com especialidade nos poetas dramaticos, que pintavam os costumes vulgares. O romance decaíu da sua importancia épica para as fórmas allegoricas e subjectivas do lyrismo culteranista; e quando conservou a expressão objectiva foi para representar as aventuras de salteadores e contrabandistas nos romances de guapos e temerones, ou as Xácaras.