As Novellas de Cavalleria é que resistiram mais no gosto publico contra a corrente erudita que desdenhava de tudo quanto provinha da Edade media. Aqui são em geral as mulheres, que se interessam pelas narrativas novellescas. Em varios logares das suas comedias refere Jorge Ferreira a grande importancia que tinham as novellas na sociedade portugueza; diz na Eufrosina: «Ride-vos dos aphorismos de Hypocras, nam das Xergas de Esplandião.» E na comedia Ulyssipo, alludindo ás predilecções femininas: «Já se entram em saber latim ou musica, nenhuma cura lhes sinto. E se são lidas por Espelho de Cavalleria, ou Carcel de Amor, e Conde Partinoples, e não leixam udo nem meudo; ride-vos vós de mais Donzella Theodora.» Os humanistas eram inimigos encarniçados das Novellas medievaes; escreve o auctor do Dialogo de las Lenguas: «Dez annos, os melhores da minha vida, gastei em palacios e côrtes, não me empregando em exercicio mais virtuoso do que lêr estas mentiras, em que achava tanto sabor, que me deixava levar por ellas; e olhae que cousa é ter o gosto estragado, que se pegava em algum livro escripto em latim, que são os de historias verdadeiras, ou que pelo menos são tidos como taes, não podia resolver-me a acabal-os de lêr.» E no livro De institutionae Faeminae christianae o humanista hespanhol João Luis Vives deblatera contra as Novellas, pedindo a intervenção prohibitiva dos governos: «Deviam fazer o mesmo d’estes outros livros vãos, que são: em Hespanha, o Amadis, Florisandro, Tirante, Tristão de Leonis, Celestina, a alcoviteira, mãe da malvadez; em França, Lançarote do Lago, Páris e Viana, Ponto e Sidonia, Pedro de Provença, Magalona e Melusina; e em Flandres, Flores e Brancaflor, Leonela e Cananior, Curias e Floreta, Pyramo e Tisbe. Ha outros traduzidos do latim em vulgar, como são as infacetissimas Facecias e Graças desgraçadas de Poggio, e as Cem Novellas de João Boccacio, livros todos elles escriptos por homens ociosos e desoccupados, sem letras, cheios de vicios e sordidez, nos quaes eu me maravilho como se póde achar cousa que dê deleite, a não ser que os nossos vicios nos tragan tanto al retortero;... eu por mim digo na verdade, que nunca vi, nem ouvi dizer que lhe agradavam obras d’este genero senão ás pessoas que nunca tocaram nem viram um bom livro, e eu tambem fiz d’essas leituras algumas vezes, mas nunca achei vestigios alguns de bom engenho.» Tambem na Historia imperal e cesárea, Pedro Mexia clama com sarcasmo contra as novellas: «e em paga de quanto trabalhei em a recolher e abreviar, peço agora attenção e aviso, já que o costumam prestar ás proezas e mentiras de Amadis, de Lisuartes e de Clarianes, e de outros portentos, que com tanta rasão deviam ser desterrados de Hespanha como cousa contagiosa e damnosa á Republica, pois tão mal fazem gastar o tempo aos auctores e leitores d’elles, e o que é peior, que dão mui máos exemplos e bastantes perigos para os costumes.» E n’esta increpação crescente de deshonestidade, conclue: «É um mui grande e damnoso abuso, do qual, entre outros inconvenientes se segue grande ignominia e descredito das Chronicas e Historias verdadeiras, permittindo que andem cousas tão nefandas a par com ellas.» Vives, no seu livro De causis corruptarum Artium, condemna implacavelmente o Amadis e Florisandro, hispanicos, o Lancelot e Tavola Redonda, francezes, e o Orlando, italico; mas apezar de tudo a paixão cavalheiresca actuava na sociedade, como vêmos pela paixão de Ignacio de Loyola pelo Amadis de Gaula, na mocidade. Cervantes, no capitulo VI do D. Quijote, synthetisa esta antipathia, no exame feito pelo barbeiro Mestre Nicoláo e pelo Cura ás novellas por onde lia o Cavalleiro da triste figura: «O primeiro que lhe deu Mestre Nicoláo foi os quatro (sc. livros) do Amadis; e disse o Cura:—Parece cousa de mysterio esta, por que ao que tenho ouvido referir, foi este livro o primeiro de Cavallerias que se imprimiu em Hespanha, e todos os mais tomaram principio e origem d’este, e assim me parece que como a dogmatista de uma seita tão má o devemos sem excusa lançar á fogueira.—Não, senhor! (disse o barbeiro), pois tambem tenho ouvido dizer, que é o melhor de todos os livros que d’este genero se tem composto, e assim como a unico em sua arte se deve perdoar.—É verdade isso, volve o Cura, e por tal rasão se lhe outorga a vida por agora.» No exame do Palmeirim de Inglaterra, resolvem tambem «que este e Amadis de Gaula quedem livres de fogo, e todos os outros sem fazer mais reclamações pereçam.» Cervantes revelava n’este episodio o seu superior sentimento esthetico, diante d’essas duas creações do genio portuguez, que continuava na historia a sua paixão pelas aventuras. Na Côrte na Aldeia refere Rodrigues Lobo uma anecdota caracteristica: «Na milicia da India, tendo um Capitão nosso cercado uma cidade de inimigos, certos soldados camaradas que alvergavam juntos, traziam entre as armas um livro de Cavallerias, com que passavam o tempo. Um d’elles, que sabia menos que os mais d’aquella leitura, tinha tudo o que ouvia lêr por verdadeiro, (e assim ha alguns innocentes que cuidam que se não póde mentir em letra redonda) os outros ajudando a sua simpleza, lhe diziam que assim era. Veiu occasião de um assalto, em que o bom soldado invejoso e animado do que ouvia lêr, lhe pareceu ensejo de mostrar seu valor e fazer uma cavalleria que ficasse de memoria, e assim se metteu entre os contrarios com tanta furia, e a começar a ferir tão rijamente com a espada, que em pouco espaço se empenhou de sorte, que com muito trabalho e perigo dos companheiros e de outros muitos soldados, lhe ampararam a vida, recolhendo-se com muita honra e não poucas feridas. E reprehendendo-o os mais amigos daquella temeridade, respondeu:—Ah, deixae-me, que não fiz a metade do que cada noite lêdes de qualquer cavalleiro do nosso livro.»
Era com este espirito que iamos á descoberta do Preste João das Indias e das Ilhas encantadas, e davamos a volta do mundo. Mas a edade da burguezia tinha chegado, e o nosso ultimo rei cavalleiro D. Sebastião amando mouras encantadas e sonhando o Quinto Imperio do mundo, ao lançar-se para a conquista de Marrocos levava já comsigo a corôa de ouro com que havia de significar a sua soberania, e ia acompanhado do poeta que havia de exaltar na tuba épica o seu triumpho. Seria um prototypo de Quixote, se a este tresloucamento não andasse ligada a perda da autonomia da nacionalidade portugueza. As Novellas de Cavalleria tambem degeneraram nas allegorias pastoraes do gosto italiano, e nas historias moraes encabeçadas em nomes de personagens da antiguidade. Mas d’esta fórma se transitava para o typo mais caracteristico da arte moderna—o Romance, na accepção actual, que por este seu proprio titulo nos relaciona com a poesia da Edade media.
c) OS AUTOS HIERATICOS
Como em todos os povos catholicos em que as festas religiosas do Natal, Reis Magos e Paixão, eram a base do theatro hieratico, tivemos esses Autos ou vigilias, que se ligavam ás manifestações do culto, sobretudo no tempo em que a Egreja admittia o povo á participação da liturgia. Foi por um monologo de natureza de Visitação da lapinha ou do presepio, que Gil Vicente começou a elaborar a fórma litteraria do Auto hieratico.
Os velhos mythos da lucta do Verão e do Inverno, base de um grande numero de festas publicas europêas, tambem foram aproveitados pelo genio de Gil Vicente na farça popular. Por fim a fórma dos Mômos e entremezes da côrte de D. João II, a que se allude no Cancioneiro geral, constituiam o elemento do theatro aristocratico. Gil Vicente, sugerido pela generosa rainha D. Leonor, compoz n’estes trez generos os seus Autos, Farças e Tragicomedias, quasi que exclusivamente para os serões do paço. As Constituições episcopaes atacaram o costume popular das representações hieraticas; e os eruditos da Renascença fizeram caír pelo descredito os mômos e entremezes. Sob o regimen da repressão catholica o povo ficou triste e mudo; Gil Vicente fez-se o seu interprete nas côrtes de D. Manoel e D. João III, dando a conhecer a miseria geral. Em um Auto falla no perigo de mandar os galeões para a India com capitães nobres mas imbecis; em outro pede tolerancia para a pobre gente supersticiosa na sua rudeza: em todos desmascara as grandes ambições do clericalismo. É esta fórma litteraria do Auto mais directamente medieval a que se manifesta mais radicalmente satyrica; ahi conserva as orações farsis dos goliardos, e tem como personagem comico o Diabo, como nos antigos Mysterios. Ainda entre o povo portuguez se encontra a locução—Fazer diabos a quatro, que teve origem dos Mysterios dramaticos, em que a importancia da peça augmentava com o maior numero de diabos que entravam; em Rabelais se encontra esta phrase: la grande diablerie à quatre personages, empregada no Pantagruel. D’este personagem popular foram herdeiros da sua malicia e vivacidade Scapin, Paillasse, Arlechino, Pathelin, Celestina e Sganarello.
Possuido da inspiração e espontaneidade do sentimento da Edade media, Gil Vicente, com essa liberdade sarcastica, toca em todos os pontos capitaes da grande lucta da secularisação social e emancipação mental, encontrando-se por vezes na mesma aspiração da Reforma. Em Antonio Prestes causa impressão como elle no Auto da Ave-Maria considera a Rasão como indispensavel para o merecimento da Fé. Não nos admira pois que o theatro nacional depois do Concilio de Trento fosse combatido nos Indices Expurgatorios, que conservaram muitos titulos de autos e comedias que a intolerancia religiosa fez perder.
A influencia castelhana da comedia em prosa, tambem de costumes populares, como o typo immortal e immoral da Celestina, acha-se introduzida por Jorge Ferreira de Vasconcellos na Eufrosina, Ulyssipo e Aulegraphia; elle cita com frequencia esse typo incomparavel: «E vós dar-lhe-heis mais virtudes que a madre Celestina.» João de Barros e Camões tambem citaram esta comedia portentosa, que se impoz á imitação portugueza. Na Côrte na Aldêa escrevia Rodrigues Lobo: «Ainda me parece que haveis de chegar á Celestina, que posto que o officio é commum de dois, accomoda-se melhor ao feminino.» Na linguagem popular egualmente se encontra a phrase: Artes da madre Celestina encantadora.
Em consequencia da incorporação na unidade castelhana em 1580, começou-se a representar em castelhano, e os escriptores portuguezes enriqueceram o vasto reportorio dramatico da Hespanha. Pedro Salgado, Jacintho Cordeiro, Mattos Fragoso escreveram em castelhano, comedias famosas de capa e espada. Rodrigues Lobo refere-se á estructura castelhana começada a usar: «E tambem os poetas nas suas comedias, que são mais proprias para recreação e passatempo, dividiram a obra em actos a que agora chamam Jornadas...» Por falta de um interesse nacional, que fecundasse o theatro, ou de um sentimento que recebesse a expressão esthetica do drama, os divertimentos scenicos dos Pateos das Comedias tiveram por fim a especulação da caridade. Comtudo a riqueza fecunda do theatro hespanhol actuou nas litteraturas da Europa no seculo XVII, inspirando genios superiores como Corneille, Molière e Shakespeare.
b) O CULTERANISMO SEISCENTISTA
(Hegemonia da Hespanha)