Philarète Chasles, caracterisa a influencia do theatro hespanhol em França, depois de alludir ás imitações de Corneille no Polyeucte e no Cid: «Racine escapa á influencia hespanhola; n’elle só se encontra sob a fórma de galanteria e de elegancia. Depois da morte de Racine, Lagrange-Chancel e Crébillon succedem-lhe, mediocres fabricantes de intrigas hespanholas. Os Timocrates e os Rhadamisto, que abriram a senda ao melodrama moderno, vieram-nos de Hespanha. Foram Lope, Alarcon, Tirso de Molina, que crearam para nosso uso esta architectura cheia de escadas secretas, gabinetes occultos, pavilhões mysteriosos, retiros para galanteadores, balcões para escalar, e muros faceis de saltar, todo este material que ainda se não abandonou. O mais insignificante vaudeville de intriga que se representa na Europa ainda agora é uma creação da Hespanha.»[183] E caracterisando esta força creadora do genio hespanhol, accrescenta Philarète Chasles: «O enredo hespanhol encontra-se em todos os theatros do mundo. Em Veneza, Roma, Paris, Londres, San Petersburgo, Vienna, New-York, Don Juan, o Cid, o Menteur, o Matrimonio secreto, antigos caprichos de alguns poetas de Madrid, sustentam-se obstinadamente, tal é a vida dramatica n’estas invenções.—Ao primeiro relance, Calderon, Alarcon, Roxas e Tirso são um mesmo poeta; os mil dramas hespanhóes que do seculo XVI ao XVII brotaram d’esta fonte, parecem-se e são gémeos. Para reconhecer o cunho das variedades de talento que os dictaram, é preciso reparar bem de perto; a originalidade d’estas obras é a originalidade de um povo, não a de um homem; o talento especial do poeta como que se sacrificou e perdeu no genio dominante da multidão.»[184]

Sobre a litteratura ingleza, especialmente no theatro é que o genio hespanhol irradiou a sua intensa paixão, a ponto de por um effeito reflexo os dramas inglezes de origem hespanhola popularisarem-se sobre a scena franceza. É pois absurdo attribuir á Hespanha a perversão do gosto do estylo euphuista propagado á Inglaterra.

A influencia da Litteratura hespanhola em Inglaterra, facto manifesto em Shakspeare e nos poetas dramaticos, tem sido confundida com esse phenomeno de perversão do estylo metaphorico chamado o Culteranismo. Esta epidemia litteraria, tão caracteristica dos poetas e prosadores do seculo XVII, teve em Inglaterra o nome de Euphuismo, nome tomado do titulo de uma obra do seu propagador John Lyly. Bem examinadas as origens do euphuismo, vê-se que este estylo entrou em voga na Inglaterra no meado do seculo XVI, na prosa de George Petty, imitador dos italianos, como tambem o implantou Philip Sidney, seguindo-o todos aquelles que tentavam reproduzir o petrarchismo, como Thomas Wyatt, Surrey e Spenser. O requinte na expressão do sentimento levava á linguagem amaneirada, ás antitheses, ás aliterações, e póde-se considerar, segundo Morly, que n’este meio é que se desenvolveu o euphuismo. Lyly imitou Petty, e seguidamente os italianos, a Petrarcha directamente na sua Galathea, e a Surrey especialmente. Embora o gosto do euphuismo seja menos dominante nas poesias de Lyly do que nas suas novellas, e tenda a ser abandonado em outras composições, comtudo mantiveram-n’o outros escriptores, como Rich, Nash, Green, Lodge, o que revela uma influencia mais profunda e não pessoal. É pois absurdo attribuir á Hespanha esta perversão do gosto na litteratura ingleza, já derivando-a da imitação do estylo de Guevara, como o imaginou Laudmann, já de Gongora como anachronicamente o indicou Hillebrand. A imitação da poesia italiana em Inglaterra começou com Chaucer, e esse gosto propagou-se até Shakspeare; e emquanto em Inglaterra degenerava o estylo no emprego de paronomasias simples, de aliterações alternadas, de antitheses parallelas e cadencias rythmicas, tambem em Hespanha essa mesma influencia degenerava segundo o genio peninsular em hyperboles phantasticas, em atrevidas metaphoras e tropos inchados. Assim o Euphuismo e Culteranismo sem serem eguaes, nem derivarem um do outro, identificaram-se facilmente, produzindo esse engano nos criticos.[185] Não é nas aberrações do estylo litterario que se deve procurar a influencia hespanhola na litteratura ingleza, mas sim nos themas fundamentaes e nos processos da idealisação artistica; e a acção exercida sobre as litteraturas da Italia e da França ajuda a comprehender quanto ella suscitou nobremente o genio esthetico na Inglaterra.

No seculo XVII Portugal estava incorporado na unidade castelhana; não existia como organismo nacional, e pelas manifestações da sua litteratura não se poderia prevêr a revolução autonomica de 1640. Esse impulso veiu de fóra; a liberdade de Portugal era um dos córtes do plano de Richelieu contra a Casa de Austria. Na litteratura portugueza os principaes poetas, como D. Francisco Manoel de Mello escrevem em castelhano: e uma grande parte das Comedias famosas do theatro hespanhol são compostas por portuguezes. Parece que mentalmente, ou nos dominios da intelligencia Portugal e Hespanha formavam uma mesma civilisação. O uso do castelhano pelos escriptores portuguezes no seculo XVII não era um symptoma de depressão do sentimento nacional; já no seculo XV os poetas portuguezes palacianos enriqueceram os Cancioneiros de Hespanha; na época quinhentista Sá de Miranda, Gil Vicente e Camões escreveram em castelhano grande parte das suas poesias. No Catalogo razonado de Escriptores portuguezes que escreveram em castelhano, colligido pelo Dr. Garcia Perez, é extraordinario o numero que ahi se encontra, como revelando uma certa unidade de civilisação iberica. O genio portuguez cooperou para o esplendor da litteratura hespanhola, quando aquella nação decahia sob o despotismo da Casa de Austria. Por via da paixão de Jorge de Monte-mór actuou sobre o gosto das allegorias pastoraes na Europa, com a Diana; com a Historia da Guerra da Catalunha de D. Francisco Manoel de Mello, appresentava a norma realista para os modernos historiadores. Estavamos sob o jugo politico, mas em plena egualdade mental; o genio portuguez communicou á Hespanha a paixão, o elemento vivo que mais longe levou o seu influxo litterario. As causas da decadencia da Hespanha foram as mesmas que actuaram em Portugal, aggravada porém a nossa situação por um factor deprimente—a alliança ingleza com todos os seus tratados diplomaticos.

c) O ARCADISMO E A REACÇÃO PROTO-ROMANTICA

(Hegemonia da Inglaterra)

As liberdades da elocução poetica, tanto na Italia, França, Inglaterra, Hespanha e Portugal, que foram designadas pelo nome de Culteranismo, e pelo de Seiscentismo por predominarem no gosto do seculo XVII, não devem ser consideradas como uma degenerescencia das Litteraturas meridionaes, mas como um esforço espontaneo de renovação desordenada e mal comprehendida. A imitação da Antiguidade com que as Academias poeticas chamadas Arcadias procuraram reagir contra essa corrente de uma intemperança rhetorica, era injustificavel, por que nos poetas classicos encontravam-se exemplos para justificar os maiores absurdos e os laboriosos artificios do estylo culto. Verney, nas cartas sobre o Verdadeiro methodo de estudar, analysando todos esses destemperos das rimas forçadas, dos labyrintos, acrosticos, anagrammas, chronogrammas, equivocos, eccos, usados na litteratura hespanhola e portugueza, cita fórmas analogas nos escriptores gregos e latinos. As Arcadias restringiram os modelos classicos a um pequeno numero de poetas, como Theocritico, Virgilio e Horacio; e contra os rasgos da imaginação expressos pela linguagem figurada, impuzeram-se um estylo rasoavel, frio, de um bom senso prosaico, sem emoção, nem colorido. O esforço para a manutenção das normas classicas, começou no proprio seculo XVII, com a auctoridade implacavel de Boileau em França, e com o estabelecimento da Arcadia de Roma, em 1690, fundada por Crescimbeni e Gravina, academia poetica que se tornou o typo de todas as Arcadias que encheram quasi todo o seculo XVIII. O pseudo-classicismo francez, propagado pelo perstigio dos grandes escriptores do seculo XVII, identifica-se com o Arcadismo, em que o espirito de erudição procurava transformar as academias culteranistas.

Mas no seculo XVII o conflicto entre as duas escholas tomou um aspecto consciente na celebre Querella dos Antigos e Modernos, suscitada por Charles Pérrault. Tratava-se de saber se a civilisação moderna tinha recursos mais ricos e fecundos do que a antiga, e se no meio de uma mais activa e delicada sociabilidade, com sentimentos mais humanos, não havia logar para uma idealisação tão bella nas artes e na poesia, como a da sociedade greco-romana. Pérrault sustentava que sim, e mostrava-se deslumbrado pelo esplendor da côrte de Luiz XIV; Boileau, reconhecendo esse esplendor como digno da éra de Périeles e de Augusto, cahia no contrasenso de proclamar a primasia da antiguidade, vindo a final a transigir com o seu antagonista.

Operára-se pela generalisação das ideias philosophicas do Cartesianismo uma forte corrente contra o formalismo da Scholastica, libertando o criterio e dando-lhe a audacia com que actúa no espirito do seculo XVIII; reflectiu-se essa situação mental tambem nas doutrinas litterarias, suscitando a ruidosa mas significativa Querella dos Antigos e Modernos, e determinando o abandono da Poetica de Aristoteles. Escrevia o barão Taylor para uma sessão do Congresso historico de 1840: «A mesma reacção que se opéra contra a antiguidade philosophica, não tarda a manifestar-se contra a antiguidade litteraria, e a Poetica de Aristoteles é atacada com tanta vivacidade como a Logica. Pérrault, Lamothe e Fontenelle são os campeões das ideias modernas, e ouso dizel-o, appresentaram melhor a fórmula romantica, do que a eschola actual, do que o proprio Chateaubriand, que quiz fechar a Litteratura no cyclo christão.» [186] Desde que as ideias e os sentimentos da civilisação moderna são evidentemente mais verdadeiros e humanos, são essas ideias e sentimentos que devem ser universalisados na arte e na litteratura, que com taes elementos não podem ficar inferiores ás obras primas antigas. Apezar d’este impulso resultante da Querella dos Antigos a Modernos, na primeira metade do seculo XVIII prevaleceu a admiração exclusiva pelas obras classicas greco-romanas, a imitação reflectida ou pautada d’esses modelos, e a preoccupação de um purismo de linguagem e primor de estylo, que em vez de exprimir sentimentos visava a seguir as convenções e a obter os applausos academicos. Um esforço para derivar a idealisação poetica da realidade da vida moderna começou pela generosa tentativa dos Romancistas inglezes; a liberdade politica e philosophica da Inglaterra, affirmadas nas suas duas fecundas revoluções do seculo XVII, deram-lhe essa plena hegemonia que exerceu pela sua influencia na França sobre a Europa do seculo XVIII. As ideias com que Montesquieu leva a insurreição aos espiritos no Espirito das Leis foram recebidas de Inglaterra, como a audacia das Lettres persanes nos apparece cultivada na associação de livres-pensadores do Club de l’entresol, em que dominava Bolingbroke. Tambem pela emigração na Inglaterra alcançou Voltaire a comprehensão mais clara da sua missão negativista. O romance da vida intima ou domestica, como o fundou Richardson, veiu mostrar ao genio francez a fórma definitiva, que elle só tem a aperfeiçoar; e as tragedias de Shakspeare, máo grado os protestos academicos, revelaram uma esthetica nova, em que a verdade da paixão prevalece sobre a fórma transitoria, que se torna bella e mesmo profundamente philosophica por essa verdade.

Na grande crise social que vae fazer a sua explosão nos fins do seculo XVIII, os litteratos foram os instrumentos de uma propaganda das ideias philosophicas do negativismo revolucionario. Mas, não conseguiram vencer a rhetorica; o Arcadismo, mantinha-se n’esse deploravel aspecto incolôr das obras litterarias que se não referiam á sociedade viva, á época, á nação, mas esboçavam abstractas entidades, umas vezes segundo os moldes consagrados pelas Academias, outras vezes com a intenção de servir ou de combater as aspirações revolucionarias. A litteratura protegida pelas côrtes do seculo XVIII, para evitar os perigos da liberdade, fechava-se na disciplina do arcadismo. Como a falta de sentimento imprimia aos poetas uma fórma apagada e sem colorido, elles procuravam mascarar a futilidade ou inutilidade dos seus versos tornando-os rasoaveis, compondo poemas didacticos ou scientificos. Taine caracterisa magistralmente o caracter incolôr da litteratura: «No seculo XVIII não é proprio o figurar a cousa viva, o individuo real, tal como existe effectivamente na natureza e na historia, isto é, como um conjuncto indefinido, como um rico tecido, como um organismo completo de caracteres e de particularidades sobrepostas, entremeadas e coordenadas. Falta-lhe a capacidade para recebel-as e para contel-as. Affasta-as o mais que póde, tanto, que por fim não conserva senão um extracto mesquinho, um residuo evaporado, um nome quasi ôco, em summa, o que se chama uma inane abstracção.—Por toda a parte a seiva está esgotada, e em logar de plantas florescentes, só se deparam flores de papel pintado. Tantos poemas sérios desde a Henriada de Voltaire até aos Mezes de Roucher ou á Imaginação de Delille, que é tudo isso senão trechos de rhetorica guarnecidos de rimas? Percorrei as immensas tragedias e comedias de que Grimm e Colé nos dão o extracto mortuario, mesmo as boas peças de Voltaire e de Crébillon, mais tarde a dos auctores que estiveram em voga, Du Belloy, La Harpe, Ducis, Marie Chénier: eloquencia, arte, situações, bellos versos, tudo isso têm, excepto homens; os personagens não passam de mannequins bem adestrados, e as mais das vezos trombetas pelas quaes o auctor lança ao publico as suas declamações. Gregos, Romanos, Cavalleiros da Edade media, Turcos, Arabes, Peruvianos, Guebros, Byzantinos, pertencem todos á mesma mechanica discursiva. E o publico não se encommoda; não tem o sentimento historico; admitte que o homem é em toda a parte o mesmo, e consagra pela admiração os Incas de Marmontel, o Gonzalve e as Novellas de Florian...»[187] E mostrando o mesmo aspecto incolôr nas obras dos historiadores: «O Grego antigo, o christão dos primeiros seculos, o conquistador germanico, o homem feudal, o arabe de Mahomet, o allemão, o inglez da Renascença, o puritano, apparecem nos seus livros com pouca differença das suas estampas e dos seus frontispicios, com algumas differenças de trajo, mas com os mesmos corpos, as mesmas caras, a mesma physionomia, attenuados, apagados, decentes, accommodados ás conveniencias. A imaginação sympathica pela qual o escriptor se transporta a outrem, e reproduz em si um systema de habitos e de paixões contrarias ás suas, é o talento que mais falta ao seculo XVIII.»[188] Comparando o romance francez com o romance inglez, Taine conclue pela surprehendente superioridade de Foë, Richardson, Fielding, Smollett, Sterne e Goldsmith até Miss Burney e Miss Austen, e diz: «eu conheço a Inglaterra do seculo XVIII; eu vejo clergyman, gentishomens do campo, rendeiros, estalajadeiros, marinheiros, gente de todas as condições, infimas e elevadas;... tenho nas mãos uma série de biographias circumstanciadas e precisas, um quadro completo, de mil scenas, da sociedade inteira, o mais amplo montão de informações para me guiarem quando eu quizer fazer a historia d’este mundo extincto. Se, em seguida, leio a série correspondente dos romancistas francezes, Crébillon filho, Rousseau, Marmontel, Laclos, Rétif de la Bretonne, Louvet, M.me de Staël, M.me de Genlis, e os outros, comprehendendo Mercier e até M.me Cottin, quasi que não tenho notas a tomar;... vejo modos delicados, mimos, galanterias, velhacarias, dissertações de sociedade, e aqui está tudo.»[189] Pela fórma do romance é que a Inglaterra exerceu tambem a hegemonia litteraria no seculo XVIII, determinando em França essa tentativa de idealisação da realidade, ou o Proto-Romantismo, e na Allemanha, depois da Guerra dos Sete annos, o impulso que a levou a idealisar as suas tradições nacionaes, e a abrir a época da renovação das Litteraturas modernas no seculo XIX ou o Romantismo.