Quando se fundou a Arcadia de Roma para corrigir os exageros do estylo marinista, oppuzeram os seus associados outros exageros, simulando ingenuidades pastoris, resuscitando as allegorias buccolicas que desde Sanazzaro se propagaram entre os eruditos; reuniam-se no monte Janiculo, chamando á sala das sessões Bosque Parrasio, e tomando nomes poeticos de pastores gregos, das eclogas de Theocrito ou de Virgilio. Os Papas, Reis, cardeaes, bispos e magistrados honravam-se em pertencer á Arcadia; Dom João V, que teve n’esse gremio pastoral o nome de Albano, mandou-lhe construir em Roma um palacio para as suas sessões. A Arcadia, que se propagára a todas as cidades da Italia, tambem teve em Portugal o seu rebento. Mas aqui, a lucta contra o elemento seiscentista foi porfiosa, por que as Academias ou Tertulias litterarias eram os baluartes do Culteranismo. Do gosto dominante, escrevia Verney: «Geralmente entendem, que o compôr bem consiste em dizer subtilezas e inventar cousas que a ninguem occorressem...»[190] E sob a influencia da litteratura castelhana: «Envergonham-se de poetisar em portuguez, e têm por peccado mortal ou cousa pouco decorosa fazel-o na dita lingua.» Por este mesmo tempo estava a moda das Academias arcadicas no seu maior fervor em Hespanha, como affirma Valderrábano no prefacio ao poema Angelo-machia: «Entretinham-se os saráos fazendo relações, trechos de comedias, cantando ao fandango xácaras de valentões, e recitavam-se poesias burlescas. Tudo cessou de quarenta annos a esta parte, (1786) e mais vale que se não renovem, a não ser com melhor cultura e melhor influxo nos costumes.»[191] Era tambem ardente este prurido arcadico em Portugal, como o confessa o bispo Cenaculo, no seu estudo As Letras na Ordem Terceira de Sam Francisco: «Ainda durava o seculo das Academias. A duração era effeito dos bons principios, e tambem por que o caracter da nação é o do monarcha. Sendo paixão de el-rei D. João V aquelle genero de estudos, por que passava quatro e cinco horas continuadas n’esta lição, para este fim dispoz uma união de academicos escolhidos, que competissem com o grande merito do seu assumpto, qual era a historia da patria. Espalhou-se pela monarchia este calor: os paroxismos vieram-lhe da desordem em que poz o reino o Terremoto de cincoenta e cinco. Mas d’antes, nas casas particulares, nos conventos de religiosos, e por outras maneiras se ajuntavam a cada passo, não só os letrados, mas tambem os que tanto pretendiam, tratando com diligencia os assumptos.—Nos mesmos claustros achei praticada aquella curiosidade. Nos dias do P. Fr. Joaquim (de Santa Clara) sendo collegial, elle o fomentava em o nosso Collegio de Coimbra, com sociedade de bons amigos, e no Collegio de S. Thomaz e de S. Jeronymo. Admittiram-se os contemporaneos habeis, sendo todos collegiaes, e que foram depois professores ou doutores em a Universidade, e prelados maiores das suas Ordens e alguns bispos.»[192] No seculo XVIII, como o sentia o bispo Cenaculo, o caracter do monarcha era o da nação: D. João V já se não penalisava de não poder trocar a corôa de rei pela cugula de Inquisidor, mas acceitava para maior perstigio da soberania o papel de pastor-arcade; elle amava o canto-chão, e assim como importava da Italia os productos da arte rococo para ornamentar a sua côrte, chamava tambem o veneziano Frei Jorge para ensinar o funebre canto-chão em Sam José de Ribamar. O sentimento da nacionalidade apagava-se, e bem preciso era o entoar o canto mortuario sobre o paroxismo de um povo. Á imitação dos monarchas do seculo XVIII, D. João V tinha por modelos Luiz XV e Leopoldo na sensualidade e na prodigalidade. Gastando quatro e cinco horas em tertulias academicas, bocejava ouvindo a conferencia dos ministros, que interrompia de vez em quando para saber quanto rendia a caixa das almas, como nol-o pinta Alexandre de Gusmão; de noite refocilava-se com as freiras do beato harem de Odivellas, como o descreve o bispo de Gram-Pará. A censura litteraria era exercida pelo cardeal Cunha, que mandava riscar dos repertorios os prognosticos de trovoadas e chuvas.

Em uma nação em que a vida toda se reconcentrava na côrte, em volta do rei e dos seus aulicos favoritos, a influencia franceza tinha de ser preponderante, por que a França era então considerada como o modelo da elegancia e do gosto. Esta influencia franceza na litteratura manifesta-se como uma reacção do purismo pseudo-classico contra o Culteranismo, ou a influencia hespanhola. D. João V tomava como seu figurino Luiz XV com a sua côrte sensual e sumptuosa. Os fidalgos portuguezes começaram a ter nos seus jardins fontes feitas por Bernin, como se usava em França; Mafra era um arremedo de Versailles, e as Aguas-Livres um despique com o Aqueducto de Maintenon. O Conde da Ericeira mantinha relações de amisade com o chefe do pseudo-classicismo francez, o austero Boileau, e traduzia-lhe a sua Poetica para nos dar um codigo de bom gosto. Boileau agradeceu-lhe em uma carta (é a XIV.a) tamanha consagração. Francisco de Pina e Mello imita as Odes sacras de João Baptista Rousseau; Verney, proclamava o Telemaco de Fénélon «uma Epopêa das mais bem feitas e escriptas que tem apparecido.»[193] A Athalia de Racine era traduzida por Candido Lusitano, e o Lutrin, imitado no Hyssope de Cruz e Silva. A fundação da Academia de Historia portuguesa, em 9 de Dezembro de 1720, fôra iniciada pelo Conde da Ericeira no seu palacio da Annunciada «por emulação dos Scientes de França» como se lê em uma Oração panegyrica. É curiosa a transformação das Academias culteranistas do seculo XVII nas arcádicas do seculo XVIII, aproximando-se do classicismo francez. Assim, a Academia dos Generosos, iniciada pelo trinchante-mór de Dom João IV, mantendo-se de 1647 até 1668, é renovada em 1684, e por seu filho D. Luiz da Cunha, continuando até 1693, é disfarçada com o titulo de Conferencias discretas, com que celebrava as suas sessões de 1696 a 1699 em casa do Conde da Ericeira; e n’esse mesmo palacio durante quatorze annos (1714 a 1728) se confundiu com a Academia dos Anonymos, refundindo-se a final na Academia de Historia portuguesa, com caracter particular em 1717, e official depois de 4 de Novembro de 1720. Assim a divisa da Academia dos Generosos: Non extinguetur, com o emblema de uma vela accesa, tornava-se uma realidade, por que n’estas renovações transmittia sempre o gosto do Culteranismo. O antigo secretario da Academia dos Generosos, Manuel Telles da Silva, funda em 1747 a Sociedade dos Occultos, com o fim da transformação do gosto litterario. Existiu até 1755 em que foi dispersada pela tremenda catastrophe do terremoto de Lisboa, e só veiu a reconstituir-se em 11 de Março de 1756 com o titulo definitivo de Arcadia Ulyssiponense, datando as suas conferencias do Monte Ménalo (á imitação do Parrasio, da de Roma.) Quando morreu D. João V, o protector das sociedades arcádicas, celebraram-lhe a memoria as Academias dos Escolhidos, dos Anonymos, dos Applicados e dos Occultos, que funccionavam em Lisboa. Foi contra esta forte corrente culteranista que luctou a Arcadia Ulyssiponense, mas com aquella frieza sensata e incolôr do classicismo francez. A poesia culteranista impunha-se, por que, como o confessa Verney: «a sua contextura é tão facil, que por máo que seja o poeta sempre acerta com ellas. A Decima, o Madrigal, as Liras, a Silva, o Romance lyrico, Quartetos puros e de pé-quebrado, Tercetos, etc., nada mais pedem que a naturalidade do conceito e expressão...»[194] A Arcadia dispendeu a sua energia em questões banaes, propondo a imitação dos Quinhentistas e as regras do emprego dos archaismos e neologismos da linguagem. Sob a pressão material e moral do absolutismo monarchico e do intolerantismo catholico, a auctoridade academica veiu acabar de deprimir os espiritos, e a poesia degradou-se na obscenidade, como se vê nos versos de Caetano da Silva Souto Mayor (o Camões do Rocio), de Antonio Lobo de Carvalho (o Diogenes da Madragoa), nos de Filinto e de Bocage.

No emtanto, sente-se no meio d’esta linguagem falta de expressão emocional o influxo da poesia ingleza em Garção, apezar do seu horacianismo, e em José Anastacio da Cunha. Entre as obras de Garção encontra-se a «Traducção de uns versos inglezes feitos a um grande pintor[195] E da ode A uns annos de uma senhora ingleza, se deprehende qual a sua convivencia, e ensejo de familiaridade com as obras dos poetas inglezes. José Anastacio da Cunha traduziu a Oração universal, de Pope, um dos fundamentos com que o agarrou a Inquisição de Coimbra em 1778; no seu processo do Santo Officio se lê, que era muito amigo do brigadeiro Ferrier «escossez de nação, protestante, o qual lhe pedia traduzisse algumas peças e versos de alguns livros francezes e inglezes, que elle fazia em verso portuguez...» No sequestro que a Inquisição de Coimbra fez dos seus Livros, vem enumerados muitos livros inglezes.[196]

A superioridade das poesias lyricas de José Anastacio da Cunha sobre todas as dos seus contemporaneos explica-se por esses modelos que o conduziram á realidade e á expressão natural e simples da paixão. O pseudo-classicismo reconhecendo a sua inutilidade, cultivava a poesia didactica, pondo em poemas os estudos scientificos tão predilectos do seculo XVIII, ou propagando tambem em tragedias racinianas as doutrinas revolucionarias do criticismo encyclopedista. Póde-se considerar como a ultima phase do Arcadismo, que a Revolução franceza, apezar das grandes paixões postas em conflagração, não conseguiu desviar da sua inalteravel rhetorica. É certo, que em França, pelo mesmo negativismo critico, se operava uma libertação da auctoridade classica e das tradições medievaes, e se proclamava o individualismo humano e o regresso á natureza. É esta corrente proto-romantica franceza, que vae reflectir-se na Allemanha, acordando o espirito dos creadores d’aquella grande litteratura; Lessing imita Diderot no theatro, Goëthe admira o creador do Neveu de Rameau, Wieland reelabora as Gestas francezas, Schiller desenvolve a Tragedia philosophica com intuitos revolucionarios, e o proprio Kant confessa-se fecundado pelas ideias individualistas de Rousseau. Os emigrantes francezes, por occasião da revogação do Edito de Nantes, tinham levado para a Allemanha o impulso da civilisação moderna; era inevitavel a preponderancia do pseudo-classicismo francez. Interrompeu-se essa imitação, quando a Allemanha, suscitada pelo conhecimento da Litteratura ingleza, comprehendeu o valor das suas antigas tradições nacionaes. O rompimento com a cansada imitação da França só podia começar em uma nação forte pela raça e pela riqueza das suas tradições, para fundar a sua Litteratura na idealisação d’ellas. Foi um trabalho consciente. Por occasião da Guerra dos Sete annos a Allemanha separou-se da imitação franceza, e a leitura dos antigos poetas inglezes revelou-lhe que fóra das normas do classicismo francez existiam outras fórmas artisticas mais coloridas e bellas. Lessing, na Dramaturgia, funda a nova prosa allemã e derrue as theorias dos tragicos francezes; a côrte de Weimar, sob o influxo pacifico da regencia de Anna Amelia de Bronswick, agrupa essa pleiada de genios creadores, de que Goëthe era o chefe. Os irmãos Grimm encetam os seus vastos estudos sobre a lingua, a mythologia, o direito, as velhas epopêas e os contos populares da Allemanha; e sobre estes elementos da Patria germanica, resplandece uma nova litteratura, que se torna uma das mais opulentas do seculo. O Romantismo, para os povos do Occidente foi o regresso ás suas tradições da Edade media, não comprehendidas, desprezadas e esquecidas desde a Renascença, pelo prurido da imitação classica sob a protecção official monarchica. Desde então o movimento das Litteraturas romanicas se resume n’este impulso da Litteratura allemã, revelando as fontes organicas de toda a elaboração esthetica.[197]

§ 3.—O Romantismo

(HEGEMONIA DA ALLEMANHA)

Os espiritos mais eminentes do seculo XVIII previram a crise violenta, que a decadencia das instituições politicas provocava, e que as revoltas da consciencia iam apressando. A Revolução franceza foi essa explosão temporal de um movimento, que desde o seculo XII procurava um novo equilibrio; movimento complicado pelo longo esforço negativista de decomposição, e pela incerteza de uma base positiva para a reconstrucção de uma outra synthese humana. A queda dos Jesuitas fôra o resultado da final decomposição do poder espiritual do regimen catholico; e a execução da realeza, na pessoa do desgraçado Luiz XVI, era a transformação do poder temporal, que desde as bandas guerras germanicas, e dos privilegios das classes aristocraticas, se fôra concentrando na dictadura monarchica. Devera seguir-se um forte trabalho de reconstrucção sobre as ruinas do regimen catholico-feudal; a Convenção comprehendeu genialmente o seu destino, e esboçou o poder espiritual com as grandes reformas pedagogicas, e o poder temporal com a substituição provisoria da Republica-democratica. Na complicação dos acontecimentos esta marcha foi perturbada; o poder espiritual desvairado pela metaphysica deista de Robespierre facilmente regressou a uma reacção neo-catholica; e o poder temporal, envolvido nas guerras defensivas e no delirio do terror, foi cahir nas mãos de um aventureiro militar, que com o nome de Consul e de Imperador esgotou a França com uma orgia de guerras sangrentas, que levou a Europa a colligar-se e a fazer a restauração da monarchia. Eis a série de factos que na sua inconsequencia se accumularam na transição do seculo revolucionario para o seculo XIX; a nova edade continuou a antiga lucta, porém com menos clareza. Com rasão considerava De Maistre o nosso seculo como um prolongamento do seculo XVIII. Não se avançou mais no trabalho da construcção da nova synthese; estabeleceu-se a hypocrisia systematica das contemporisações e dos partidos medios (juste milieu); as Cartas-outorgadas e o regimen monarchico-representativo foram a sophismação do poder temporal; da mesma fórma a religião de estado e o subsidio official a todas as desconnexas especialidades scientificas corrompeu o poder espiritual em uma espantosa pedantocracia.

N’esta angustiosa crise, que esterelisou o seculo XIX, que deixará na historia a marca da sua incapacidade para a construcção da synthese definitiva, as Litteraturas reflectiram todos estes abalos de um regimen decahido, e da comprehensão de um ideal superior. Representaram a melancholia e o estado de desalento dos espiritos; deram expressão aos sentimentos que se compraziam em evocar o passado, que procurava restaurar o seu antigo dominio; espalharam os protestos de revolta dos genios insubmissos, e lisongearam o gosto banal de uma burguezia cordata. Todas estas manifestações eram a revelação dos caracteres de uma nova época litteraria: chamou-se-lhe o Romantismo. Veiu da Allemanha esta designação, como viera o exemplo de sympathia pelas tradições da Edade media. Na renovação das Litteraturas romanicas competiu á Allemanha a hegemonia, nos começos do seculo, como resultante da solidariedade da civilisação europêa; e essa acção ligava-se á diversidade que n’este longo periodo de lucta se estabelecera entre o regimen catholico-monarchico e o aristocratico-protestante, dos povos romanicos e germanicos.

Considerando como uma base da Sociologia o estudar a civilisação em todos estes povos que conjunctamente participaram do movimento da Europa occidental, na Italia, França, Inglaterra, Allemanha e Hespanha, estabelece Comte: «Estas cinco grandes nações podem ser consideradas como tendo constituido depois da primeira metade da Edade media, apezar de immensas diversidades, um povo unico reunido sob o regimen catholico e feudal e sujeito a todas as transformações successivas que este regimen provocava consequentemente.»[198] No estudo das Litteraturas modernas torna-se indispensavel este criterio; embora o genio nacional tenda a individualisar-se e a manter o separatismo patriotico como um estimulo de inspiração, é nas Litteraturas que se observa a hegemonia esthetica que cada nação europêa foi exercendo uma após uma sobre o conjuncto das outras, creando assim uma verdadeira solidariedade sentimental na civilisação do occidente. Comte fez sentir o valor d’esta successão hegemonica: «Ainda que a arte tenha sido accusada de fomentar antipathias nacionaes, em virtude da sua incorporação no desenvolvimento proprio de cada população, ella tem, sem duvida, actuado com mais energia em sentido contrario, aproximando as nações, pela viva predilecção universal que as obras primas estheticas suscitavam para o povo que as produzia. Cada uma das bellas-artes teve o seu modo especial de excitar a sympathia universal da Europa e de auxiliar a communicação mutua; mas a influencia mais geral e a mais efficaz, sob este aspecto, pertence á poesia, que obrigou ao estudo das linguas estrangeiras, sem o qual as diversas obras primas não teriam sido apreciaveis.»[199]

Na crise systematica da revolução occidental, a começar do seculo XVI, as capacidades estheticas revelam-se diversamente entre os povos catholicos e os protestantes. Com o catholicismo prepondera a monarchia com a sua absorvente dictadura temporal, apoderando-se das Litteraturas por uma exagerada protecção official, pela instituição de academias destinadas a subordinar a inspiração individual a regras rhetoricas, manietando pela auctoridade do gosto ou dos modelos consagrados todos os impulsos de originalidade. Nada satisfazia melhor este plano do que a imitação da antiguidade classica; e de facto o prolongado perstigio da poesia do polytheismo greco-romano durou com o perstigio das monarchias absolutas, e soffreu a sua reacção depois da explosão revolucionaria. Com o protestantismo preponderou o elemento aristocratico, a quem era sympathico o ideal cavalheiresco do individualismo heroico; e as naturezas artisticas, sem outro apoio mais do que a espontaneidade da sua vocação e a sympathia popular, não perderam completamente a originalidade, por que se não afastaram de todo da Edade media. É por isso que a Inglaterra exerce no seculo XVIII uma influencia sugestiva no pseudo-classicismo francez, e que no seculo XIX a Allemanha actúa nas Litteraturas occidentaes revocando-as pelo exemplo ás suas fontes tradicionaes da Edade media. Nem de outra fórma se explica como o Protestantismo tão anti-poetico pôde exercer uma influencia renovadora; não renegára completamente a Edade media. Comte observou esta differença, concluindo quanto uma verdadeira theoria do progresso humano póde esclarecer o estudo do desenvolvimento historico da arte: «Dos dois modos politicos, o monarchico-catholico e o aristocratico-protestante, o primeiro era mais favoravel á arte do que o outro. Comprehende-se facilmente que a arte recebesse um impulso mais homogeneo e mais completo de um poder mais central e mais elevado, cujo ascendente protector devia incorporar bastantemente a animação contínua de todas as bellas-artes ao systema geral da politica moderna. Assim vêmos os governos monarchicos fundarem Academias poeticas ou artisticas, (Arcadismo) as quaes, primeiramente instituidas na Italia, adquiriram immediatamente em França, sob Richelieu e sob Luiz XIV uma importancia superior. No modo aristocratico e protestante, ao contrario, a preponderancia da força local entregava as bellas-artes ao penivel e insufficiente recurso das protecções particulares, nas povoações em que o protestantismo tendia a neutralisar a educação esthetica começada na Edade media.—A dictadura monarchica em França devia de ter repugnancia pelas recordações da Edade media, em que a realeza era tão fraca e a aristocracia tão poderosa;... Em Inglaterra ao contrario, em que o systema feudal estava menos alterado, as sympathias as mais geraes voltavam-se para as recordações da Edade-media, o que explica a popularidade que teve a sua representação pelo grande Shakspeare.»[200]