a) REHABILITAÇÃO DA EDADE-MEDIA

Uma das causas da incoherencia mental do seculo XVIII fôra o desconhecimento da continuidade historica; no seu negativismo religioso e politico desprezou completamente a Edade media; Helvetius e Raynal chamavam-lhe esteril barbarie, e edade de trevas sem nome. Comprehende-se que a Allemanha feudal, reagindo contra a influencia litteraria da França, procurasse nas tradições heroicas ou cavalheirescas da Edade media elementos sympathicos para a idealisação poetica de espiritos reflexivos. O nacionalismo levava a achar as fontes organicas da sua elaboração artistica. O mesmo espirito feudal, na Inglaterra, comprazia-se com a representação de uma existencia cavalheiresca, que Walter Scott reconstruia pacientemente e com esmero na portentosa série dos seus romances historicos. Em França este regresso á Edade media não se deu por um intuito artistico; determinou-o um fim politico. O conde José de Maistre, servindo a causa da restauração neo-catholica, tratou de estabelecer a solidariedade historica da Edade media com o presente. Nada percebia do progresso humano depois do christianismo, como o previra Condorcet, porém via com lucidez a continuidade do passado nos seus elementos conservantistas. Foi esta incapacidade que provocou a lucta entre Classicos e Romanticos, que rompeu em 1818; n’essa lucta revelava-se a antinomia de doutrinas. Os Classicos, que eram voltairianos, que continuavam sob a Restauração o ideal republicano, ou como academicos se conciliavam com a monarchia liberal, sustentavam o predominio absoluto dos modelos greco-romanos. Os Romanticos, começaram por servir a reacção catholica, e para isso é que Chateaubriand idealisou a Edade media no Genio do Christianismo; sendo renovadores na litteratura, caíam no contrasenso de cooperarem para o retrocesso da consciencia. A esta phase religiosa chamou-se o Romantismo emmanuelico, sendo os seus principaes vultos depois de Chateaubriand, Lamartine, Alfred de Vigny e Soumet.

Mas a Edade media não fôra sómente catholica; fôra feudal e cavalheiresca. Sob este aspecto começou a apparecer como um mundo ignorado, rico de formosos symbolos e de uma sociabilidade altamente dramatica; desenvolve-se então o romance historico sobre os typos de Walter Scott, e o drama de sensação, pelo gosto de Schiller. É então que apparece Victor Hugo com a Notre Dame e os Burgraves. Na Edade media tambem luctaram pela liberdade as Classes servas, que chegaram a constituir o terceiro Estado, que triumphou com a Revolução; foi esse o campo do Romantismo liberal, que foi achar a sua disciplina na renovação dos estudos historicos por Agostinho Thierry, Guizot, Michelet, Barante, etc.

Assim como a palavra Romance designa a fórma a mais original e caracteristica das Litteraturas modernas, em que se idealisa o elemento domestico desconhecido na arte antiga, tambem a palavra Romantismo é uma feliz denominação de uma edade ou phase das Litteraturas modernas em que ellas reataram a continuidade com a Edade media, onde se elaboraram todos os germens tradicionaes das raças incorporadas pela civilisação romanica. Nenhuma expressão poderia achar-se mais significativa, por que na diversidade das nações europêas tem implicita a ideia da sua unidade, tantas vezes e tão calamitosamente obliterada na historia. Nas Conversas com Eckermann, Goëthe conta: «A determinação de poesia classica e de poesia romantica, que n’este momento circula pelo mundo, e que causa tantas discussões e dissensões, partiu, quanto ao fundo, de mim e de Schiller. Eu adoptára para a poesia o processo objectivo, o unico que me parecia bom, Schiller, que pelo contrario, procedia de um modo inteiramente subjectivo, julgou o seu methodo melhor, e foi para se defender contra mim que elle escreveu o Tratado da Poesia ingenua e da Poesia sentimental. (1795.) Os Schlegel apoderaram-se d’esta distincção para a levarem mais longe, de sorte que presentemente estendeu-se pelo mundo todo.» Á maneira da Querella dos Antigos e Modernos, levantou-se a polemica entre Classicos e Romanticos, avançando para uma melhor comprehensão historica de cada Litteratura, ambas bellas nas suas differenças estheticas. Segundo Schiller, para os gregos a poesia é uma imitação da realidade quanto possivel, tendendo para a verdade; o poeta moderno ou sentimental reproduz a sua propria impressão idealisando-a como realidade. Mas esta distincção, sendo aliás fundamental é incompleta, por que a objectividade pertence a todas as épocas de espontaneidade irreflectida, o que se repete nas Gestas da Edade media; e a subjectividade caracterisa as épocas em que ha um intenso trabalho mental, critico e reflectido. A revolução occidental do seculo XII ao XIX foi na sua maior parte mental, metaphysica, critica e negativista; bastava esta intensa subjectividade para caracterisar as Litteraturas creadas n’esta longa instabilidade. Comte viu mais claro o problema; distinguiu as Litteraturas antigas pela idealisação da vida publica (as Epopêas, as Tragedias, os Córos e Odes triumphaes), e as Litteraturas modernas pela idealisação da vida domestica, como se vê nos Romances e na Comedia molieresca, creados apezar de todas as correntes contrarias a uma natural evolução esthetica. N’esta longa crise revolucionaria, o completo abandono do sentimento sem intervenção social deixou manifestar-se o individualismo em revolta; é este elemento pessoal que apparece na arte moderna de uma fórma original e extraordinaria, dando logar ás expansões de um esplendido lyrismo.

b) O ULTRA-ROMANTISMO

Os Classicos e Romanticos já se não entendiam entre si, chegando os sectarios das normas do gosto greco-romano ou academico, a pedirem a intervenção do governo contra os quebrantadores das regras litterarias; os romanticos achavam n’este titulo um apódo de desprezo com que os queriam ferir, e renegavam-o com desdem. Assim, em 1824, lamentava Victor Hugo que empregassem o nome de Romantico sem definirem o termo, explorando «um certo vago indefinivel que lhe redobrava o horror.» E por fim, quando uma pleiada fecunda de talentos exprimia nas fórmas litterarias os sentimentos modernos, ainda Victor Hugo, em 1830, se felicitava de que «estes miseraveis termos de questiunculas tivessem cahido no abysmo...» Tambem Garrett no seu poema Camões repellia de si a imputação de romantico, e Herculano considerava essa lucta como a dos antigos Nominalistas; este seguia o romantismo emmanuelico idealisando a saudade pela vida monachal, e Garrett seguia o romantismo liberal, como o declara no Arco de Sant’Anna. Mas se estes dois chefes não comprehenderam a lucta dos Classicos e Romanticos, tiveram a intuição da missão da nova edade litteraria; Garrett avançou para o estudo das tradições nacionaes no Romanceiro, e Herculano fixou-se no estudo das instituições da Edade media portugueza, a que elle chamou Historia de Portugal. O que era definitivamente o Romantismo, que ninguem sabia explicar, viu-o lucidamente M.me de Staël, destacando as duas edades, a classica «que precedeu o estabelecimento da religião christã» e a que se lhe seguiu, isto é, todos os germens tradicionaes das novas nacionalidades do Occidente unificadas sob o regimen catholico-feudal da Edade media até aos tempos modernos. O regresso a estas origens communs das Litteraturas romanicas é que é o facto capital da transformação esthetica do seculo XIX. A paixão pela Edade media tornou-se uma monomania; era facil de reproduzir os seus symbolos caracteristicos e de simular os seus conflictos de classes, em dramas e romances. A representação exclusiva da Edade media, á falta de objectividade, levou ao exagero da phrase, a emphase rhetorica, produzindo um estylo chamado o Ultra-Romantismo. A subjectividade fôra tambem considerada como um caracteristico das litteraturas modernas, e n’essa parte parece ainda reconhecer-se a hegemonia allemã.

No decurso da longa edade revolucionaria, primeiramente mental e depois social, houve o interregno do sentimento, deixado á espontaneidade da sua concordia natural. No seculo XVIII irrompeu esta nova força, primeiramente na fórma de philanthropia, inspirando reformas a favor das classes soffredoras; veiu a passividade emocional diante da natureza, a sensibilidade idyllica, tornou-se moda a voluptuosidade da melancholia, até se chegar á sensiblerie das lagrimas, ao desalento da vida e ao pessimismo. A grande actividade mental do seculo, que tudo analysou, conduzia a um exagerado subjectivismo, e as commoções da explosão temporal foram determinar nas fórmas da arte moderna a expressão da sentimentalidade acordada n’essa crise. A alma humana carecia de consolos, e a musica entrou na sua phase de expressão em Haydn, Mozart, Beethoven, Weber e Cimarosa. A Poesia saíu do allegorico e deslavado arcadismo para tornar-se pessoal, e traduzir este estado morbido do sentimentalismo melancholico. N’este meio social e moral, é que appareceu na Allemanha o wertherismo, não creado por Goëthe na sua novella de Werther, mas de que esta narrativa de uma paixão vaporosa e fatal que leva ao suicidio foi um resultado. Em França, este mesmo contagio de tristeza ou o obermanismo teve o evangelho no Oberman de Sénancourt e no René de Chateaubriand. Na Inglaterra choram-se as Noites elegiacas do Dr. Young, e surgem depois os poetas Lakistas cantando os luares, os nevoeiros, os crepusculos da tarde, todas as emoções tenues da alma; Wordsworth inspirava-se de um platonismo religioso e animava cada cousa com entidade moral; Southey e Wilson completavam a pleiada dos poetas visinhos dos lagos de Westmoreland e de Cumberland, para quem a poesia era um pantheismo christão, uma somnolencia de extasis, uma bonança mystica no meio da grande derrocada do regimen theologico-feudal do fim do seculo XVIII.[201]

No renascimento esthetico do seculo actual reapparecia o elemento pessoal da Arte, que estivera abafado sob a imitação das obras classicas; consequentemente resoava um lyrismo novo, subjectivo, affinado pelo estado das almas em uma éra perturbada que começava. Na Allemanha, Novalis tirava novos accentos d’esse sentimento vago e indeterminado da melancholia; a existencia tornava-se uma nostalgia e saudade da outra vida; o tumulo, os goivos dos cemiterios, a solidão, os dobres funerarios, a cruz do ermo eram os symbolos sympathicos do lyrismo que mais aggravava esta doença das almas ingenuas e sensiveis. Os poetas tomavam a sério o pezo imaginario da sua angustia, declamavam ao vento as suas elegias plangentes, e muitas vezes expiravam minados por consumpção nostalgica irremediavel. Em França, Lamartine propagou esta sentimentalidade larmoyante dando-lhe uma uncção religiosa; e Millevoye, com menos talento abandonou-se como Novalis ao seu desgosto intimo, cahindo em um languor sem remedio. A paixão pelo genio melancholico estendeu-se por toda a parte pela impressão dos poemas de Ossian, inventados por Macpherson; as sombras dos guerreiros vagando na cerração dos promontorios, os eccos da harpa bardica perdidos nos banquetes estridentes, as lembranças dolorosas das tribus extinctas, um mixto de objectividade homerica com a subjectividade das lamentações e dos psalmos biblicos (em um syncretismo consciente) tornavam o genero agradavel e suggestivo.

Transitou-se assim para o lyrismo religioso ou emmanuelico, como uma reacção contra a incredulidade do seculo encyclopedista, contra o philosophismo que devastára os espiritos. O Lyrismo portuguez estava esterilisado pelas imitações arcádicas; o proprio Garrett ainda se chamava Jonio Duriense, e Castilho chamava-se Mémnide Egynense, na Arcadia de Roma.

A emigração politica é que nos revelou o Romantismo; emquanto Garrett e Herculano comiam o pão do exilio, acompanharam o movimento litterario que se operava em volta d’elles. Garrett comprehendeu que o renascimento da vida politica da nacionalidade carecia da base affectiva da litteratura e das tradições, e Herculano do conhecimento da sua historia. A feição do Lyrismo iniciado por estes renovadores foi a que predominava nas outras litteraturas, melancholica e emmanuelica. Garrett foi completamente elegiaco, e de um subjectivismo exagerado no poema narrativo Camões; invoca a saudade, o gosto amargo, o pungir delicioso que lhe repassa os imos seios da alma, em uma especie de obermanismo, e já no fim da vida ficou fiel a essa emoção nas Folhas cahidas, o principal modelo do nosso lyrismo. Herculano foi tambem sentimental, mas pela rigidez do seu temperamento não podendo conciliar-se com a sensiblerie lamartiniana, pendeu para a emoção religiosa, e tomou por modelo Klopstock; na Harpa do crente, destacam-se a Semana santa, a Cruz mutilada, a Arrabida, como um protesto a favor do christianismo medieval, que Chateaubriand tentára revivescer pela arte e José de Maistre esclarecer pela continuidade historica, que a Revolução quebrára.