A feição da sentimentalidade nostalgica, affinada pelos Lakistas, pela melancholia de Novalis e pelo desalento de Millevoye, teve em Portugal já tardiamente o seu representante em Soares de Passos; são-lhe sympathicos os poemas de Ossian, as balladas do norte e as Harmonias de Lamartine.

O seculo XIX, na sua instabilidade politica e ausencia de uma doutrina philosophica aggravada pela fragmentação das especialidades scientificas, continuava o seculo XVIII no insurreccionismo dos espiritos. Os que não cahiam na passividade revoltavam-se; o Lyrismo reflectiu este estado emocional, que levava á concepção pessimista do universo, como em Leopardi, ou ao imperio absoluto do mal, como o satanismo de Byron. O immortal poeta contrapõe ao mundo a sua individualidade, que representa no Child Harold, no Don Juan, no Manfredo, mas sente em volta de si um vacuo moral que lhe annulla a intelligencia capaz de abranger o infinito, e um coração puro em que podia accolher o universo. Tem o atheismo na cabeça e a aspiração religiosa no intimo da alma, mas vê-se forçado pelo meio deleterio ambiente ao sarcasmo, á ironia, á blasphemia. O seu ideal, como o de Shelley, sendo apto para trazer a concordia ás almas e revelar-lhes a synthese affectiva humana, é deturpado em uma missão negativa. Comte definiu de uma fórma nitidissima o genio e a missão de Byron: «O mais eminente poeta do nosso seculo, o grande Byron, que até hoje, tem a seu modo melhor do que ninguem presentido a verdadeira natureza geral da existencia moderna, simultaneamente mental e moral, tentou espontaneamente e sósinho esta audaciosa regeneração poetica, unico desfecho da Arte actual. Sem duvida, a sã philosophia não estava então ainda bastante avançada para permittir ao seu genio o apprecial-a sufficientemente, na nossa situação fundamental, além do aspecto puramente negativo, que elle, apezar de tudo, soube admiravelmente idealisar... Mas, o profundo merito das suas immortaes composições e o seu immenso successo immediato, apezar das vãs antipathias nacionaes, entre todas as populações cultas, tornaram já irrecusavel quer a potencia poetica privativa da nova sociabilidade, quer a tendencia universal para uma tal renovação.»[202] N’esta orientação esthetica seguia Shelley, desviado da sua obra por uma morte desastrosa. A parte negativa do genio de Byron é que foi seguida por outros lyricos, segundo os seus caracteres nacionaes; pelo allemão Henri Heine, no humour e launa, e em Alfred de Musset por um alcoolismo com que se sobreexcita, como o phantastico Foë. Falhos de uma concepção geral, os Lyricos modernos esgotaram-se reproduzindo a nota negativa de Byron. Em Portugal repercutiram-se estas cambiantes, como se vê nos Sonetos de Anthero, confessando elle mesmo que tem um pouco de Heine; no Lyrismo brazileiro prevaleceu o mussetismo, pela mesma fórma desgraçada da dissipação da vida, como se observa em Alvares de Azevedo e Castro Alves.

A poesia lyrica do Romantismo esgotou-se em uma exagerada subjectividade; o elemento pessoal da arte não encontrava caracteres nem concepções, na invasão das mediocridades. Os poetas lyricos modernos preoccuparam-se de um modo exclusivo da fórma, antepondo a expressão á concepção, ou o parnasismo. A facilidade da acquisição da technica desvairou os talentos subalternos. No estado actual dos espiritos e na crise por que está passando a consciencia moderna para fundar e universalisar a sua nova synthese, a Poesia soffre tambem os effeitos d’esta instabilidade moral. Compete aos poetas dignamente modernos empregar todo o seu poder de expressão em dar universalidade ás concepções positivas, para que se criem assim os novos costumes estaveis, elementos de idealisação para a Arte pura. Os poetas que cultivam exclusivamente a expressão, sacrificando-se ao preconceito da arte pela arte, abdicam de uma missão social, chegando por isso raras vezes a despertar a sympathia social. Quando idealisam com elevação sentimentos eternos e humanos, como o amor, ainda conseguem ser lidos; mas ha n’este sentimento um personalismo que amesquinha a emoção, e que reduz a obra de arte a uma confidencia que nos é indifferente. M.me Ackermann formulou em poucas palavras a orientação do poeta moderno: «Fazer poesia subjectiva é uma disposição doentia... É em nome da natureza, é sobretudo em nome da humanidade, que é precisa a voz. Estas fontes de inspiração são as unicas verdadeiramente profundas e inexauriveis.» Restabelecida a continuidade historica da Edade media, estava conciliado o mundo romantico com o classico, e logicamente se segue o conhecimento de uma mesma Humanidade. É esse sêr ideal e real que tem de ser idealisado em todas as manifestações artisticas, cooperando a formação segura de uma Philosophia da Historia com a idealisação simultanea de uma Poesia da Historia.

c) DISCIPLINA CRITICA E PHILOSOPHICA

Depois de estabelecidas as bases criticas dos poemas homericos, por Vico, e amplamente comprovadas por Wolf, veiu a comprehensão dos cantos nacionaes e o reconhecimento da sua importancia scientifica. Notou-se que o homem assim como formava os seus systemas de linguagem e de mythos religiosos independente dos grammaticos e dos theologos, tambem antes dos litteratos soubera manter a tradição e dar fórma aos sentimentos que realisaram a unificação das nacionalidades. Em 1794, a descoberta da collectividade homerica por Wolf, coincidia com a manifestação da consciencia de um povo na Revolução franceza. A eloquencia dos factos justificava a concepção especulativa do philosopho; nas modernas revoluções da Europa, a poesia continuou a manifestar-se como o grito da liberdade: a Marseillaise, de Rouget de l’Isle, exaltava as multidões; as estrophes de Krasinski e de Miçkievich convulsionavam os estudantes da Polonia; os hymnos de Poetefi ajudavam a causa da emancipação da Hungria; os hymnos de Riego e da Maria da Fonte atacavam o despotismo que deixava cahir a mascara da hypocrisia liberal. Conheceu-se que a alma popular tinha a sua poesia, e que era accessivel a esse encanto. Esta descoberta affirma-se pelas descobertas da critica e da philologia; estudaram-se os cantos gaëlicos e as narrativas do Mabinogion, na Inglaterra, foram achadas as Canções de Gesta da França, reproduziram-se os Niebelungen, da Allemanha, e os Romanceiros da Hespanha. A archeologia, a linguistica, a mythographia, a critica da arte, a philosophia, cooperavam para darem novas bases á sciencia da Historia, determinando o que ha de verdade nas tradições. Jacob Grimm, dominado por esta sympathia percorre a Allemanha, e no decurso de dez annos explora a rica mina das tradições dos povos germanicos. E o que elle fazia como erudito genial, os poetas tentaram como artistas reconstruindo pelo sentimento as edades passadas. Uhland, na Allemanha, foi o poeta que mais trabalhou para a comprehensão da alma popular; chamavam-lhe por isso o ultimo trovador; a sua imaginação de fada repovoava os castellos em ruinas, reconstituindo as lendas dos solares extinctos pelas vagas tradições locaes. Era um propheta do passado prégando o amor da Edade media. Nas suas balladas acha-se a mesma consagração das Côrtes de Amor, ainda os peregrinos voltam desconhecidos da Terra Santa e cantam ao sopé dos castellos o lai plangitivo do ausente; o cavalleiro errante é ainda impellido pelo sentimento do amor e da justiça; na Cathedral continúa vibrando o sino que toca á revolta, e ainda lá dentro nascem os amores immaculados dos petrarchistas. O cantico de uma edade que passou torna-se no seu plectro uma aspiração da liberdade moderna.

Na Inglaterra Lockart, guiado por Walter Scott, traduzia os romances hespanhóes, que Jacob Grimm tambem reproduzia na Silva de Romances viejos. A sympathia da tradição iniciava a unificação dos povos; pelo estudo das origens da Divina Commedia e do Decameron se viu como todas as raças da Europa contribuiram com o syncretismo das tradições medievaes para a elaboração das obras primas litterarias. O Fausto, de Goëthe, era essa tradição restricta, illuminada por um pensamento philosophico e universalisando um estado da consciencia humana enganada pelas noções absolutas da metaphysica com que fôra seduzida; a salvação do doutor vem da tolerancia da relatividade.

Só muito tarde é que chegou a Portugal a necessidade de saber se eramos um povo vivo, ou, o que valia o mesmo, se possuiamos uma poesia tradicional; Garrett regressára da primeira emigração de 1823, e tendo assistido na Inglaterra á impressão provocada pelas publicações de Ellis, Percy, Rodd e outros collectores, veiu aqui encetar essas pesquizas. Retocou os cantos populares ao gosto de Uhland e de Percy, misturando com as dezaseis rhapsodias achadas nas lareiras da provincia as suas composições litterarias da Adosinda e Miragaia. O criterio d’estes estudos, empregado pelos irmãos Grimm, é que prevaleceu, e trabalhando já n’este periodo de disciplina scientifica fomos levados do estudo dos Foraes para a investigação dos Romanceiros. Raiou-nos uma luz nova: o que parecia rudeza era o documento de um estado social extincto, ou de uma raça; o que parecia imagem sem sentido era um symbolo foraleiro do periodo hispano-germanico, conservado nos costumes pela persistencia do elemento mosarabe; o que se affigurava um erro grammatical era um archaismo de linguagem; o que parecia um fragmento obliterado era um episodio abreviado de uma Gesta carlingia ou de uma novella arthuriana. Assim comprehendemos a inerrancia das tradições populares, que proclamára Jacob Grimm.

A Edade media foi no seu conjuncto estudada scientificamente em todas as suas manifestações; as novas linguas romanicas, os rudimentos litterarios épicos, lyricos e dramaticos, as creações artisticas e a sumptuaria, as instituições civis e religiosas, as luctas de classes sociaes, o feudalismo, as jurandas, as communas e a realeza, a persistencia das instituições romanas através do dominio dos invasores germanicos, a constituição das nacionalidades, os conflictos doutrinarios das escholas philosophicas e da theologia, tudo se tornou objecto de numerosas monographias historicas, que deram logar ao conhecimento pleno d’esta moderna antiguidade. O Ultra-Romantismo dissolveu-se diante da seriedade da sciencia. Qual seria então a marcha das Litteraturas, quando melhor se conhecia o seu berço organico da Edade media? Infelizmente a marcha social da Europa estacionou no seu trabalho de reorganisação nos expedientes aventurosos da transição parlamentarista; em quanto á parte mental, a falta de opiniões definitivas e sua versatilidade não deixou crear caracteres dignos e costumes estaveis, por tanto, as Litteraturas resentiram-se d’esta situação deploravel. Gastaram-se vivos esforços em renovar as fórmas litterarias reproduzindo a realidade no Naturalismo, mas as obras primas não conseguiram cativar a sympathia popular. Faltava-lhes um ideal, e esse não póde ser senão a fórma esthetica da grande synthese philosophica para a qual a humanidade tende. Notando a insufficiencia da Arte e das Litteraturas modernas, Comte formulou nitidamente as condições necessarias para a sua renovação final: «As bellas-artes, destinadas á multidão, devem com effeito, pela sua natureza sentir a indispensavel necessidade de se apoiarem sobre um systema conveniente de opiniões familiares e communs, cuja preponderancia prévia é egualmente indispensavel para produzir e para gosar, a fim de preparar suficientemente entre o interprete activo e o espectador passivo esta harmonia moral que d’ante mão dispõe um a secundar espontaneamente os meios de expressão empregados pelo outro, e sem a qual nenhuma obra de arte conseguiria ser plenamente efficaz, mesmo sob o ponto de vista individual, e, com mais forte rasão sob o aspecto social. É a deficiencia de uma tal condição, rarissimamente preenchida na arte moderna, o que basta para explicar o pouco effeito real de tantas obras primas, concebidas sem fé e apreciadas sem convicção, e que, apezar do seu eminente merito, não podem excitar em nós senão impressões geraes inherentes ás leis geraes da natureza humana; de sorte que d’aqui resulta quasi sempre uma influencia muito abstracta e consequentemente pouco popular.»[203] O atrazo mental na reconstrucção da synthese humana, contrasta com a dispersão de energias em especialidades scientificas verdadeiramente inuteis, e com a falsa direcção das intelligencias desprovidas dos sentimentos que fecundam os nobres caracteres. É ás Litteraturas que compete o irem adiante, dando disciplina aos sentimentos, e acordando-lhes o ideal que tem andado confundido em indefinidas aspirações. Os mais difficeis problemas da reorganisação social só podem ser resolvidos affectivamente; assim se operou no christianismo na transição da Edade media. Servindo este destino, as Litteraturas desenvolvidas sobre concepções sympathicas, que tendem a tornar-se estaveis, reatarão essa mutualidade perdida, essa antiga collaboração entre o poeta que idealisa e a multidão que se impressiona.

NOTAS DE RODAPÉ:

[97] Cours de Philosophie positive, t. VI, p. 146.