A reacção da côrte de D. Maria I contra as reformas pombalinas, lançou a nação na violencia do intolerantismo; fizeram-se perseguições systematicas aos homens intelligentes, como ao mathematico e poeta José Anastacio da Cunha, a Felix de Avelar Brotero, a Filinto Elisio, a José Corrêa da Serra, e por ultimo até ao poeta Bocage, por causa do seu espirito encyclopedista. Assim se cahiu n’esse gráo de cretinisação, que fazia dizer ao P.e Theodoro de Almeida, ao inaugurar a Academia das Sciencias em 1779: «Que admirados ficareis, senhores, se soubesseis quam vil é o conceito que mesmo os estrangeiros fazem injustamente de nós. Quando lá fóra apparece casualmente algum portuguez de engenho mediocre, admirados se espantam como de phenomeno raro. E como assim? (dizem) de Portugal? do centro da ignorancia!—Assim o cheguei a ouvir.» No seculo XVIII a Europa confundia a situação mental dos portuguezes com a crassa estupidez dos seus governantes, como hoje nos identificam com o descaro da sua insolvencia. A Academia das Sciencias foi um fóco de luz que o duque de Lafões e José Corrêa da Serra, auxiliados por Vandelli e o visconde de Barbacena, projectaram n’este prolongamento da Edade media em Portugal.

A nova Arcadia.—A influencia franceza, que se contrabalançava com a auctoridade dos Quinhentistas na primeira Arcadia, depois da sua dissolução é que adquiriu uma completa preponderancia. A litteratura franceza era o orgão da propaganda philosophica e politica que convulsionavam a Europa. A Nova Arcadia ou Academia de Bellas-Lettras foi fundada pelo mulato brazileiro o P.e Caldas (Lereno Selinuntino) no palacio do Conde de Pombeiro. No meio das grandes commoções politicas da Europa com o apparecimento dos principios de 1789, a Nova Arcadia fechou-se no seu remanso pastoral, alheia a todas as reclamações humanas.

No meio d’este insulso idyllio, rebentou o conflicto turbulento do genio de Bocage, que reagia contra a mediocridade geral vibrando satyras immortaes. A sua adhesão aos principios da Revolução franceza levou-o aos carceres da Policia, então mais terriveis do que os da Inquisição, para a qual appellou, para escapar. Póde-se dizer que o meio social amesquinhou este genio, que apezar da imbecilidade geral soube sentir a superioridade de Camões.

O lyrismo portuguez teve uma fugaz renovação, pelo favor que no gosto do tempo encontraram as Modinhas brazileiras, tão celebradas por lord Beckford, consideradas como o elemento generativo da musica portugueza por Strafford, e sendo na realidade uma persistencia tradicional das antigas serranilhas gallezianas. As Lyras da Marilia de Dirceu, de Gonzaga, são o que ha de mais bello no lyrismo da ultima metade do seculo XVIII. A superioridade litteraria revelava-se entre os escriptores do Brazil, que pelo influxo da Revolução franceza serviam a causa da emancipação d’esta explorada colonia, que aspirava á legitima autonomia de nacionalidade. A Nova Arcadia dissolveu-se depois do conflicto de Bocage, depois de ter accumulado Odes, Sonetos, Epistolas, Elogios dramaticos. Durante a segunda metade do seculo XVIII vivemos entregues a todas as tropelias da rasão de estado, sob a vigilancia feroz do Intendente Manique, sob a suspeição das ideias francezas e apavorados pelo intolerantismo religioso. A censura litteraria e a policia nas alfandegas, não deixavam entrar em Portugal os livros suspeitos, e as obras dos Encyclopedistas eram queimadas na praça publica pela mão do carrasco.

A nação soffreu os tremendos desastres provocados pela inconsciencia politica; depois da invasão napoleonica e do não menos terrivel protectorado da Inglaterra, houve um momento em que a nação manifestou vida propria, na revolução de 1820, em que no meio das grandes catastrophes reassumiu a sua soberania, proclamada como fonte do poder na Constituição de 1822. Com esta data gloriosa da liberdade portugueza, começa simultanea com a renovação social uma nova e fecunda phase na litteratura.

Na Europa passava-se a renovação litteraria do Romantismo, agitando a França, a Italia, a Inglaterra e a Hespanha; em Portugal continuavamos estacionarios na admiração dos classicos, como a colonia romana longinqua que ainda continuava a veneração do Imperador já destituido. Um accidente desgraçado, a restauração do absolutismo bragantino, provocando a emigração de 1823, é que levou os nossos innovadores a descobrirem a relação entre as litteraturas e as aspirações da sociedade.

A baixa Comedia.—Com as comedias hespanholas de capa y espada e as italianas de imbroglio, fez-se um amalgama sem intenção, nem responsabilidade litteraria para acudir á exploração dos theatros do Salitre e do Bairro Alto. Tal era a baixa comedia, em que se fundiam elementos das obras de Lope de Vega, Molière e Goldoni. Eram geralmente em verso octosyllabo assonantado, e constituem um vasto reportorio avulso, chamado Comedias de cordel. Esta creação correspondia ao estado dos espiritos, quasi idiotico, a que os levára a inquisição e o cesarismo; a sua publicação tornára-se uma industria dos cegos, ligados entre si em uma Confraria do Menino Jesus, que tinha o privilegio exclusivo da sua exploração. Na baixa comedia não se encontra um protesto contra o aviltamento geral, mas abundam as graçolas equivocas, os esgares de quem quer reagir contra o terror. Distinguiram-se no genero Antonio José da Silva, alcunhado o Judeu, e Nicoláo Luiz. Contra o gosto popular que applaudia as Operas do Judeu reagiu o árcade Garção. Filinto appellava para a tradição dramatica nacional: «Lêam a opera dos Encantos de Circe, eruditissimo parto de um engenho judaico. Houve editor que modernamente deu á luz esse non plus ultra do genero dramatico; e Gil Vicente, e Prestes e outros classicos ficaram para sempre no cadoz! Oh vergonha! oh ingrata incuria!» Pela sua parte, o árcade Manoel de Figueiredo reagiu contra Nicoláo Luiz, querendo dar ao theatro bases philosophicas; faltava-lhe porém o talento, não obstante a sua clara comprehensão do problema.

O que era o theatro póde avaliar-se pela situação dos actores; o Intendente da Policia, Pina Manique, nas Contas para as Secretarias traz curiosas noticias, que derramam uma immensa luz na historia do theatro no seculo XVIII; lê-se na Conta, de 30 de setembro de 1792: «Os comicos e os Emprezarios, que de ordinario são os mais infimos, e que para os conter e conservar a boa ordem e policia do theatro é necessario a força, sem a qual nada se póde fazer, por que é uma gente sem melindre ou caprixo, e são susceptiveis de tudo aquillo que é máo para o adoptarem, ou seja contra os bons costumes, ou contra a honra, o ponto é que elles tenham interesse. Além de que não cumprem o que devem para satisfazer ao publico, e muitas vezes é preciso contel-os para não enxerirem algumas palavras menos decentes, que não vêm na peça que executam; etc.» (Liv. III, fl. 264 a 267.) O Intendente era a favor das representações, por que oppondo-se á entrada em Portugal das ideias francezas, considerava o theatro um elemento indispensavel para conservar os cidadãos longe do conhecimento dos successos da Europa, e sem logar para discutirem sobre os negocios publicos. A baixa comedia foi um instrumento do cesarismo. Durou esta fórma dramatica até ao tempo de Garrett, e algumas das principaes peças d’esta eschola ainda sobrevivem na scena, como o Manoel Mendes Enxundia, de Ferreira de Azevedo, o Doutor Sovina e o Zanguizarra. Nunca uma litteratura foi mais completa na revelação do estado decadente de uma nacionalidade. A Arcadia, querendo restaurar o theatro, traduziu e imitou os tragicos da época de Luiz XIV, segundo a sua fé monarchica; mas com a corrente revolucionaria lêram-se e representaram-se as tragedias philosophicas de Voltaire, que persistiram até á geração de 1820.

NOTAS DE RODAPÉ:

[206] No fragmento da Poetica provençal que vem no Cancioneiro Colocci-Brancuti, cita-se no cap. IX este genero de seguidilha, em que se intercalam versos de outrem: «som em prazer ou em ledo.» Têm quasi sempre o estribilho: Leda vou eu, etc.